Alunos indígenas na Universidade: sensações de pertencimento

Por Murilo Pessoa

Foto: Murilo Pessoa

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Mais de 500 anos depois da chegada dos portugueses em terras tupiniquins, os indígenas ainda têm que lutar diariamente para garantir direitos básicos. No campo da educação formal, eles estão ocupando espaços que durante muito tempo lhes foram negados.

Na universidade não é diferente. O Paraná é pioneiro na criação das cotas para alunos indígenas. Os primeiros estudantes entraram nas universidades do estado em 2001. Antes disso o ingresso era feito por meio do vestibular regular. Com a criação das vagas exclusivas também veio um processo seletivo diferenciado, pensado a partir da realidade das aldeias. Desde então o vestibular é realizado todo ano, garantindo seis vagas em cada uma das universidades estaduais.

Atualmente, na Universidade Estadual de Londrina, estão matriculados alunos das etnias Guarani, Kaingang e Xokleng. Alunos que se veem, todo dia, envolvidos com questões sobre seu pertencimento e a importância dos estudos acadêmicos.

Na maioria das vezes, a permanência dos alunos indígenas nas universidades, depende fundamentalmente de políticas públicas efetivas. A única política de permanência que está em vigor é uma bolsa auxilio de R$ 900, com acréscimo de 50% para os matriculados que tem filhos. Esse auxilio, no entanto, muitas vezes não é suficiente e é costumeiro atrasar dias.

Elon Jacintho, guarani e estudante de Direito na UEL, cita a questão da moradia como uma das principais dificuldades encontra por alunos indígenas. “Mesmo com a bolsa, é difícil encontrar casa para alugar, é muita burocracia para conseguir pela imobiliária. E chegamos aqui sem conhecer ninguém, fica mais difícil ainda”, lamentou Jacintho, ressaltando que precisa se desdobrar para consegui se manter em Londrina, mesmo com o auxílio. Elon é da terra indígena Laranjinha, localizada no município de Santa Amélia, no Norte Pioneiro.

Jacintho não é o primeiro a ingressar na Universidade. Dos oito Irmãos e irmãs, três também estão na universidade, uma se formou e atua com dentista na aldeia. Trabalhar nas aldeias é o que motiva os estudantes indígenas a superar as dificuldades encontradas ao longo do caminho.

A estudante kaingang de Pedagogia, Seila Kavankag Juvêncio, passou por momentos difíceis na universidade. “Durante o ano passado, depois que acabou a minha licença maternidade eu não consegui colocar minha filha na creche, tive que trazer ela junto comigo para UEL. Minha família mora longe e não tinha quem cuidar, por sorte meu marido pode me acompanhar e cuidar dela aqui”, disse. E não foi somente a dificuldade de trazer sua filha, mas também a falta de estrutura de atendimento na própria universidade. “Ela tinha que ficar no corredor as vezes, só conseguimos uma sala para a gente ficar depois da ajuda de professores que fizeram uma carta pra me apoiar”.

Atualmente os alunos indígenas da UEL se reúnem em uma sala de permanência adaptada e com pouca estrutura. No âmbito estadual, a organização dos universitário indígenas se dá por grupo de conversas online e encontros pontuais, principalmente quando os direitos deles são ameaçados. Algumas das paralisações que envolveram indígenas, universitários ou não, nos últimos anos foram “lideradas” por indígenas que passaram ou ainda passam pelo curso superior.

 

Luta contra o preconceito

Dentre as reclamações dos alunos indígenas, fica destacado o preconceito, que não vem somente de outros alunos, mas de professores e funcionários da universidade. “Já foi mais complicado. Tive alguns problemas em todas as experiências na universidade, mas agora vejo um avanço nessa área”, comenta Seila, que já havia iniciado um curso em outra universidade antes de entrar na UEL.

O desconhecimento é um dos fatores que colaboram para essa visão preconceituosa. Os ingressantes indígenas não concorrem diretamente com os vestibulandos universais e cotistas, as vagas anuais são complementares e independentes.

Em alguns casos, o preconceito “vem de cima”. Há relatos de professores e funcionários que se utilizam de palavras ou até mesmo ações discriminatórias. Alguns relatos apontam esse preconceito, que ocorre dentro de sala e também quando o aluno indígena precisa de algum apoio e procedimento burocrático.  “Peço que as pessoas que tem algum preconceito ou dúvida: tente se aproximar e trocar uma ideia”, finalizou Jacintho.

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