A imagem forja aptidões?

Como uma sociedade predisposta à supervalorização visual pode atribuir

competências à simples presença de um indivíduo

 

Há mais de um caminho para se pensar sobre a gênese de uma celebridade. Historicamente, as primeiras celebridades foram os reis e rainhas e, com a queda dos regimes monárquicos, eles passaram a ser substituídos por novos símbolos de pertencimento. As novas figuras geralmente tinham a fama sustentada por algo notável em suas competências e habilidades pessoais. Edgar Morin, no livro Culturas de Massa do século XX, utiliza o termo “olimpianos” para descrever as celebridades – compreendidas por ele como as estrelas de cinema da época. O termo faz referência aos deuses gregos que habitavam o Monte Olimpo, pois segundo ele, as celebridades possuíam um lado sobre-humano no papel que encarnavam e um lado humano em suas vidas privadas, assim como os deuses do Olimpo, que transitavam entre esses dois mundos.

É interessante perceber que, apesar das culturas de massa envolverem outras mídias, Morin atribui naturalmente, e sem maiores explanações, o conceito de celebridade às estrelas do cinema, como sintoma de uma sociedade que privilegia o sentido da visão. Costumamos usar, por exemplo, a expressão “ganhar visibilidade” quando as atenções se voltam a um determinado assunto. Muitos teóricos da mídia já percorreram de maneira mais detalhada essa questão, como é o caso de Norval Baitello Junior, que utiliza estudos do psiquiatra Oliver Sacks, para lembrar que somos uma sociedade com muito mais horror à ideia de cegueira do que à ideia de surdez, apesar da surdez pré-lingual (aquela advinda antes do aprendizado da fala) ser muito mais devastadora para a comunicação do indivíduo, definindo uma condição em que se fica virtualmente sem linguagem.

Por essa razão, alguns autores também discutem o “ser” e o “parecer” em nossa cultura. Para Pierre Bourdieu, por exemplo, quando se aceita participar de um programa televisivo, mesmo sem saber se será possível dizer algo – já que a televisão é composta por diversas formas de censura – é porque não se está ali para dizer algo, mas sobretudo para se fazer ver e ser visto. Portanto, a convergência das mídias imagéticas a uma sociedade predisposta à supervalorização visual talvez seja hoje um dos melhores caminhos para se entender a grande multiplicação das celebridades, ocorrida com o passar do tempo. Atualmente, esse título é conferido a um número cada vez maior de indivíduos e podemos perceber que a simples presença midiatizada é capaz de criar o lado sobre-humano das novas celebridades. A imagem midiatizada tem se tornado capaz, por si só, de forjar o que antes era tido como competência.

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