Teodoro e Vadinho ou Apolo e Dionísio baiano

Mitologia grega exemplifica características opostas de personagens do romance “Dona Flor e seus dois maridos”

Bruno Petri

Ilustração: site Ginno Larry

As características opostas de Vadinho e Teodoro definem o conflito do romance “Dona Flor e seus dois maridos”. O primeiro, mulherengo e alcoolista; o segundo, farmacêutico e fagotista. Jorge Amado propõe ao leitor um duelo de desejos. Se antes a personagem que dá nome ao livro almejava um homem honesto e trabalhador, ao encontrar um marido tradicional e correto, Dona Flor passa a suplicar pelas sacanagens sexuais do esposo morto.  Há na mitologia grega dois personagens que melhor explicam a personalidade de Vadinho e Teodoro: a história de Apolo e Dionísio.

O pesquisador P. Commelin, no livro “Mitologia grega e romana” (Editora Martins Fontes, 1993, 447 pags., tradução de Eduardo Brandão), informa que Dionísio era chamado de liber (livre). A alcunha provém do reconhecimento do personagem como o deus do vinho – da bebida que liberta o espírito. O escritor também afirma que o personagem mitológico era “… representado ordinariamente com chifres, símbolo da força e do poder, coroado de pâmpano, hera ou figueira, com traços de um homem jovem, sorridente e divertido. Traz numa mão um cacho de uvas ou um chifre em forma de taça; e na outra, um tirso cheio de folhagens e fitas.”

Commelin também explica que o deus da mitologia realizava festas conhecidas por Donísicas. Essas cerimônias apresentavam cortejos de homens fantasiados e procissão de vasos cheios de vinho e coroas de pâmpano. As características do deus mitológico se assemelham à carnavalização de Bakhtin, que também se aproxima às características de Vadinho (mulherengo, frequentador do carnaval baiano, bêbado e livre das regras impostas pela Igreja, sociedade e Estado).

O racional Teodoro distancia-se do caráter festivo de Dionísio. O personagem de Jorge Amado muito se identifica a Apolo, conhecido como deus da música, da poesia, da eloquência e da medicina. No filme, Teodoro toca Fagote (relação aos dotes musicais de Apolo), é farmacêutico (compatível ao reconhecimento do deus grego à medicina) e fala o idioma obedecendo às regras gramaticais, o que não foge das características de Apolo, também considerado o deus da sabedoria.

A distinção dos personagens de Jorge Amado não foge, pelo visto, de duas histórias da mitologia grega. É o clássico da literatura brasileira se alimentando dos clássicos da Grécia Antiga.

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