Entre tapas e beijos: as relações entre a cobertura midiática e o resultado das greves de 2015 por quem acompanhou tudo de perto

Texto e foto: Mônica ChagasArnaldo Vicente.JPG

Militante desde os tempos de estudante da Universidade Federal do Paraná, o professor de História da rede estadual de ensino, Arnaldo Vicente, me recebeu em seu apartamento para falar sobre uma de suas paixões – os movimentos sociais. Com um olhar de historiador e sociólogo e uma vivência de todas as greves do século XXI no estado do Paraná, Arnaldo enxerga além das nuances do movimento grevista e consegue indagar sobre a antiga e delicada relação com a imprensa, e sobre a cobertura peculiar das greves de 2015 no estado.

– Como você vê a relação entre a cobertura da imprensa e o resultado das greves? O modo como os meios de comunicação transmitiram as greves de 2015 favoreceu o movimento?

“O que nós percebemos durante a greve, e isso sim eu estabeleci como um pensamento para trabalhar na nossa formação política, essa comparação que eu fiz em Cianorte e fiz em outros lugares onde eu acabei trabalhando a formação política para entendermos o seguinte: A greve dos professores em São Paulo. O que eles queriam? A mesma coisa que nós. 8,17%. Eles pautaram 8,17% e nada menos. É isso ou nada. E nós também pautamos isso: é 8,17% ou nada. Nós pautamos isso inicialmente, mas nós fomos lá e flexibilizamos isso. Então o que aconteceu foi que nós fizemos esse movimento de ir lá e negociar e entender o seguinte: que para nós, enquanto que os professores lá de São Paulo primeiro: ficaram no 8,17%, isso ou nada, então pra isso eles precisavam ter uma força não só do próprio movimento, mas o apoio da sociedade que eles lá não tinham, porque a sociedade se voltou contra eles e porque? Porque a mídia se voltou contra eles. Quando eu comparo o que aconteceu no Paraná com o que aconteceu em São Paulo, então tem duas coisas: tem a organização, porque o resultado aqui é um conjunto das contradições e das forças do movimento dos servidores que estão influenciando aqui no Paraná diferente de São Paulo, mas a mídia não tem dúvida nenhuma. Porque o que aconteceu? Aconteceu que o Alckmin nunca rompeu com a Globo, não houve ruptura com a Globo, em momento algum. E o que nós víamos do Paraná no ano passado [2015]? Parecia que existia uma Rede Globo nacional e aí nós vamos entendendo que não é bem isso.”

“Mas em linhas gerais isso ficou muito explícito no resultado da greve, porque eu estive três ocasiões em São Paulo durante a greve deles e o que eu pude ver foi uma greve muito forte, sabe assim? Uma greve que não apareceu na Rede Globo… Então assim, quando eu pego a questão do resultado, o resultado… aqui nós tivemos um movimento forte e lá não teve um movimento forte? Não, não é verdade. O movimento lá foi tão forte e com tanto apoio que eu penso assim… […] eles fizeram atos maiores lá. Agora quando eu pego 40 mil pessoas em Curitiba, num ato que veio gente de todo o Paraná, ônibus de todo o Paraná, 40 mil não é muita gente, pensando na sociedade paranaense como um todo. Então não é o fato da gente colocar 40 mil, mas é o fato da gente colocar 40 mil e as pessoas que não foram no ato e que ficaram em casa olharam pela telinha o que aconteceu lá, olharam a linha do foi dito e ‘É isso mesmo, eu apoio esse negócio aí’. Enquanto que em São Paulo os caras nunca mostraram a multidão, aqui eles mostravam.”

– Como a subjetividade dos profissionais de imprensa influenciou nessas relações?

“Eu acho que teve uma atuação de profissionais, nós tivemos profissionais da imprensa, tanto é que nós tivemos dois meninos […] e teve uma menina que no dia 29 estava levando bomba conosco lá… ela circula no nosso meio, agora, no dia 30 de agosto com aquela multidão, quando teve o 29 de abril desse ano [2016], ela estava lá no nosso meio com o microfone da Rede Globo. Coisa que assim, se fosse outro jornalista poderia ter problema. O Caco Barcellos mesmo apanhou esses dias no Rio de Janeiro e não é porque é o Caco Barcellos, é o que ele representa, quem bateu nele estava furioso com a Rede Globo. E esses jornalistas eles andam no nosso meio primeiro porque eles sabem… primeiro, porque as pessoas, os nossos dirigentes conhecem, então se alguém começar a burilar logo vai surgir alguém e falar: ‘Não, deixa eles trabalharem, são profissionais, estão aqui trabalhando’. Mas porque? Não é só por isso, é porque eles se identificaram conosco, ou seja, eles sentiram a dor que nós sentimos, como se pelo fato deles sentirem a dor que nós sentimos eles ganhassem uma autorização, uma credencial, para circularem no nosso meio tranquilamente com microfone da Rede Globo ou sem microfone da Rede Globo.”

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