Livro-reportagem reconstrói a identidade do Jornalismo

 

 

Daiane Maiara Valentin

Com a efemeridade da vida contemporânea, os jornais têm abdicado da grande reportagem – perde-se tempo e dinheiro quando um jornalista passa dias e dias pesquisando um único assunto, quando poderia estar dentro da redação produzindo várias matérias por dia – transformando o jornal em um conjunto de matérias curtas, que permitem rapidez na leitura. A avaliação é de estudiosos do jornalismo ouvidos pela equipe do Pretexto.

Nesse contexto reaparece o livro-reportagem, publicação não periódica caracterizada por combinar a busca da realidade e objetividade do jornalismo com elementos da literatura. Com a falta das grandes reportagens nos jornais, os leitores têm o livro-reportagem como opção, pois ele aprofunda os detalhes dos acontecimentos ligados aos fatos abordados, é um aprofundamento da notícia, que perdeu espaço nos periódicos.

Esse gênero, tal como os textos jornalísticos, trata da não-ficção, ou seja, da realidade. O jornal é feito para ser lido hoje. Amanhã ele estará velho, pois possui uma peça chave: a atualidade. Eis que surge a questão: se o livro, diferente do jornal, é feito para garantir posteridade, como então ele pode ser atual?

Em resposta a essa questão, o jornalista Silvio Ricardo Demétrio explica: “atualidade não significa informação descartável, mas uma informação que vence hoje mesmo, e aí que entra a reportagem”. Segundo Demétrio, há uma relação diferenciada da reportagem com o tempo. “Você não perde. O atual é aquilo que pode me afetar, não é necessariamente um sentido de atualidade, o que aconteceu hoje, o que aconteceu essa semana, não é um tempo cronológico, é um tempo qualitativo, é um tempo vivido, o tempo da experiência. Eu acho que isso falta no jornalismo hoje”, avalia o jornalista, que é doutor em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL),

Ele completa dizendo que o jornalismo se burocratizou. “As pessoas hoje fazem matéria sem sair da redação, só com telefone e internet, então falta esse contato humano. O livro-reportagem parece que devolve isso pro jornalismo e a gente tem uma grande questão hoje que são as novas tecnologias, que libertam do custo desse tipo de produção.” É o corte de gastos que o jornalismo busca.

A jornalista Giovana Chiquim, especialista em Jornalismo Literário e doutoranda em Letras pela UEL, conta que o livro-reportagem surgiu entre as décadas de 1970 e 1980, em razão da ditadura militar, como alternativa para relatar os “anos de chumbo” no país. Os livros não eram censurados, “porque tudo era escrito por meio de alegorias”, menciona Giovana.

O precursor do gênero foi José Louzeiro, com o livro “Lúcio Flávio: o passageiro da agonia”. Segundo ela “é muito caro para os jornais pagar um jornalista para ficar dias investigando um assunto. Hoje temos um jornal mais enxuto, com notícias mais curtas.”

Ela ressaltou que a falta de espaço para a reportagem nos jornais realmente têm feito os leitores buscarem o livro-reportagem como alternativa. Comprovação disso é que os livros figuram entre os best sellers no Brasil, como Gomorra, de Roberto Saviano. Giovana aponta o potencial que essas publicações têm de se tornarem roteiro de cinema. “O livro-reportagem tem alta vendagem e tem potencial para se transformar em filme”.

 

Quanto ao tema, “a maioria são relacionados à política”, continua Giovana.

Temos como exemplo o livro “Olga”, do jornalista Fernando de Morais. Publicado em 1985, a biografia de Olga Benário Prestes vendeu 400 mil exemplares até o início de 2004, quando foi adaptado para o cinema.

Público

Se há um público leitor suficientemente grande para transformar os livros em best sellers, significa que o mercado editorial lucra com essas publicações. Demétrio defende que não existe livro-reportagem no Brasil como um produto de massa. “Mas existe um público ávido e fiel”, ressalva. Quanto ao motivo pelo qual o público busca o livro-reportagem como alternativa diante da ausência de reportagens nos jornais, ele explica: “O público que busca esses livros quer recuperar esse status que o jornalismo andou perdendo um pouco nas últimas décadas.” Demétrio afirmou que, atualmente, existe um discurso muito negativo sobre a imprensa. “Você vê as pessoas falando de imprensa, é uma coisa desacreditada, falida, caduca. Engraçado. É a mesma imprensa, são os mesmos grupos, as condições de trabalho talvez sejam um pouco melhores, mas há 30, 40, 50 anos atrás essa imprensa era vista como espaço de lutas, direitos e tudo mais. Quer dizer, o problema em si não está na imprensa enquanto atividade, parece que tem uma coisa de mercado que está aí sendo colocada.”

Mais vale o jornalista dentro de uma redação produzindo várias matérias durante o dia, do que fora dela, investigando um assunto que será aprofundado em uma reportagem. O jornalismo que se faz hoje é condicionado pelas exigências do mercado.

Seria uma possibilidade então, “ressuscitar” a grande reportagem para que o jornal recupere seu antigo status? “O jornalismo precisa se reinventar, investir em grandes reportagens, ter um cunho mais literário”, sugeriu Giovana.

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