Esperança que se renova a cada página virada

No bairro Vista Bela, em Londrina, crianças aprendem

juntas em biblioteca criada por moradora

Marianna Pontillo

Tudo começou com apenas 16 livros. Joseleide Aparecida de Oliveira Baptistella guarda desde a infância os exemplares que a ajudaram a desenvolver o gosto pela leitura. O sonho de ter uma biblioteca era antigo, mas as condições financeiras da Josi e de sua família nunca foram favoráveis. “Eu sempre tive vontade de ter uma biblioteca, porque sempre gostei muito de ler. Só que eu achava que para isso eu precisava de uma situação estabilizada e essa não era minha realidade”, conta.

Hoje, aos 36 anos, Josi cuida de mais de mil exemplares de livros e de 127 crianças. No Projeto Vista Bela, meninas e meninos de todas as idades têm espaço garantido para atividades educativas e leitura. “O Vista Bela é um bairro que não tem escolas. Nós temos 900 crianças que saem diariamente aqui do bairro para estudar em outros bairros da região. Muitos aqui têm dificuldades educativas e não têm condição nenhuma de fazer um reforço escolar no contra turno”, detalhou a empreendedora.

A ideia de montar o projeto, por incrível que pareça, veio do inconformismo com a falta de estrutura do bairro. “Conversei com meu marido, com alguns vizinhos e com pequenos empresários da região e tomei a iniciativa. Com uma semana de Projeto, pedimos doações de livros infantis em um grupo de rede social e conseguimos vários exemplares”.

O Projeto Vista Bela completou três meses e se mantem ativo com doações de todos os tipos. Tudo ali é fruto do trabalho voluntário e da vontade de educar as crianças com expectativas de ter um bairro, ou um mundo, melhor. A frente de Projeto, Josi conta com ajuda direta da mãe, Isoleide Feitosa de Lima, do marido, Flávio Baptistella, e da irmã, Joselaine Feitosa de Lima. Todos moram no bairro há três anos.

Até a criação do projeto, Josi estava desempregada e mantinha as contas da casa com a aposentadoria da mãe e com a venda de produtos de limpeza caseiros. “Eu não tinha como construir uma estrutura para atender as crianças. Nós alugamos este espaço por R$550, fazemos rifas para juntar o dinheiro, parte da venda dos meus produtos de limpeza também vem para cá, recebemos doações de amigos e parceiros, e assim vamos conseguindo pagar as contas”, explicou.

Para as crianças não há custo algum, no Projeto Vista Bela tudo é feito para elas e por elas. “As crianças merecem, elas precisam desse lugar. Eu sempre vi tantas crianças soltas pelas ruas do bairro, lidando apenas com os problemas dos adultos e com coisas erradas. Com fé e coragem nós criamos esse espaço para elas”. De acordo com Josi, as necessidades das crianças que frequentam o lugar são muitas. “Desde o básico, como comida, higiene e educação, a atenção. Tem dias que nós levamos vários tapas de realidade, eu percebo que nós, adultos, não temos problema algum”, contou emocionada.

Hoje, o projeto recebe livros, roupas, alimentos, produtos de higiene, móveis, materiais escolares e qualquer coisa que ajude a melhorar o espaço das crianças, mas nem sempre foi assim. De acordo com Josi, houve dias em que não tinha alimento algum para oferecer na hora do lanche.  “Hoje as doações são muitas, ainda bem. Conseguimos manter o lanche das crianças e ainda fazer doações às famílias delas. Desde que começamos, já melhoramos muito este lugar. Os parceiros são vários, além dos voluntários que ajudam a cuidar das as crianças diariamente, temos ajuda de assistentes sociais, professores de esportes, pedagogas, entre outros profissionais”, detalhou.

O retorno não é financeiro, é afetivo. “Tia, eu fiz um desenho para você”, disse a menina de cinco anos ao entrar na salinha onde fazíamos a entrevista. “A gratidão delas é o meu pagamento, eu sinto que estou fazendo algo realmente importante para elas”. Dentro de uma gaveta, Josi guarda duas cartas de crianças. As palavras de Stefanny e Ingrid, duas crianças atendidas pelo projeto, emocionam. “Você é muito especial pra mim. Agora você nem é mais minha tia, considero você como uma mãe”, diz uma das cartas. O tempo todo enquanto a entrevista era feita, crianças entravam no local para distribuir amor, hora em forma de flor – como a Ana Lara e a Alerrandra fizeram -, hora em forma de desenho – como o que a Emanueli entregou. “Eu não tive filhos, hoje eu tenho 127”, disse Josi.

 

EDUCAÇÃO – Essa é a principal preocupação do Projeto. Muitas crianças que já estão no Ensino Fundamental 2, que vai de 5ª a 8ª série, ainda não sabem escrever o próprio nome. O Pretexto acompanhou uma aula de matemática e, até mesmo em contas básicas, as crianças tem muita dificuldade. O Projeto, que serviria como reforço escolar, passa a ser de extrema importância na vida pedagógica das crianças. “Elas têm dificuldades enormes para fazer uma conta de soma de números pares. Essas crianças estão na escola, estão caminhando para o futuro sem conseguir entender o básico, isso assusta”, disse Sandra Moreira, uma das voluntárias do projeto.

Todas as crianças, independentemente da idade ou do grau escolar, fazem atividades juntas, nas mesas que estão espalhadas pelo quintal da biblioteca. No começo, eram separadas por série do cronograma letivo, mas muitas delas não conseguiam acompanhar. “Nós percebemos que mesmo estando na mesma série, as crianças têm dificuldades bem singulares e bem básicas, por isso mantemos todo mundo no mesmo grau de dificuldade”, explicou Josi.

VIOLÊNCIA –  Josi se preocupa com o futuro e com o presente de todas as crianças que estão ali. Segundo ela, no bairro existe um histórico de violência e abandono por parte das autoridades. “A realidade dessas crianças é a violência diária e é isso que nós tentamos tirar da mente delas. Muitas pessoas do bairro acreditam que tudo é resolvido com a mão, com briga, com intolerância, nós queremos mostrar um mundo além disso para elas”, comentou a criadora do projeto. “O esporte e a educação têm papel fundamental nesse processo na vida deles”, concluiu. O Projeto mostra respeito, cuidado e responsabilidade a crianças que muitas vezes recebem o contrário.

O BAIRRO – O Vista Bela é lar de 18 mil pessoas. O bairro, que fica na zona norte de Londrina, é afastado do centro e do resto da cidade e nasceu como o maior canteiro de obras do Minha Casa Minha Vida no Brasil. “Se a gente não mudar o Vista Bela agora, daqui 10 anos isso vai ser uma panela de pressão. Aqui tem pessoas de vários lugares da cidade, pessoas que foram tiradas de áreas de risco e foram colocadas aqui”, contou Josi. “Em 2010, quando foram inauguradas as quase 3 mil casas, 12 mil pessoas vieram morar aqui. Hoje, já passamos dos 18 mil. São muitos habitantes, se não tem uma infraestrutura que suporta isso, pode ser perigoso”.

Uma das principais reclamações dos moradores é a falta de alternativas para as crianças e jovens do local. “Não temos praças, a única que existe está com brinquedos enferrujados e malcuidados, que podem até machucar uma criança. Temos o eco-ponto de lixo, que na verdade nos traz doenças como a dengue. Não temos arborização, não temos sombra. Nós precisamos de manutenção aqui, estamos esquecidos e só somos lembrados a cada quatro anos”, lamentou Josi.

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