A relação intermitente entre violência e futebol

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Gabriel Siqueira Lopes

 

A história das torcidas uniformizadas começa no Brasil na década de 1960 e elas nunca estiveram tão em pauta como estão hoje. A violência nas arquibancadas, atribuída a essas organizações, é tratada pela mídia como a principal razão pelo esvaziamento massivo dos estádios do país. No entanto média de público da série A do Campeonato Brasileiro de futebol de 2015 foi de 17.055, totalizando 500 pessoas a mais do que no ano anterior.

A relação direta da violência com as torcidas uniformizadas começou nos anos de 1990, década marcada por impressionantes brigas entre torcidas rivais. A final da Supercopa São Paulo de Futebol Júnior de 1995 foi o maior exemplo. Palmeiras e São Paulo se enfrentavam em partida equilibrada e que só foi resolvida nas prorrogações pelo gol alviverde. Saldo pequeno dentro do gramado, mas grande na arquibancada: foram 102 pessoas feridas e um adolescente de 16 anos morto.

A primeira morte provocada pelas relações pouco amigáveis entre as torcidas uniformizadas se chamava Cleofas Sostenes Dantas da Silva. Sergipano, palmeirense, presidente da Mancha Verde (maior torcida organizada da Sociedade Esportiva Palmeiras), foi morto em 22 de outubro de 1988 com dois tiros no peito que reverberam até hoje nos estádios brasileiros.

Desde a primeira morte, da primeira grande briga, o que foi feito para expurgar a violência do futebol? Efetivamente nada. A extinção das torcidas uniformizadas é pauta frequente quando o assunto é violência nos estádios.

Marcelo Benini, presidente da torcida uniformizada do Londrina Esporte Clube, a Falange Azul, é categórico ao afirmar que não, “não devemos punir o CNPJ, e sim o CPF. A bandeira não briga, as pessoas brigam”, disse, tentando diferenciar pessoas jurídica (torcida organizada) de física (torcedor violento). Ele ainda ressalta que a sensação de impunidade encoraja aqueles não devem ser tratados como torcedores, proporcionando mais brigas.

Concordando com o raciocínio de Benini, o integrante da Gaviões da Fiel, maior torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista, Max Eduardo Rosa, ainda ressalta que somos historicamente um país violento e que o maior erro seria findar com as torcidas organizadas para acabar com a violência nos estádios.

“Tudo tem extremismo: se matam por religião, se matam por política, se matam por tudo”, afirmou a torcedora do Londrina, Amanda Teixeira, outra integrante da Falange Azul. “Quem briga não é torcida. Pode estar fardado de torcida, mas não são torcedores, são marginais”, completou.

Jonas Daniel, há seis anos na Mancha Verde de Londrina, tem uma solução bem simples para acabar com a violência que, para ele, é propagada pelas direções das instituições uniformizadas. Ele prega a inversão dos ideais na massa da torcida. Ao invés de olhar o torcedor do outro lado como inimigo, que o veja como rival. “Um rival que tem família e que sente o mesmo amor pelo clube que você”. Um ponto muito falho na segurança dos estádios, para o “manchista”, é a falta de cadastro dos torcedores pelo Estado, que facilitaria a identificação dos envolvidos nas brigas.

AMOR

Juras de amor às torcidas organizadas saem da boca de qualquer associado ou simpatizante. A analista de sistemas Amanda Teixeira diz que a Falange Azul é como se fosse uma religião. Marcelo Benini a compara a uma família. Para o cientista social Max Rosa, a Gaviões da Fiel é sua vida, é o que ele respira 24 horas por dia. Robson Marconato e Jonas Daniel, membros da Mancha Verde, lembram uma frase já famosa na torcida: Palmeiras meu amor, Mancha minha paixão.

Apaixonado pelo Corinthians, Max não poupa esforços para ver o time jogar. Viagens para São Paulo já são rotina. A amizade dele com os membros da Gaviões da Fiel é explícita – ele se refere a eles como irmãos.

Robson Marconato lembra com orgulho que, em 2005, a fundação da subsede da Macha Alvi-Verde de Londrina foi encabeçada por apenas três pessoas, e hoje leva um nome de respeito aos estádios. Jonas Daniel lembra até do dia em que virou palmeirense, 12 de junho de 1993, quando a equipe goleou o seu maior rival, o Corinthians, por quatro a zero e foi campeão paulista depois de 16 anos na fila.

Marcelo Benini conta que a Falange Azul já chega aos seus 25 anos de história como a maior e mais respeitada torcida do interior do estado do Paraná, “nunca abandonando seu time em campo, nem fora dele”. Para ele, a torcida faz a maior diferença no estádio. “O jogador olha para lá e se sente animado, arrepiado e com uma carga de adrenalina positiva que o faz correr por toda uma nação”, disse, enfático, Benini.

O BONDE DO JAIME

Jaime de Carvalho, o mais ilustríssimo baiano do futebol fora das quatro linhas. O nordestino flamenguista foi quem criou a primeira instituição organizada que visava o apoio incondicional a um time de futebol, o Flamengo, ainda em 1942.

Durante as Copas de 1954, na Suíça, e de 1974, na Alemanha, Jaime acompanhou a delegação brasileira nos mundiais como representante oficial da torcida, tornando-se o primeiro chefe de torcida que o Brasil conheceu.

A torcida de apoio interrupto ao time era chamada de “Charanga” e foi ela que carnavalizou a torcida brasileira, trazendo instrumentos rítmicos aos estádios de futebol. Muito mais que isso, A “Charanga” visava levar o povo para as arquibancadas, buscando democratizar o futebol.

Para o historiador Bernardo Borges Buarque de Hollanda, antes dos anos de 1940, o público de uma partida de futebol não se diferenciaria em nada a um público de uma orquestra. Foi com Jaime e com a “Charanga” que foi possível ver o uniforme do time na arquibancada, feitos artesanalmente por pequenos grupos de torcedores.

Bandeiras, cânticos e povo. Tudo herança de Jaime, o homem que inaugurou a vida ainda nas concretadas arquibancadas dos estádios de futebol.

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