“Faltava comida, tudo era difícil”

Vincenzo Pierotti, 86 anos, relembra os anos que passou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial

MariaVitoriafoto1Seu Vincenzo e Dona Sofia. