Teoria X Prática: o abismo secular da universidade

Mônica Chagas

A separação entre teoria e prática é questionável em praticamente todas as ciências e as formas como são transmitidas na Academia dão razão ao questionamento. A começar pela organização das grades curriculares e dos docentes indicados para cada área: a ampla maioria dos cursos de graduação “separa” o primeiro ano para o conteúdo teórico e descarrega sobre os estudantes recém chegados à universidade uma densa carga teórica que, na maioria das vezes, se não os faz desistir, desanima profundamente; os docentes parecem viver em campos opostos de um jogo de futebol – de um lado “os da teoria”, de outro, “os do mercado” – num abismo boçal que confunde ainda mais quem chega à graduação sedento por aprendizado.

No decorrer dos anos aguentando a carga teórica que lhes é imposta e tentando aplicá-la no dia a dia da profissão, os estudantes começam a perceber que o buraco, ou melhor, o abismo, é ainda mais fundo do que se podia imaginar. No caso do Jornalismo a questão ficou clara para mim na produção do Trabalho de Conclusão de Curso.

Uma pesquisa que decorre de quatros anos de aprendizado sobre a profissão e que deveria provar que o que nos foi ensinado na teoria é aplicável na prática cai por terra quando se estuda a realidade da rotina jornalística no Brasil; o que já torna-se perceptível nos projetos de extensão e nos estágios realizados durante o curso.

No meu caso o objeto de estudo do TCC foi o editorial. Gênero jornalístico opinativo que expressa a opinião oficial da empresa de comunicação diante de determinado fato etc, etc, etc. A própria definição já é equivocada. Ao estudar o processo de produção dos jornais impressos de Londrina no período das greves de 2015 percebi que os livros que normatizam a produção de editoriais, estrutura, elementos textuais e temas têm que ser atualizados imediatamente ou simplesmente deixados de escanteio, pois a normatização já não enriquece a profissão há anos.

Em teoria, o editorial deve ser escrito por um profissional de cargo elevado dentro da empresa, que consiga alinhar-se à linha editorial do grupo de comunicação. Na prática, o editorial é escrito por quem tem tempo para escrevê-lo ou por jornalistas de diversos cargos que se revezam para não sobrecarregar uma única pessoa. A opinião oficial da empresa, tão prezada pela teoria, fica em segundo plano, pois não há tempo hábil para discussões profundas com a equipe ou com a diretoria para a produção de um único texto que compõe a página dois do jornal.

Em teoria, a estrutura do editorial é dividida em quatro partes, cada qual com uma função espefíca. Na prática, o editorial é dividido por parágrafos numa estrutura textual cada vez mais enxuta, que não deixa espaço para aprofundamentos e cumprimento de funções.

A realidade das empresas de comunicação hoje é outra e uma só – falta gente e falta tempo. Duas coisas essenciais para se fazer bom jornalismo. E mesmo que houvesse gente e tempo acredito que seguir os pressupostos teóricos do Jornalismo Opinativo do século passado também não seria boa ideia.

O jornalismo precisa urgentemente se reiventar, assim como os jornais, os jornalistas, os editoriais e quase todos os textos opinativos que conhecemos. A opinião esteve presente nos impressos desde sempre e precisa continuar. Os leitores e internautas precisam de conteúdo opinativo para basearem a construção do próprio ponto de vista, mas da forma como é teorizada e da forma como é feita a produção jornalística tende ao fracasso.

O abismo entre teoria e prática precisa ser ligado por uma ponte que somente profissionais com pensamentos visionários construirão. Se os editoriais continuarem a ser produzidos como são, com pressa, sem aprofundamento, estrutura e argumentação, serão textos esquecidos dentro dos jornais e só preencherão espaço na página dois.

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