“Obrigada por me achar bonita, mas eu quero ser reconhecida pelo meu trabalho, pelo meu talento, do que pela minha beleza”

16357708_1248219831927173_1958690019_o

É cada vez mais comum vermos mulheres nas redações esportivas do país, Bibiana Bolson, apresentadora e repórter no canal esportivo a cabo Esporte Interativo, é uma delas. Em entrevista concedida na redação do canal, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, a jornalistas contou um pouco das dificuldades e preconceitos que sofre simplesmente por ser mulher.

A gaúcha, que hoje mora no Rio de Janeiro, sabe que o jornalismo esportivo pode ser extremamente cruel com as mulheres. Na entrevista abaixo, ela relatada alguns dos muitos casos de assédio que sofreu enquanto trabalhava.  A jornalista também fala das diferenças entre pautas e salários para homens e mulheres dentro das redações.

Nathalia Lainetti: Como você vê o crescimento das mulheres no jornalismo? Você vê algum motivo para esse crescimento?

B: Essa é uma boa pergunta, eu nunca tinha pensado sobre isso. Eu acho que quanto mais mulheres foram aparecendo no esporte, mais mulheres foram incentivadas a estarem no esporte. Acho que foi isso que aconteceu, a gente começou a ver as mulheres em evidência e de repente deu um boom de mulheres porque, querendo ou não, quando a gente está na TV e no vídeo a gente acaba servindo de inspiração e daí quem estava estudando ou tentando fazer jornalismo pensou “ué, mas eu posso fazer isso também. Se tem uma mulher ali eu também posso”. Também tem muitos exemplos como a Glenda Kozlowski, que foi uma pessoa que cresceu dentro do esporte. Ela começou como ex atleta e depois foi ser apresentadora. A Milena Ceribeli também, eu lembro muito dela quando ela era apresentadora do Esporte Espetacular, na Globo, e agora está na Record. Eu acho que isso foi acontecendo naturalmente, mas os preconceitos continuam.

N: Você acha que há uma diferenciação de pautas, salários entre mulheres e homens?

B: Eu tenho certeza. É muito sutil, sabe? Eu acho que não é evidente, tipo “olha você vai fazer hoje um time menor porque você é mulher”.  Mas acho que isso acontece de forma sutil, nas escolhas de grandes eventos, de grandes coberturas. Não dá para generalizar e dizer que isso sempre acontece, mas em casos pontuais acontece. É muito delicado falar dessa questão. Mas, na questão de salário é óbvio.  É só pegar o principal repórter homem e a principal repórter mulher e ver o salário. Há uma diferença gritante. É possível ver isso também de outras formas, a gente tem uma narradora?  A gente olha para uma grade e não vê nenhuma narradora, nós vemos apenas uma comentarista (de futebol) mulher, e foi o Esporte Interativo que colocou a primeira.  É descarado quando você vê que o jogo mais importante não tem a presença feminina.  É muito delicado para falar porque há situações que a gente passa no dia a dia que a gente sente, mas não tem como dizer “ah, foi isso por que eu sou mulher”.  Começa na própria execução do trabalho, porque se eu consigo uma informação às três da manhã sobre determinado jogador e se o meu colega consegue uma informação às três da manhã sobre o mesmo jogador. Para ele vai ser informação, mas para mim vai ser “ah, ela saiu com o jogador, conheceu o jogador, tem alguma relação com ele”.  Acaba sendo difícil estabelecer essa questão da fonte também porque a gente tenta se preservar mais. Recentemente, eu entrevistei um jogador bem conhecido e eu fui totalmente assediada, ligações, mensagens. Então ainda acontece, sabe?  Outra questão que fortalece isso é que a chefia dos principais veículos (esportivos) hoje no Brasil é masculina. Não tem uma editora-chefe ou uma chefe de reportagem mulher.

N: A mulher que trabalha com esporte ainda está sujeita ao assédio?

