Capoeira é símbolo da cultura brasileira

Gabriel Siqueira Lopes, de Londrina

“Capoeira é luta, é dança// Capoeira é arte, é magia// Eu jogo a Capoeira, pois ela é minha alegria// Quando eu toco Berimbau, minha alma se contagia// Pois viver sem Capoeira, é uma grande agonia”, Mestre Barrão resume bem o sentimento do capoeirista nesta música. A arte representa a luta contra a escravidão, o empoderamento do negro e o movimento que nasceu em terras brasileiras.
Música, cultura popular, esporte e arte marcial expressam grande parte do que se vê em uma roda de Capoeira. A expressão popular nasce no século XVI nas senzalas brasileiras. Na época, o país era colônia de Portugal e a mão de obra escrava africana predominava nos engenhos de cana-de-açúcar.
A Capoeira é criada em um ambiente nada próspero. Ela é um símbolo negro de revolução. A ginga, a música e a luta se unem em uma expressão genuinamente brasileira. “Capoeira, para mim, é um grande mistério”, conta o professor de Capoeira Marcelo Pinhatari. Marcio Spadari, o Mestre Spaghettii do grupo Etnia Brasil Capoeira, complementa: “A Capoeira é a expressão de liberdade”.

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Música
“Esse jogo valente é da natureza// Um instinto que o homem responde com o corpo// Ela traz fundamento da sua história que sobrevive até hoje// Pois é arte do povo”, Carolina Soares na música Capoeira expressa a relação que o praticante tem com a história e com a terra. As músicas das rodas não são meramente ilustrativas, elas sempre carregam conteúdo e ritmo fundamental para o desenvolvimento do jogo.
A musicalidade do berimbau, instrumento que rege o ritmo da roda, se estende para além do som. Até os ritmos dos toques carregam significados diferentes nas rodas.
Quando o ritmo é mais lento e o jogo fica mais cadenciado, levando a expressividade do chão, vimos a Capoeira Angola. Já quando o ritmo é acelerado e o jogo fica mais rápido, acompanhamos a Capoeira Regional.

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Angola
A Capoeira Angola também é chamada de capoeira mãe, é o estilo de jogo mais antigo que existe. O ritmo da roda é lento, cadenciado e os capoeiristas tem um contato muito significativo com o chão. Mas não se engane, a Angola não é para iniciantes.
Nascido em 1889 em Salvador, Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha, é o nome mais conhecido da Capoeira Angola. Um dos responsáveis por tirar essa arte da ilegalidade.
Pastinha teve o reconhecimento de sua vida quando em primeiro de outubro de 1952 o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) foi oficializado em Salvador, Bahia. Até Jorge Amado escreveu um livro sobre o Mestre em 1964.
Em 1971, a prefeitura da cidade resolveu “reformar” o local aonde o CECA funcionava e nunca mais devolveu o prédio. Cansado e esquecido, em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado em um abrigo para idosos.
Discípulo antigo de Pastinha, Mestre João Pequeno reabriu o CECA um ano depois da morte do pai da Angola. Local que em 1997 acolheu Pinhatari, e por lá ficou treinando durante três anos.
“Tanto a capoeira angola como a Bahia, o período que morei lá foi um momento de profunda transformação em minha vida. Conheci o Brasil que não conhecia com profundidade até então. A capoeira me mostrou uma história não contada nos livros oficiais. Me refez o corpo, alma e minha identidade cultural. A capoeira me despertou para um ser político que faz parte de uma história de resistência e que ainda está acontecendo. ”, conta Pinhatari, hoje professor de Capoeira, que voltou para Londrina em 2000.
Ele ainda fala do poder transformador da arte: “Como uma manifestação de resistência física, mental e cultural, a capoeira se mantem ainda hoje com esta força. Ela é capaz de transformar por completo a atitude de qualquer indivíduo, colocando-o não mais como indivíduo, mas como ser coletivo dentro do contexto da Capoeira, que é libertadora”.
Regional
A Capoeira Regional é caracterizada por ter um ritmo mais acelerado de percussão e, consequentemente, o jogo mais rápido. Os capoeiristas não têm tanto contato com o solo e os golpes são mais acentuados.
Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, foi quem fundou essa modalidade. Aos 12 anos de idade ele foi introduzido na Capoeira Angola e chegou a ser professor por dez anos na modalidade, até que desenvolveu a Capoeira Regional. Em 1932 ele abriu a primeira academia.

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Bimba também lutou contra a criminalização do esporte, em 1953 ele se apresentou para Getúlio Vargas, presidente do Brasil na época, que ao fim da cerimônia declarou que aquele era o único esporte verdadeiramente nacional.
O Mestre foi assíduo divulgador da arte, ele acreditava que se não fosse divulgada, seria engolida por influências estrangerias. Ele é tido como figura principal para a profissionalização da Capoeira.
Como Pastinha, Bimba morreu no esquecimento. Em 1973 teve que deixar a Bahia por motivos financeiros e se abrigar em Goiânia, Goiás. Em 1974, faleceu em decorrência de um derrame cerebral.
Capoeira Regional foi onde Spaghettii se criou. Segundo ele, a maior parte da sua vida viveu como capoeirista. “Através da capoeira eu aprendi a me comunicar, aprendi que todos somos iguais, aprendi a respeitar para ser respeitado, melhorei a autoconfiança e como lidar com situações difícil”, relata o Mestre do Grupo Etnia Brasil.
A profissionalização do esporte fez com que Spaghettii encontrasse na Capoeira um meio de vida. “A capoeira me proporcionou muitas coisas boas (…) me fez conhecer pessoas, fazer novas amizades. Com a Capoeira tive a oportunidade de viajar por 12 estados brasileiros, conhecer diversas cidades e além de ser minha profissão e ajudar no sustento da minha família. Ela me deu a possibilidade de ser um atleta, um educador, um artista ou melhor capoeirista”, conta.

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