As consequências do jornalismo “policialesco” para a sociedade

Em nome da cobertura policial, repórteres agem como assessores de imprensa dos órgãos de segurança

Texto e foto: Bruno Amaral

A função principal do jornalista é apresentar para a sociedade os fatos como eles são e deixar que cada pessoa possa formar a própria opinião. Mas o que se observa nos programas cujo principal conteúdo são os acontecimentos da área policial é o apelo sensacionalista das notícias. O sensacionalismo fica bastante evidente nos programas policiais justamente pela forma como são produzidos, editados e veiculados. A falta de conteúdo e informação relevantes e, principalmente, a falta de investigação jornalística contribuem para aumentar ainda mais o tom sensacionalista. Se não há informação de qualidade, partem para o apelativo.

A maioria das informações disseminadas nestes programas têm caráter “policialesco”, ou seja, os repórteres agem como se fossem assessores de imprensa dos órgãos de segurança. Ouvem e reproduzem tudo que foi informado pela fonte primária, sem ao menos fazer o trabalho básico de checagem da informação.

A década de 1990 foi marcada, em nível nacional, por diversos casos nos quais a imprensa agiu desta maneira. Dezenas de pessoas foram prejudicadas pelos abusos e pela irresponsabilidade da mídia.

No começo de 2016, a cidade de Londrina foi palco de uma chacina que deixou 12 mortos e 16 feridos, após o assassinato de um policial militar. A cobertura midiática deixou claro o caráter “policialesco” diante dos fatos.

Um relatório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Norte do Paraná, enviado em março para promotorias criminais de Londrina e Curitiba, mostra que houve o envolvimento de pelo menos nove policiais militares na chacina. Após a prisão de alguns PMs envolvidos, sete dos nove nomes denunciados pelo sindicato estavam livres. Então, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas distribuiu cópias do relatório a todos os chefes de redação das emissoras de TV de Londrina. Apenas uma delas, a Tarobá, entrevistou um dos sobreviventes da chacina, fora de seu programa policial.

A entrevista do sobrevivente desencadeou um processo de retaliação por parte de PMs e bombeiros contra a repórter que publicou o material, Luciane Miyazaki, com ofensas e críticas nas redes sociais. E o mais grave: foram registradas conversas pelo aplicativo WhatsApp entre dois cinegrafistas e um repórter da RIC TV com críticas à repórter e solidários aos PMs.

Esse grave fato resultou em uma advertência do sindicato aos cinegrafistas e aos repórteres envolvidos, assim como um processo criminal contra um sargento do Corpo de Bombeiros, por ofensas morais à repórter. E evidenciou claramente a opção preferencial das emissoras de TV e de rádio de Londrina pelo jornalismo “policialesco”, em detrimento do jornalismo policial.

A imprensa jamais deve se abster do seu papel de informar. Observa-se que ainda não foi possível superar os erros do passado. Quantos “bares bodegas” e “escolas bases” serão necessários para que a imprensa mude sua forma de agir?

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