B: Está, e está sujeita ao assedio nas mais variadas esferas. Desde do contato com o jogador, treinador, dirigente, torcedor, com os próprios colegas de profissão. A gente separa muito o que acontece na sociedade do que acontece na nossa profissão, mas eu acho que é tudo uma coisa só. O jornalismo esportivo é reflexo do que acontece no dia a dia, o assédio no ônibus, o assédio no trem, na praia. No futebol é muito forte, justamente pela dominância do homem. Hoje, ainda bem, eu tenho mais exemplos positivos de pessoas que valorizam a nossa presença ali, do que pessoas que desrespeitam. Ano passado eu tive um incidente com o René Simões, que foi extremamente indelicado em uma resposta, e ele entendeu que aquilo era uma indelicadeza, não com a Bibiana profissional, mas poderia ser uma indelicadeza com a Bibiana pessoa, mulher. No treino seguinte ele me levou um brownie que a filha dele faz para se desculpar. Eu achei isso curioso e falei “olha professor, tudo bem, mas se fosse um homem, tu traria o brownie para se desculpar? Não é porque eu sou mulher que eu sou mais frágil”. Ele disse “Não, mas a gente tem que ser mais educado com vocês”, e eu respondi que não, que nós deveríamos ser educados com todos. A leitura dele foi de que ele estava sendo gentil e que estava compensando o que tinha feito, a minha leitura foi que ele não precisava fazer aquilo porque ele não faria o mesmo por um colega homem. São situações que a gente fica com a pulga atrás da orelha. Mas quando o futebol é profissional e a gente chega nesses clubes grandes, o contato com os atletas é menor, porque tem uma assessoria que barra essas situações, por ser preparada e plena para entender que vai ser a mulher que vai fazer a entrevista, que vai estar na coletiva e também no jogo. Até porque os assessores são dessa nova geração.

N: Quais situações de assédio você já passou?

B: Eu acho que tem várias formas de assédio. Tem o assédio quando um atleta ou alguém do meio tem um interesse sexual, de flerte, em elogiar. Tem o tipo de assédio que acontece em subestimar a inteligência, por exemplo, em fazer uma pergunta um pouco mais difícil que incomode a outra parte e ela querer te ridicularizar, do tipo “o que você sabe de futebol?”, ou da sua pergunta ser ignorada. Eu já passei por situação assim em coletiva de imprensa. Em uma coletiva lá no Rio Grande do Sul, eu fiz uma pergunta um pouco mais pesada para o treinador e ele não respondeu. Ele começou a responder a uma pergunta de um outro colega, eu fui até o microfone e o questionei. Ele respondeu “eu respondo quando eu quiser”. Nisso, o nosso cinegrafista e o técnico de áudio levantaram e saíram. Depois o clube pediu desculpa, mas isso gerou toda uma situação complicada. E ainda tem um outro tipo de assédio que é o assédio agressivo destrutivo, que começa com os adjetivos “puta, piranha, cachorra” ou “você não sabe nada”. Esse último é o mais comum. Porque o torcedor quer que o time dele seja o seu, e ele quer ter certeza disso. Ele não aceita que você critique o time dele ou que diga que outro será campeão. A internet deixa isso mais próximo, antigamente o cara da TV recebia uma carta, um ligação, e ainda sim era muito difícil, porque não se passa o telefone dos jornalistas, os caras não tinham esse acesso. Hoje, qualquer um me busca na internet e consegue me xingar, me elogiar ou me ameaçar. Consegue saber onde meu irmão estuda, como é a minha família, onde eu costumo ir. As redes sociais aproximaram as pessoas e fazem com que o barulho seja maior. Em todos os níveis e esferas eu já passei por algum tipo de assédio. Desde jogador me pedindo telefone ou responder “só se for você quem for entrevistar” ao pedir uma informação. De mandar flores, chocolates, de subestimar a minha inteligência e capacidade, de receber uma resposta mal educada ou sofrer ameaças do tipo “vou te matar”, “vou te estuprar”, coisas horríveis. E especificamente o que aconteceu na Europa (Bibiana e sua parceira Isabela Pagliari foram assediadas durante a cobertura da Eurocopa 2016, em Paris) também é fruto disso. Nós estávamos em um ambiente com muitos homens, eram poucas mulheres que a gente via circulando. Eles fecharam aquela zona da Torre Eiffel, com várias atrações, shows, coisas para comer. Nos primeiros dias até tinham algumas mulheres, mas com o passar da competição só ficaram os homens, e ali eles passavam o dia todo bebendo. Quando chegava eu e minha companheira Isabela com equipamento para gravar alguma coisa era um chamariz. Primeiro começa com aquela festa, na tentativa de aparecer, depois, eles tentavam puxar o cabelo ou agarrar. Algo que não aconteceria se fossem dois homens, ou mesmo se fosse uma mulher e um homem. Isso também foi o ápice. No caso da Eurocopa, quando a gente foi pedir ajuda dos policiais, eles ignoraram o que a gente estava falando. Eles não pensaram que a gente de fato poderia ter sido abusada, que a gente poderia ter sido violentada, coisas horríveis poderiam ter acontecido se a gente não tivesse corrido. Eles foram ainda mais estúpidos e nos acusaram de estar em um lugar onde nós não deveríamos estar. Quando fecha a fan zone eles começam a tirar todos os torcedores, e isso aconteceu bem no final. Quando nós fomos até eles, eles só diziam para gente sair, que nós não poderíamos estar ali. Nós tentávamos explicar que nós estávamos ali porque nós fomos assediadas e que nós queríamos ainda tentar gravar algo e salvar o material. A partir disso, começou uma briga doida, em dois idiomas, a Isabela falando francês e eu falando inglês, um clima super tenso. Eles tomaram nossas credenciais e um deles usou do poder masculino e francês, porque nós éramos duas estrangeiras. Ele dizia “vocês vão sair daqui e acabou. Vocês não vão mais por o pé aqui”. Essa situação repercutiu mundo a fora. O embaixador do Brasil na França nos mandou mensagem pedindo desculpas, o prefeito de Paris nos mandou desculpas formais e nós voltamos até a fan zone, falamos com o chefe de segurança que nos pediu desculpa pela situação. Foi mais uma lição, mas uma lição que nós não teríamos que viver se não fossemos mulheres.

