Jornalismo e Entretenimento: Separados por uma linha extremamente tênue

Como o jornalismo tem se adaptado a uma constante alteração no conceito de informação de interesse público

Por Giovanna Escobar

Há menos de um mês me deparei no Facebook com a seguinte manchete: “Galãs de meia-idade como Domingos Montagner são raros, e sempre muito disputados’’. Além de achar desnecessária uma matéria com esse viés, dois dias após a morte do ator, estranhei o conteúdo ter aparecido em minha timeline, pois não me lembrava de ter me inscrito em páginas sobre fuxicos de celebridades, até que percebi que a fonte da matéria era o perfil da Folha de S. Paulo.

Tem sido cada vez mais comum encontrar esse tipo de publicação em veículos que se denominam jornalísticos. Notícias que mais se encaixariam em sites de fofoca do que em meios de comunicação nos quais o foco é trazer informação relevante de interesse público. Mas a questão é justamente essa: o público tem se interessado por esse tipo de informação. Se tem alguém produzindo, é porque tem consumidor.

O espetáculo está ai, o leitor quer saber os detalhes daquela nova produção cinematográfica e também quer informações sobre os atores que a estrelam. Querem saber se o casal 20 do telejornalismo brasileiro se separou por conta da colega de trabalho dele, ou se foi por causa do salário dela, que é maior. As especulações são muitas e geram também muitos porquês. Se o público não encontra as respostas em um determinado veículo, ele migra para aquele que vai oferecer essa informação. É aí, então, que o jornalismo começa a se confundir com entretenimento.

Já dizia Eugenio Bucci: o jornalismo foi englobado pela lógica do espetáculo. Essa lógica consiste em um festival que mistura publicidade e informação, enquanto o jornalismo está ali somente para servi-las. A respeito disso e da busca incessante do público por conteúdo espetacularizado, não há muito que a imprensa possa fazer. É preciso corresponder à expectativa do leitor, mas é possível fazer isso de uma forma mais fiel ao jornalismo.

É possível oferecer ao público o que ele quer e, ao mesmo tempo, oferecer jornalismo de qualidade à sociedade. É possível melhorar e aprofundar a cobertura de uma estreia, assim como também é possível ir além de informações sobre lançamentos e notícias a respeito da cor da roupa de um famoso. Só não é possível deixar o jornalismo se perder em meio ao entretenimento e tudo aquilo que não é, ou pelo menos não deveria ser, jornalismo.

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