Quando todo mundo vê e ninguém repara

A crise no jornalismo precisa ser discutida também por seus leitores

Por Thaila Nagazawa

Um dos meus grandes problemas e, talvez, a grande contribuição que o curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) deu para mim, foi ampliar o meu senso crítico. Digo problemas, porque, pense numa menina que toda vez que pega um jornal na mão, ou assiste à televisão, não para de reclamar e apontar erros nas reportagens e matérias. Vale para tudo, desde o conteúdo, passando pelas frases escolhidas pelo jornalista, até o formato, na escolha da fonte e da posição da foto. Para quem convive comigo diariamente é um pesadelo.

Mas isso pode ser considerado uma benção dependendo do ponto de vista. Ter um senso crítico aguçado faz com que você não se encante pelo que o apresentador fala, pelo brilho e elegância de uma revista ou pelo peso histórico que uma publicação tem. Você se torna menos manipulável pela mídia tradicional (não que os outros tipos de mídia não tentem fazer isso também) que prega imparcialidade e independência – mesmo que não sejam reais, apenas parte de uma ideologia maior.

Talvez ter um senso crítico afiado faça com que o jornalismo perca um pouco do brilho e do glamour que ele exala. Algumas publicações ou programas que você tanto admirava acabam tendo um valor menor, quando percebe que o que eles fazem não é algo tão heroico, investigativo ou até mesmo divertido. As páginas coloridas começam a desbotar, as folhas cheias de imagens e textos começam a ficar vazias e aquilo que um dia era belo começa a ficar decadente.

Eu sempre gostei de revistas. Desde pequena, quando chegava no sábado, eu e meus pais íamos fazer compras em um mercadinho, e eu sempre corria para as seções de gibis e meu pai pegava a Veja da semana para ler. Cresci, me tornei adolescente e os gibis deram espaço para a coleção de Atrevidinhas. De lá pra cá, houve um intervalo e minha admiração pelas revistas dividiu espaço com revistas de moda, de ciência e do mundo nerd.

Não foi surpresa para mim quando no segundo ano do curso de Jornalismo na UEL me apaixonei pelas aulas de diagramação e pelo desafio de diagramar uma revista do zero no último bimestre.  E também não foi estranho querer trabalhar no meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) com revistas. Mas foi um choque e um desapontamento saber que em uma cidade tão grande quanto Londrina não há revistas de vários tipos e muito menos que durem bastante tempo.

Várias foram as causas apontadas para isso acontecer (e continuar acontecendo). Entre elas: os anunciantes não veem as revistas como um meio de veiculação, assinaturas não são viáveis em um local em que não há a cultura de comprar revistas, as bancas em Londrina foram dizimadas pela lei Cidade Limpa, preço das páginas de anúncio são mais baixas do que o estabelecido devido à concorrência, entre outras situações. Mas também não se pode esvaziar a culpa das revistas já que algumas delas vendem seu jornalismo para a propaganda.

Este foi o ponto de virada para eu escolher esta questão como base do meu TCC. Quem sabe ao abrir este tema para o debate, as pessoas consigam realmente olhar o entorno e ver que a mídia não é imparcial, que ela se transveste de várias coisas e esta realidade é muito mais complexa do que apontar culpados. É importante ter um olhar crítico não só com o que vemos de longe, mas também com o que está no nosso entorno para tentar criar um impacto local, mas que tenha uma mensagem universal, pois a crise no jornalismo não é apenas aqui na cidade, e sim no mundo todo.

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