N: Você acha que tem alguma forma de reverter essa situação do assédio?

B: É aos poucos. Eu acho que começa pela educação que a gente dá para o nosso próprio filho. Aquela coisa básica que a gente diz que tem que tratar a coleguinha com educação, que não pode bater nela, que ela pode jogar bola, que a coleguinha vai estar no estádio. Eu acho que começa pela educação e pelo entendimento de que hoje não tem mais essa coisa de gênero. Se um dia o esporte nasceu como um esporte masculino, hoje ele não é mais masculino, hoje ele é de todos. Da mesma forma que há algum tempo a gente dizia que a moda nasceu para as mulheres. Não, a moda é para os homens também.

N: Como você acha que a mulher no jornalismo esportivo é vista pelo público?

B: Eu acho que isso está mudando. Eu vejo os meus colegas que gostam de futebol respeitando muito o que eu faço. São os opostos: tem aqueles que acham muito legal, que gostam de ver o esporte com mais mulheres do que homens porque acham que isso torna o esporte mais interessante e que acham até mais desafiador saber que a mulher está buscando esse caminho e buscando informações. E tem aqueles que odeiam, que acham que a mulher só está lá porque é bonita e, geralmente, o primeiro elogio do cara é sobre a beleza, depois sobre o talento ou inteligência. Eu brinco muito com o pessoal quando a gente faz as lives depois dos programas, sempre digo “obrigada por me achar bonita, mas eu quero ser reconhecida pelo meu trabalho, pelo meu talento, do que pela minha beleza.” Eu acho que as coisas estão mudando, mas é preciso ter a figura feminina, ter a jogadora, ter a narradora, ter a jornalista no campo. Em Pelotas, para ter uma ideia, eu fui a primeira repórter mulher. Eu gostaria, por exemplo, de ver uma mulher na FIFA, eu não sei de uma mulher que tenha um cargo super representativo dentro desse órgão. Ou mesmo na CFB, qual é a mulher que está na CBF? A CBF é uma cúpula masculina, uma cúpula de cartolas de dirigentes centenários, dinossauros do futebol e não tem uma mulher falando de futebol. Quando isso começar a acontecer, as coisas vão começar a mudar. É importante a gente falar sobre isso, a gente tem que falar sobre isso. O principal problema do esporte no Brasil é que a gente só mostra o lado bom. A gente só mostra as coisas ruins em casos extremos. É preciso alguém quase matar uma policial dentro de um estádio para a gente discutir isso. É preciso um caso de racismo absurdo para a gente discutir o racismo. Porque isso não é diário? Se esse trabalho fosse diário e se entendessem que o esporte não é só o lazer, isso seria melhor.

N: Você acha que essa dificuldade de entrar no mercado foi superada e agora falta superar a questão do machismo e do preconceito do telespectador?

B: Nós já rompemos a barreira de que mulher não podia fazer futebol. Acho que hoje na hora da escolher um repórter, o fato de ser um homem ou uma mulher já não pesa. Hoje se a gente for olhar para os principais canais com correspondentes no exterior, está bem dividido. Esse preconceito já foi quebrado, agora é o dentro e o meio da profissão. Vai ser sempre passo a passo, mas a passos largos, assim espero.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s