Ocupa Aplicação: um olho no governo, outro na organização

Beatriz Amaro – Londrina

Esse relato é um registro das ocupações que marcaram o fim do ano de 2016, escrito há três meses. O Paraná possui 2147 escolas estaduais, das quais 850 foram ocupadas segundo os manifestantes.

“Sobre o que você quer falar? É melhor marcar um horário. Você é estudante da UEL? Muitas pessoas vêm aqui e dizem isso só para conseguir entrar.” Os estudantes do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), uma das 23 escolas ocupadas em Londrina e 460 no Paraná (atualização em 15 de outubro), recebem os visitantes com ceticismo e certa desconfiança. Depois de assinar uma lista, apresentar o registro estudantil – obrigação de quem se diz estudante – e explicar o motivo da visita, a entrada é permitida.

A maioria dos alunos fica na mesma sala, onde se reúnem para organizar as atividades do dia. “Desculpe, mas precisamos manter o controle de todos que entram”, diz Felipe, 17 anos, estudante do terceiro ano do ensino médio. “É também um pedido dos pais, que ameaçam tirar os filhos caso pessoas de fora venham, durmam. Precisa haver organização. A maioria dos pais não apoia a ocupação por sentir medo.”

O Colégio de Aplicação foi ocupado na segunda-feira, 10, depois de uma assembleia geral dos estudantes, abaixo-assinado e votação. Na assembleia, alguns alunos expuseram os motivos pelos quais gostariam de ocupar a escola: a Medida Provisória 746, que muda o formato do ensino médio a partir de 2018; a Proposta de Emenda Constitucional 241, que congela as despesas do Governo Federal por até 20 anos; e a falta de diálogo por parte do Governo Estadual em relação ao movimento estudantil. Foram 185 votos a favor e 30 contra a ocupação. Bianca, 17 anos, também estudante do terceiro ano do ensino médio, conta que, “a partir da contabilização dos votos, já começamos a produzir os cartazes e colá-los nas paredes”.

Cartazes espalhados pelo Colégio. Crédito: Beatriz Amaro
Cartazes espalhados pelo Colégio. Crédito: Beatriz Amaro

Organização 

Desde que decidiram pela ocupação, os alunos começaram a se organizar. “Fizemos um esquema de cores: o pessoal da comunicação usa uma faixa amarela, o da cozinha usa preto, o da segurança usa vermelho e assim por diante”, explica Felipe, 15 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio. “Mas há uma comissão de organização geral com nove pessoas, que define agenda de oficinas e palestras. É composta pelas pessoas que dormem aqui, que são sempre as mesmas.” Bianca acrescenta que, apesar deste esquema, “a organização é horizontal, ou seja, não existe um líder e ninguém toma decisões sozinho”.

A rotina dos estudantes é pacífica: de manhã, cuidam da limpeza e organização. À tarde, assistem às palestras e oficinas, abertas ao público e divulgadas na página do Facebook “Ocupa Aplicação”. “Decidimos que, diariamente, às 20 horas, discutiremos o que aconteceu no dia e quais serão as atividades do dia seguinte”, explica Gabriel. Há sempre mais de uma pessoa na guarita, mesmo durante a madrugada. Felipe, o designado “vigia noturno”, conta que o Choque costuma dar voltas no quarteirão durante a noite. “A polícia veio aqui no primeiro dia de ocupação, conversou conosco e foi tranquilo. Mas deve estar esperando algum vacilo da nossa parte. Não vai acontecer. Estamos muito alinhados.”

Alunos do Colégio Aplicação conversam com alunos do Colégio Fernão Dias, de São Paulo. Crédito: Divulgação (Facebook)
Alunos do Colégio Aplicação conversam com alunos do Colégio Fernão Dias, de São Paulo. Crédito: Divulgação (Facebook)

A principal questão da organização, neste momento, é a maneira de lidar com a mídia. Segundo Felipe, “a mídia não fala das ocupações e, quando fala, passa informações que assustam nossos pais, dizem que os alunos estão saindo de casa e desaparecendo. Também procuram nos relacionar a algum partido político, mas este é um movimento totalmente apartidário. Vamos nos posicionar, sim”.

A negociação dos estudantes com o governo segue em sigilo, mas, por ora, os estudantes afirmam que não sabem quando desocuparam o colégio, já que “tudo pode acontecer. De qualquer forma, o governo precisa recuar na Medida Provisória”.

Ajuda

Além de poder contar com alguns pais e professores, os alunos do Colégio de Aplicação têm recebido bastante apoio externo. Bianca revela que sentiu medo nos primeiros dias, mas se surpreendeu com a ajuda encontrada. “Muitas pessoas passam na frente da escola e nos xingam, gritam, mas agora estamos seguros. Como estamos ao lado do Colégio Hugo Simas, também ocupado, nos fortalecemos mais.” “Além disso”, completa Gabriel, “essa localização privilegiada nos deixa mais tranquilos em relação a mantimentos, então passamos em outros colégios afastados para ver o que eles precisam”.

Beatriz, 16 anos, estudante do segundo ano do ensino médio, diz que “os alunos da UEL nos auxiliam em muita coisa, seja em mantimentos, em oficinas e palestras e mesmo em orientação. Se precisamos de alguma coisa jurídica, por exemplo, os estudantes de Direito se dispõem a nos ajudar. É muito importante”.

Preparação de cartazes com as regras de convivência. Crédito: Divulgação (Facebook)
Preparação de cartazes com as regras de convivência. Crédito: Divulgação (Facebook)

Reintegração de posse

O primeiro colégio ocupado em Londrina, Colégio Estadual Albino Feijó Sanchesno dia 7 deste mês, foi desocupado no último sábado, 14, depois de uma liminar expedida pelo juiz Marcos José Vieira, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Londrina. Os alunos foram informados da decisão por um oficial de Justiça. Eles deveriam deixar a escola de imediato.

Na terça-feira anterior, 11, o juiz Osvaldo Taque havia indeferido o primeiro pedido de reintegração de posse do C.E. Albino Feijó. O documento, de 8 de outubro, afirmava que “certamente há vulneráveis que não merecem, pelo menos por ora, ser submetidos aos efeitos nocivos de uma violência estatal de reintegração forçada de posse”.

O governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), garantiu ao presidente da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES), Matheus dos Santos, em conversa no dia 12, que não haveria reintegração de posse das escolas ocupadas. A conversa foi gravada por Santos.

Diante da desocupação do C.E. Albino Feijó, os estudantes manifestaram-se através da página do Facebook “Ocupa Londrina”: “Hoje vivemos um processo para além de histórico em Londrina-PR, concentrando mais de 20 ocupações, e tendo o primeiro colégio ocupado em Londrina no cumprimento jurídico do processo de reintegração de posse, pacífico e legítimo (…). Sem dúvida já era esperado que não fosse cumprida a conversa com o governador de não ser reintegrada a posse de nenhum colégio estadual antes da conversa que reunirá estudante secundaristas (UPES) do Estado do Paraná com o Governo. Entretanto continuamos na luta e ela só cresce.”

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