Por que ouvir o Programa Ashanti?

Conheça a história do projeto, sua missão e o seu poder de ecoar dentro daqueles que permanecem de ouvidos abertos /

Daniele Cardoso /

Sou branca, loira, olhos verdes, venho de uma família de classe média alta, estudei a vida inteira em escolas particulares e quase nunca ouvi um “não” como resposta ou sofri algum tipo de preconceito. Faço parte

de uma parcela privilegiada da população brasileira e conquistar espaço ou alcançar objetivos nunca foram questões difíceis para quem tem tais condições. O que sabemos mas não nos damos conta é que nem todos têm vidas parecidas. Eu não precisei ir longe para me conscientizar disso, pois sempre dividimos espaço o tempo todo.

Em 2015, no terceiro ano do curso de jornalismo da UEL, me deparei com a disciplina de “Comunicação Popular e Comunitária”. Eu já havia ouvido falar sobre a matéria, mas não sabia exatamente o que aprenderia. Graças ao professor Reginaldo Moreira, minhas dúvidas a respeito acabaram. No decorrer do ano vivi muitas descobertas e uma delas foi o projeto radiofônico Ashanti.

Um dos trabalhos da disciplina previa que a turma teria que produzir algum produto jornalístico em conjunto com alguma comunidade londrinense. Após dúvidas e imprevistos pelo caminho, decidimos que iríamos fazer um programa de rádio com o coletivo de Mulheres Negras Luíza Mahin. Juntos criamos o programa de rádio.

A partir daí, questões e realidades que até então não faziam parte da minha vida, começaram a surgir e me fazer refletir. E para que você faça o mesmo, ou chegue perto disso, apresento-lhes o programa Ashanti.

Mulher Forte

O nome Ashanti tem um poderoso significado e outra palavra não descreveria tão bem o programa. Mulher Africana, negra forte. São assim as integrantes do Coletivo de Mulheres Negras e graças a elas o programa pôde ser criado e produzido. A ideia surgiu de uma parceria entre as meninas do coletivo e os estudantes do terceiro ano de jornalismo noturno UEL, para a disciplina ministrada pelo professor Régis. “Essa disciplina tem uma carga horária teórica e prática. Eu fiz questão que essa carga horária prática fosse desenvolvida e propus acharmos um movimento social para desenvolver algum produto jornalístico. A princípio, pensamos em montar uma rádio web para o DCE da UEL. E acabou não rolando. Daí elencamos vários movimentos, e das causas, que foram várias, ficaram duas: a LGBT e a de Mulheres Negras. Então entramos em contato com as meninas, que na época faziam parte do Coletivo de Mulheres Negras de Londrina. Na hora elas toparam”, detalhou o professor.

Depois de aceito o convite, decidimos o que iríamos produzir. Um programa inteiramente feito com vozes de Mulheres Negras, com duração de uma hora, dividido em quatro blocos de 15 minutos, sempre guiado por um tema central. Sendo apresentado em cada bloco um quadro diferente, que trata do tema central com variadas perspectivas.

De 2015 para cá, dois programas foram produzidos. Um pela minha turma e outro pela turma do terceiro ano noturno de jornalismo deste ano. O primeiro tratou do tema “Religiões Africanas e os Terreiros”, e o segundo do “Empoderamento da Mulher Negra”. São mais de 30 pessoas orgulhosas e envolvidas no processo de produção. E que, mais do que isso, lutam por uma causa social.

Para as meninas do coletivo a missão do programa vai além. É o que explica Fiama Heloisa, uma das integrantes. “A gente enxergou no Ashanti uma possibilidade de expandir o nosso trabalho, de mostrar para as pessoas que o coletivo existe e mulheres negras estão reunidas e organizadas em Londrina. Também podemos dar visibilidade as mulheres negras e a cultura negra.”

Feliz parceria

Durante um outro trabalho prático, minha turma teve o primeiro contato com a AlmA Londrina Rádio Web. O que não sabíamos era que esse encontro seria tão proveitoso.

Antes mesmo de entrarmos nos aproximarmos do Coletivo Luiza Mahin, nós já sabíamos que o que iríamos produzir seria um projeto radiofônico. “O Ashanti já nasceu pensando em programa de rádio. Um dos trabalhos da disciplina era fazer um mapeamento de um veículo comunitário e entre os veículos a Alma apareceu e as pessoas que visitaram a Alma ficaram encantadas. O Daniel então abriu as portas e ofertou para que usássemos a rádio quando precisássemos. E daí já propomos isso para o movimento, que fosse um programa de rádio. Levei para ele o programa de uma hora e ele propôs dividirmos em 4 ‘programetes’ de 15 minutos cada”, conta Régis Moreira.

