Sem preço, nem validade: Duas histórias nos corredores do Mercadão

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Mercadão de São Paulo completou 83 anos em janeiro (foto: Carolina Werneck)

 

Carolina Werneck

Inaugurado em 1933, Mercado Municipal de

São Paulo reúne gerações de histórias

José Marques, 64 anos, entrou pela primeira vez para trabalhar no Mercado Municipal de São Paulo em 26 de janeiro de 1971. Ex-funcionário da Secretaria de Segurança Pública da cidade, ele buscava um novo emprego. “Foi um amigo meu que me chamou. Ele falou que estavam precisando de gente e aí eu vim fazer um teste. Deu certo e eu fui ficando, ficando, ficando”, explica, o rosto tranquilo, o cotovelo apoiado em várias caixas de laranja-lima empilhadas à sua frente, às suas costas, ao seu lado. São 45 anos desde aquele dia e, mesmo aposentado, ele prefere continuar vindo todos os dias à banquinha simples, que fica próxima a uma das muitas entradas do prédio. No espaço, a laranja só tem a companhia de algumas bandejas de morango, vendidas a R$ 5 cada uma.

Do outro lado do corredor, em outra banca, César Augusto Albiero, 28 anos e trabalhando há seis no Mercadão, para um turista chileno e oferece um pedaço de kiwi. A abordagem bem-humorada e o tom de voz seguro chamam a atenção não apenas do cliente em questão, mas também de todos que passam por perto. “A gente tem que saber conversar, né? Tem gente que chega aqui, bota um morango na balança e o morango, sozinho, pesa 100 gramas. Um morango sai a R$ 9,90. Por isso, eu olho bem antes de abordar a pessoa e sou bem honesto quando perguntam os preços. Não adianta eu falar que a fruta vai durar dois meses fora da geladeira, porque é mentira. Tem que mandar a real pro cliente, que, aí, você fideliza o cara”, explica, enquanto gesticula com as mãos e cumprimenta outros passantes.

E são muitos passantes. Em 2015, o Mercadão figurou entre os dez pontos turísticos mais visitados de São Paulo, de acordo com levantamento realizado nas Centrais de Informação Turística (CITs) da cidade. Por seus corredores, passa diariamente uma média de 15 mil visitantes todos os dias. Gente que quer provar as frutas, conhecer as opções de gastronomia, levar para casa um pedacinho da história do lugar, nem que seja em uma fotografia.

O local foi inaugurado em 1933, com projeto assinado pelo engenheiro e arquiteto paulistano Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Os vitrais, de autoria de Conrado Sorgenicht Filho, vieram da Alemanha diretamente para o enorme edifício da Rua da Cantareira. O pé-direito do edifício tem dez metros, enquanto a área total é de 12,6 mil metros quadrados. Por esse amplo espaço já andaram até mesmo os pés de João Batista Figueiredo, presidente da República entre 1979 e 1985. Marques se lembra perfeitamente de quando o general apertou-lhe a mão. “Ele chegou às seis horas da manhã aqui. Como eu falei, na época não tinha esse movimento. Ele veio até mim. Eu nunca vou até eles. Se ele passar ali na frente e não vier aqui, eu não vou lá, eu não faço igual aos outros, que ficam correndo atrás. Ele foi onde eu trabalhava e me deu a mão”, recorda, sorrindo.

Já Albiero comemora outro tipo de encontro. “No fim de 2014, tinha um cara de chinelo, pé sujo, andando aqui no corredor. Você não dava nada no cara, ninguém queria atender. Cheguei no cara, fui gentil, e fui falando: ‘eu não gosto de mentira. Essa fruta  aqui custa R$ 12,90 a cada 100 gramas, essa outra custa R$ 9,90 a cada 100 gramas. Você se lasca na balança’. E o cara me pedindo pra descer a banca toda. No fim, o cara sacou dez mil reais em dinheiro, me deu 200 reais de caixinha e foi embora”, diverte-se.

É a rotina movimentada do Mercado que traz o jovem de volta para cá a cada seis meses, quando encerra sua temporada como chef em um cruzeiro. “Lá, eu ganho em dólar e é por isso que eu vou. Aqui, tem esse agito, você come fruta pra caramba, faz muita amizade, conhece gente do mundo inteiro. Tem muito cliente que cria um laço com você. É por isso que volto todo ano”. Marques também não abandona o posto, mais pela ligação que desenvolveu por uma vida passada entre as grandes paredes do local que pelo salário. “Já ganhei muito dinheiro aqui. Hoje, não ganho mais nada. Mas eu não sirvo para trabalhar em outra coisa, não. Lugar fechado não é comigo”.

Um corredor separa Marques de Albiero. De um lado, ainda se vivem os tempos passados, quando o lugar era visitado por presidentes; do outro, o tempo parece curto para tudo que há para ver. Um de cada lado do corredor. O Mercadão abraçando a ambos.

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