Quando a manipulação é a verdade

Natalia Dourado

A alteração das imagens funciona como argumentos para o debate político atual

“Uma imagem vale mais que mil palavras” é um ditado que nos diz tudo sobre o poder das imagens na sociedade. Nos dias de hoje, a relação de grande parte da população mundial com as imagens é de submissão. As imagens moldam as nossas vidas. É por meio delas que muitos eventos sociais, como debates políticos na TV por exemplo, são legitimados – pela transmissão ao vivo. É por meio delas que, muitas vezes, nos firmamos socialmente através das redes sociais.

No jornalismo, as imagens também são muito importantes e com a arbitrariedade dela em nossa sociedade, o aspecto visual das publicações impressas vem se modificando, ficando mais visuais. É comum a Folha de S. Paulo ou mesmo o extinto Jornal de Londrina apresentarem uma imagem em destaque na capa, mesmo quando a manchete principal aborda outro assunto.

No jornalismo, às vezes, é importante trazer um texto junto à imagem, para evitar interpretações ambíguas, como disse o antropólogo Peter Loizos (1937 – 2012). Mas e quando as imagens não só são ambíguas como também são manipuladas sem que as pessoas percebam?

É aqui que entra o termo scitexing, ainda pouco conhecido e abordado no mundo acadêmico e não acadêmico. Scitexing é a manipulação do conteúdo de certa imagem com recurso eletrônico.

Entretanto, hoje em dia, é quase impossível haver imagens sem o famoso retoque no popular programa Photoshop. Não é à toa que alguns países legislaram sobre o tema, focalizando as mulheres, que já pressionadas pelos padrões de beleza, são prejudicadas com maior intensidade, bombardeadas com projeções de mulheres “perfeitas” em diversos lugares e publicações. Inclusive no Brasil já tramita projetos do tipo.

Mas no campo político, quando essa imagem é alterada, muitas pessoas ainda não acostumadas com o poder de manipulação neste meio, tendem a ser convencidas. Basta pesquisar algumas montagens da revista Veja que caíram facilmente no imaginário do brasileiro e outras que viraram episódio de extrema falta de ética, como uma foto do ex-presidente Lula no meio de sua suposta amante Rosemary e de sua esposa Marisa Letícia.

O jornal Notícias de la Semana já publicou várias capas manipuladas da ex-presidente Argentina, Cristina Kirchner, onde ela aparecia com hematomas no rosto e um curativo na região do queixo. Já o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também teve sua foto manipulada, mas de um jeito diferente. Ao visitar uma praia em Louisiana, após um vazamento de petróleo no golfo do México, ele estava acompanhado, mas na foto publicada pela revista The Economist, aparece sozinho.

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Capa do jornal Noticias de la Semana.

Essas manipulações foram feitas intencionalmente por esses meios de comunicação. Mesmo que não gerem grandes problemas, elas às vezes desrespeitam as pessoas, menosprezam o público, distorcem a realidade e, uma vez publicadas, podem solidificar as opiniões de pessoas que veem aquilo como a verdade. O uso de imagens manipuladas no debate político brasileiro anda bem intenso, como sabemos, e reflete bem isso. Às vezes, não interessa os fatos, as contradições, mas apenas a imagem que diz o que as pessoas querem ver, usando as manipulações como um argumento. Como imagens mostrando Lula ou Dilma com muito dinheiro público: não mostra a verdade, não é uma prova, mas representa o que as pessoas acham que é a verdade, contribuindo para uma profunda alienação.

 

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