A sombra do assédio

Por Nathalia Lainetti

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Parece um tipo de fardo que você tem que carregar. Nasceu mulher? Toma aqui, isso vai te seguir a vida toda. Não importa se você é bonita ou feia, magra ou gorda, preta ou branca. Ele vai te seguir. Na rua, na construção ao lado da sua casa, na internet, dentro da sua própria casa. Não te deram escolha, você nasceu mulher, bem feito. Agora aguenta.

O assédio é como uma sombra na vida de toda mulher. Não importa aonde você vá, ele estará ali, te seguindo. Às vezes você pode até pensar que ele sumiu, te deu um tempo, um respiro. Quase quando o sol se esconde atrás das nuvens ou a noite chega. Mas, não. Repara bem, ali no cantinho, de algum jeito, em uma “brincadeirinha’, olha ele aí de novo.

O assédio se manifesta em forma de cantadas, comentários desagradáveis, muito sutis, mas que atingem os pontos fracos e diminuem a mulher. Segundo o dicionário Michaelis, em sentido figurado, o assédio é uma “insistência impertinente, em relação a alguém, com declarações, propostas, pretensões etc”. Já o assédio sexual está no dicionário como “a) insistência inoportuna com intenções sexuais; b) constrangimento em alguém com o intuito de obter favorecimento sexual, prevalecendo o agente de sua condição de superior hierárquico”.

99,6% das mulheres já encontraram com essa sombra por ai. De acordo com a pesquisa realizada pelo Instituto Think Olga, em 2013, esse é o número de mulheres declararam já ter sofrido algum tipo de assédio sexual, seja em lugares públicos ou privados. 99,6%! E ainda, das 7762 entrevistadas, 83% não se sentiram à vontade com esse tipo de abordagem.

A pesquisa revelou ainda que a maioria das mulheres vítimas de assédio vivem com um sentimento de constrangimento que muitas vezes evolui para uma experiência de medo. De acordo com a pesquisa, muitas viram abordagens que, em algumas situações, se limitavam ao plano verbal, evoluir, em outras, para a agressão física. Os dados também mostram que 85% responderam já terem sido abusadas por homens lhes passando a mão – na bunda, na cintura, nos peitos, no meio das pernas e que 65% já foram agarradas pelo braço; e quando repudiaram tais ações, 68% foram xingadas.

A sombra do assédio não só faz com que as mulheres sintam medo, mas também limita nossas vidas, 81% das entrevistadas já deixaram fazer algo por medo de serem assediadas pelos homens e 90% delas já deixaram de usar roupa decotada por medo de sofrer algum tipo de assédio.

Nos fazem acreditar que o assédio é exatamente como uma sombra. Não dá para escolher, é natural, mas não é. Ele é reflexo de uma sociedade machista e patriarcal que trata a mulher como objeto a serviço sexual do homem. Nós, mulheres, temos o direto de sair tranquilamente na rua sem nos preocuparmos com a roupa que usamos, com o horário que saímos ou por qual caminho passamos para que não sejamos assediadas e tratadas como um pedaço de carne. O assédio precisa ser questionado, discutido e combatido na sociedade, não é uma brincadeira, porque não tem graça nenhuma.

 

Crédito: ilustrações Amanda Gotsfritz – Campanha Chega de Fiu-Fiu – Think Olga.

 

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