Cannabis medicinal: um caminho para discutir a descriminalização

Texto e Foto: Heloiza Vieira

De acordo com um relatório divulgado no ano passado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), 182,5 milhões de pessoas em todo o mundo usaram cannabis em 2015. No Brasil, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) apontou que mais de 1,5 milhões usam cannabis diariamente.  Apesar de ser a substância mais consumida no país após o álcool, nada é fácil quando o assunto é flexibilizar as regras sobre o uso de cannabis. No entanto, o discurso que tratava a planta como erva do diabo perdeu força e já é possível falar sobre o potencial medicinal sem chocar. A discussão sobre o uso terapêutico de cannabis no Brasil está ajudando a impulsionar um debate que nunca havia ganhado força no cenário nacional: a descriminalização ou legalização das drogas.

O jornalista e ex-editor chefe da Revista Superinteressante, Denis Russo Burgiemman, estuda e escreve sobre o tema há mais de dez anos. É autor de grandes reportagens e co-produtor do longa metragem Ilegal – a vida não espera, que retratou o drama de pais e mães que enfrentavam a ilegalidade para importar clandestinamente o canabidiol – uma das substâncias extraídas da cannabis para o tratamento dos filhos com tipos raros de epilepsia. Denis defende a regulamentação terapêutica da cannabis e uma nova compreensão dos entorpecentes.

Como você começou a se interessar por esse assunto?

Denis: O interesse jornalístico surgiu no começo de 2001 com um documentário canadense chamado Grass [Grass – The History of Marijuana, em português – A História da Maconha], que  tinha uma história que eu nunca tinha ouvido falar. E nós na Super éramos treinados para coisas que você nunca ouviu falar: é uma revista que trabalha com a curiosidade das pessoas. Comecei a defender lá dentro a ideia de uma matéria grande, de capa, sobre maconha e escrevi essa matéria para uma capa da Super, em 2002 —  A Verdade sobre a Maconha, que falava sobre maconha medicinal. E foi uma matéria que fez muito barulho, foi um sucesso muito grande. Nós acompanhamos essa discussão que tem tudo a ver com ciência, tem tudo a ver com a evolução do conhecimento humano, com esse potencial transformador do conhecimento. Voltamos ao assunto várias vezes.

Que tipo de barreira você enfrenta quando trata desse tema?

A crítica não é uma barreira. Faz parte do jogo que a gente joga. Nós escrevemos, as pessoas gostam ou não gostam, reclamam ou não reclamam, nós lemos o que eles escrevem, entra no debate, é importante. Nós não queremos que as pessoas saiam dizendo: “Ah vocês estão certos em tudo”. Nosso trabalho é difundir informação para gerar debate. Num primeiro momento quando a gente começou a trabalhar com esse tema tinha uma certa resistência cultural mesmo dentro das equipes, hoje em dia é um assunto reconhecidamente importante, nós não sofremos censura. Já teve, o Ministério Público já nos denunciou e nos investigou por apologia as drogas. Isso não acontece mais. O ambiente é outro, acho que desde o começo do século 21 é um ambiente em que o debate acontece e é bem vindo e se não fosse esse ambiente nós não estaríamos conseguindo fazer esse trabalho.

Você está discutindo esse assunto há mais de dez anos. Nesse tempo todo, o que você acha que mudou?

O debate mudou, evoluiu, ficou muito mais rico. Antes não tinha dado nenhum, hoje tem tanta informação, tem tanta pesquisa científica interessante, tem tanta reportagem boa. Você consegue entender com muito mais clareza. Acho que as pessoas ainda continuam carregadas de preconceitos, porque o assunto é tabu, mas já há um ambiente em que dá para conversar. Por exemplo, a pesquisa médica usando drogas como medicamento praticamente não existia quando eu comecei a trabalhar com isso. Hoje está explodindo, com novas áreas de pesquisa por todo lado. Tem pessoal trabalhando com maconha medicinal no mundo inteiro.

Agora falando especificamente de maconha medicinal, por que você acha que, apesar de termos tantas pesquisas comprovando o poder curativo da maconha o nosso país é tão conservador?

Tem muita pesquisa sendo feita. Como eu disse, há 20 anos não tinha quase nada. Então as coisas ainda são preliminares, ainda falta comprovação, ainda há muita incerteza. Só que é como eu te disse: a discussão é política demais, as pessoas não estão olhando o mérito das coisas, estão olhando a mensagem que é passada; tenho muito medo disso. Há muita ignorância. Ninguém tem coragem de tocar nesse vespeiro que atrai muito preconceito das pessoas.

 

 

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