“Não há nada mais importante em uma revista de cinema que a imagem”

Michel Spitale, ex-diretor de arte da Set, conta como foi trabalhar com a diagramação de uma das revistas de cinema mais importantes do país

Por Giovanna Escobar

O jornalista Michel Spitale fez parte da história da revista Set desde sua primeira edição, ocupando o cargo na diagramação e direção de arte. A Set, que foi criada em 1987 como uma extensão da revista de música Bizz, cresceu, evoluiu e conseguiu se consolidar como uma publicação de cinema influente no meio do entretenimento impresso.

Em entrevista por e-mail, Spitale conta um pouco da trajetória da Set, a transição de editoras que a revista sofreu, como eram os projetos gráficos desenvolvidos por ele e a importância de uma estrutura estética imagética atraente ao leitor.

Quando, onde e em que contexto a revista Set foi criada e quem foram seus idealizadores?

Michel Spitale: A revista SET nasceu na editora Azul em meados de 1987, creio que em agosto. Foi uma ideia do jornalista Alex Antunes e do publisher da editora Carlos Arruda. Foi meio que um filhote da revista de música Bizz – inclusive, nas primeiras edições, a redação e a arte eram praticamente as mesmas. Era o momento do surgimento do vídeo cassete mais acessível a todos, e consequentemente, do boom das videolocadoras.

O Alex foi o diretor de redação creio que nos dois primeiros números, depois veio o Eugenio Bucci que dirigiu a revista por mais uns dois anos, os anos de ouro da SET, quando vendia bem em banca e tinha uma grande receita publicitária que vinha das grandes distribuidoras de vídeo.

Quais eram os objetivos iniciais da publicação?

M: Inicialmente era trazer toda a informação possível para os cinéfilos e também para os que apenas curtiam ir ao cinema de vez em quando. A ideia era, sempre que possível, antecipar o que seria lançado nas telas com sinopses e críticas escritas por ótimos jornalistas, e principalmente, com o máximo de boas imagens dos filmes. Com o crescimento do mercado de vídeo e das locadoras, a revista passou a ter uma seção com as sinopses e criticas também de todos os vídeos que estavam sendo lançados no mercado, tanto que a SET passou a publicar anualmente edições especiais como os 500 MELHORES VÍDEOS, que gradualmente foi passando para OS 1000, OS 2000 e assim por diante.

A equipe inicial da revista contava com quantos colaboradores? Você entrou para a equipe em que ano e quais foram as funções que você exerceu?
M: A equipe inicial era composta pela redação da Bizz, mas logo foi sendo ampliada com muitos outros colaboradores freelance, alguns dos quais acabaram fazendo parte da redação da revista. Eu fui chamado para fazer o projeto gráfico e dirigir a revista desde a sua primeira edição. Dirigia a equipe de arte, que era numerosa por ser antes do advento dos computadores.

 A revista teve uma transição de editoras ao longo de suas publicações. Você pode contar um pouco da história da revista e dessas transições?

M: Eu trabalhei na SET creio que até a edição 94, se não me engano, sempre na editora Azul, onde a revista foi publicada por mais vários anos. No fim dos anos 1990, a editora Azul é comprada pela Abril onde creio que foram publicadas umas três ou quatro edições, depois ela foi para a editora Peixes mas confesso que dai em diante não sei muito mais da revista.

 A revista teve três projetos gráficos ao longo de sua vida. Você pode apresentar brevemente características que lembra dos três projetos gráficos? O que motivou as mudanças de um projeto para outro?

M: Enquanto estive lá, fiz dois projetos gráficos para a revista. No primeiro, o logo era a palavra SET em cima de uma película de filme, era um projeto ainda do tempo do past up, antes da computação gráfica. Quando chegaram os computadores na redação, eu fiz um novo projeto, mudei o logotipo, que foi o que ficou na revista até o fim. Era um projeto editorial e gráfico inspirado na revista americana Entertainment Weekly, usando todos os recursos gráficos disponíveis na época. Curiosamente a SET foi a primeira revista do Brasil totalmente feita digitalmente e eu fiz parte dessa empreitada.

Como era feita a escolha das fontes e ornamentos dos caracteres e as cores usadas na revista?

M: Olha, eu sempre fui um diretor de arte intuitivo, sem seguir regras preestabelecidas. A minha escolha das fontes sempre foi em função da legibilidade associada a beleza e leveza, sempre pensando no leitor e nunca no meu gosto pessoal. Meus projetos gráficos sempre foram limpos e de simples execução, isso para facilitar o andamento da publicação e dos fechamentos. Na SET, nunca usei uma palheta de cores definida, sempre gostei de combinar ou com a foto, ou com o tema e na maior parte das vezes com as duas coisas ao mesmo tempo, mas principalmente sempre valorizando as cores das fotos e ilustrações.

 É possível perceber que cada capa e páginas das matérias principais tinham suas letras, cores e imagens adequadas com a temática e cenário do filme abordado. Para você, como os elementos gráficos de uma revista podem aproximar o conteúdo jornalístico do universo do cinema, proporcionados pela revista?

M: Nos meus dois projetos as fontes eram bem definidas, não costumava mudar de família em função do tema, apenas de tamanho e cor. Acho que ao mudar de fonte em cada matéria se corre o perigo de se perder a unidade gráfica, de se misturar com os anúncios. Acho que os elementos gráficos de uma publicação são de suma importância pra dar a cara da revista, a personalidade. A ideia é que o leitor reconheça a revista vendo apenas uma página dela, ou no máximo uma matéria. O que eu fazia às vezes era dar uma cara diferente para a matéria de capa, mas sempre mantendo a maioria dos elementos gráficos como fonte de texto corrido, grid, colunagem etc. Havia a possibilidade de mudanças nas várias edições especiais que a SET lançava, mas sempre mantendo alguma similaridade com a revista mãe. Mas repito: não há nada mais importante em uma revista de cinema que a imagem, principalmente nas fotos, por isso eu sempre que podia diagramava com fotos grandes e variadas, porque era o que o leitor mais queria ver, cenas de filmes que ainda não tinha visto, ou quando se tratava de filmes clássicos, as melhores cenas.

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