Ou seja, desde o início, para a turma e para o próprio movimento, a expectativa foi grande, já que estaríamos veiculando o programa em um veículo de comunicação fora da universidade. E não é em qualquer lugar. É uma rádio web cultural e alternativa, ou seja, um lugar que dá espaço para produtos que não seriam veiculados na grande mídia. “É um programa bem peculiar por todas as especificidades que ele traz. Ser um programa produzido somente por mulheres, e não quaisquer mulheres, mas mulheres negras, com essa temática específica… Seja por essas particularidades que elas não veem em outros lugares. Às vezes quando entramos nessas questões as pessoas pensam em estereótipos. E com o programa trazemos a realidade desse universo que não é tradicionalmente explorado pela mídia tradicional”, ressaltou Fiama.

O programa vai ao ar na Rádio Alma a cada 15 dias, sempre com um episódio diferente. Depois de exibido, fica disponível no acervo da rádio web. No dia 22 de setembro estreou a segunda temporada.

Uma missão de sucesso

Junto da estreia da segunda temporada uma felicíssima notícia nos foi dada. No momento, o programa Ashanti é o mais ouvido da Rádio Alma, com mais de 57 cliques. Parece pouco, mas representa a inserção de um programa independente, fora dos padrões comerciais radiofônicos.

Fiama arrisca um palpite para o sucesso e aponta a missão social que carrega. “O Ashanti pega dois aspectos: primeiro uma questão de colaboração com os estudantes de jornalismo na disciplina de Comunicação Popular e Comunitária. É uma oportunidade deles colocarem em prática o que estão aprendendo na teoria e é muito legal, e eu sei como é, porque sou jornalista e não tive a mesma sorte quando fiz a disciplina. Por outro lado, contribui com a gente como coletivo, pela visibilidade das mulheres negras, as histórias das mulheres negras e a cultura, atingimos um público que muitas vezes não tinha contato com essa discussão e ouvindo o programa elas podem conhecer melhor. E para mulheres negras que nos escutarem também pode fazer diferença, essas mulheres podem se identificar com as situações que nós retratamos ali.”

Nas palavras de Fiama, eu me encaixo no público que não tinha contato com essa discussão. Comecei o texto dizendo sobre os meus privilégios e que até pouco tempo eu não havia parado para pensar nisso. O que me levou a pensar sobre o assunto foi justamente a participação na produção do Ashanti.

Assim como eu, Thaís Ludescher, 21, aluna integrante da produção do programa, pôde conhecer histórias que ela não conhecia. Viemos de realidades bem parecidas: ela também é branca, loira, olhos verdes e classe média e compartilhamos da mesma opinião. Cada um dos 30 envolvidos no projeto, sendo branco, negro ou pardo, sofreu um impacto diferente, mas de alguma maneira pôde mudar algo dentro de si. “A gente pôde ver como é grande a dificuldade dessas pessoas e como é a realidade delas e mesmo que façamos alguma coisa ainda é muito pouco. É grande e pequeno ao mesmo tempo. Estar próximo dessa realidade e poder ver seus erros e acertos e ser uma pessoa com uma mente mais aberta, isso impacta bastante”, comentou Thais.

Embora tenhamos participado e vivido essa experiência, jamais sentiremos na pele todas as histórias que as meninas do coletivo e outras mulheres negras retratadas nos programas. São 15 minutos que podem mudar a sua percepção, te fazer compreender que o mundo em que você vive não é só seu. E que a história retratada não é vivida somente pela voz que você ouve, ela pode ser vivida pela colega que senta ao seu lado na sala de aula, pela sua amiga do trabalho ou até mesmo por algum familiar.

Não posso dizer que entendo, mas agora posso compreender e respeitar perante minhas atitudes e palavras o fato de que Mulheres Negras Fortes devem e precisam ampliar suas vozes e nós precisamos abrir nossos ouvidos e nossas mentes para escutarmos. Mesmo que no início pareça um sussurro, se ele ecoar dentro de nós, ali ele ficará para sempre. Começo minha contribuição aqui, fazendo o meu papel de jornalista e deixando minha sugestão: ouçam o programa Ashanti e ecoem essas vozes.

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