Os segredos revelados por David Bowie

70s David Bowie Costume In David Bowie Style

                         André Costa Branco

                            Enquanto esteve vivo (ao menos como uma latente manifestação cultural de massa), o rock foi veículo para artistas consagrarem o espírito de um tempo. O próprio boom do gênero, que teve como pano de fundo anos de grandes transformações sociais e transgressões estéticas, favoreceu o signo de rebeldia levantado pelo rock.

Assim como os Beatles na década de 1960, David Bowie é considerado o guia mais confiável da cultura popular na febre dos anos 70. Mas ao contrário da década anterior, os anos 1970 não foram impulsionados por utopias ou idealismos otimistas, mas sobretudo, segundo o biógrafo Peter Doggett, por medo e dúvida.

O autor argumenta que um dos motivos pode ter sido porque, se os anos 60 sugeriam que o futuro anunciava uma era do progresso, os anos 70 foram tempos de perplexidade, pessimismo e, nas palavras de Doggett “de um hedonismo incauto e represálias cruéis.”

A energia da sociedade parecia se tornar literalmente escassa, tendo em vista os alertas crescentes do esgotamento dos recursos naturais, aplacados em uma realidade de crise política e econômica. Os termos mais empregados para definir a cultura da época eram “declínio”, “depressão” e “desespero”. A principal característica dos anos 70, e a beleza dela, era que a década não concretizaria as esperanças do flower power.

Já para a pensadora Camille Paglia, a afirmação de David Bowie como artista, com o single Space Oddity, é contemporânea a uma mudança de paradigmas na história da sexualidade moderna. Era a derrocada do amor livre como agente revolucionário, frente a uma visão de mundo decadente e apocalíptica. A solidariedade entre os povos se mostrou ingênua, e a expansão da consciência provocada pelas drogas psicotrópicas resultou em desnorteamento e paranoia.

A década de 60, marcada pelo liberalismo rebelde, pelo naturalismo e pela celebração do sexo e da emoção como modos de transcendência do indivíduo, pode ser entendida como uma ressonância dos ideais românticos do século XIX. A expressão popular desses ideais foi o rock emergido das classes trabalhadoras. Mas a velocidade dos acontecimentos, amplificada pela comunicação de massa, fragilizou esse movimento.

Para além da música, David Bowie não tinha a música como único canal de voz. Trata-se de um artista multimídia que, acima de tudo, criava imagens. Seu domínio dos recursos visuais era emprestado pelo instinto fotogênico e pelo interesse por fotografia clássica de Hollywood, revistas de moda e filmes de arte europeus. A linguagem corporal, influenciada pelas aulas de pantomima e teatro da trupe de Lindsay Kemp, também é preponderante no fascínio encenado por sua figura. Antes do estrelato, Bowie chegou a trabalhar numa agência de publicidade em Mayfair, Londres, onde assinou teorias sobre marketing de massa.

Bowie, nesse contexto, assim se posiciona como um artista das mudanças – não à toa, Changes é uma de suas músicas mais marcantes.

 

 

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