Do passado para o futuro: A alfaiataria como novidade da moda

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Valdirene Nunes, professora do Departamento de Design de Moda do Centro de Educação Comunicação e Artes da UEL: “[A alfaiataria] É uma técnica perpetuada há muito tempo, um processo artesanal que já existia no ano de 1280 e que vem desde os primórdios.” {Foto: Cristiano Rantin}
Cristiano Rantin

A definição para alfaiate, segundo o dicionário Aurélio, é “aquele que faz roupas de homem e, por vezes, vestimentas femininas com talhe masculino”. Não consta, no entanto, que este é um ofício cada vez mais raro nos dias de hoje, algo preocupante para toda a indústria de moda. É isso que alerta Valdirene Nunes, professora do Departamento de Design de Moda do Centro de Educação Comunicação e Artes da UEL.

Durante a pesquisa de mestrado, a professora buscou compreender, através de uma pesquisa histórica, os diversos feitos da alfaiataria. “É uma técnica perpetuada há muito tempo, um processo artesanal que já existia no ano de 1280 e que vem desde os primórdios”, explicou Valdirene.

No primeiro momento, o enfoque foi direcionado sobre todos os feitos da alfaiataria, descobrindo como ela ainda se evidencia na moda e sua importância para a indústria. Segundo Valdirene, a alfaiataria hoje não é só um processo que só se aplica em seu segmento. Seus feitos, processos e técnicas se perpetuaram e foram transmitidos para outros segmentos da moda. Um exemplo disso são alguns casacos de alfaiataria de hoje, que também conseguem ser casuais.

Já na pesquisa prática, em um estudo de caso, foi feita uma busca no site do Ministério da Educação (MEC) por todas os cursos superiores bacharelado e tecnológicos que ofertavam e trabalhavam com o ensino de moda, dentro de suas diversas vertentes. “Depois disso, pesquisei se esses cursos ofertavam ou não disciplinas relacionadas a alfaiataria, fui ver se a academia está mantendo esse ofício vivo ou não”, ressalta.

Valdirene comenta que encontrou 184 instituições que ofereciam o ensino de moda, iniciando uma investigação para saber se a alfaiataria ainda era estudada no âmbito teórico e prático. O resultado foi que a parte teórica ainda é uma matéria estudada, mas na prática, segundo consta nas grades curriculares e ementas disponíveis nos sites, foram encontradas apenas 6 universidades que trabalham efetivamente com a alfaiataria.

Para a pesquisadora, um número tão baixo como este comprova a necessidade de pensar e repensar esse ensino. Aprofundar essa pesquisa em um doutorado, bem como pensar em maneiras de impedir que esse ofício morra com a proposta de cursos focados na alfaiataria são alguns dos objetivos de Valdirene para um futuro próximo. “Se eu deixo de preservar a alfaiataria, pode ser que ela seja esquecida e não exista mais. É preciso que exista uma manutenção, na prática, para que a academia continue ensinando esse ofício”, defendeu.

A indústria – Mais do que a importância da alfaiataria para a evolução da moda, já que foram os alfaiates os responsáveis pelo desenvolvimento das primeiras tabelas de medidas do corpo e do uso sistemático da fita métrica, esta técnica tem um impacto direto na produção de moda em escala industrial. “Para toda indústria, ter um modelista ou designer que conheça a alfaiataria é um benefício”, afirmou a professora Valdirene.

Ela explicou que, mesmo a produção não estando diretamente ligada a alfaiataria, compreender essa técnica é de extrema importância porque assim é possível transferir qualidade para as peças. Criar um bolso embutido para uma calça, por exemplo, faz parte do ofício dos alfaiates e ter esse conhecimento ajudaria muito. Aumenta a qualidade imposta pela concorrência industrial.

O ensino – Esse entendimento e compromisso com a qualidade é ensinado aos alunos do curso de Design de Moda, nas disciplinas “História da moda” e de “Moda contemporânea”, ganhando uma atenção especial ao decorrer do curso. “Temos um sistema onde vamos evoluindo da menor dificuldade para a maior dificuldade”, comentou a professora.

No primeiro ano o aluno vai entender o corpo feminino, trabalhando com peças femininas. No segundo ano, junto com o público infantil, ele estuda o corpo masculino, de uma maneira mais simplificada, trabalhando como camisetas e a camisaria. A alfaiataria recebe um destaque maior no terceiro ano, momento em que o universitário vai estudar o público masculino em todos os cenários até chegar na modelagem, que é onde ele aprende a fazer um terno, o trio composto por calça, blazer e colete.

Preocupado com a extinção deste ofício, Jônatas Delmonaco, aluno do terceiro ano do Design de Moda da UEL, argumenta que as pessoas não valorizam essa arte de confeccionar roupas, destacando que a alfaiataria é relevante não só por questões estéticas, mas por todo o contexto histórico. “A forma que um bom alfaiate confecciona tudo com extremo cuidado, cada curva, cada botão, o tecido que será utilizado e a maneira como a peça ficará no corpo. É tudo muito importante”, salientou.

Bastante interessado nesta área a ponto de pretender se especializar na arte da alfaiataria, Delmonaco explicou que o ensino na universidade é capaz de dar uma boa noção sobre o ofício, apesar de levar bastante tempo para dominar a técnica. “Os próprios alfaiates dizem que levam em média nove anos para dominar o ofício, por ter muitos detalhes e técnicas a se aprender, mas nossa professora comentou que, como vivemos em um mundo que estamos sempre conectados, quatro anos seriam suficientes para aprender se você for aplicado”, comentou.

Mais do que um simples verbete do dicionário, o ofício da alfaiataria é algo que vai além da costura. É uma arte que preza pela qualidade e excelência e que precisa ser preservada no ensino. Mesmo estando cada vez mais rara, ela ainda continua a conquistar pessoas, sejam elas consumidoras ou estudantes de moda.

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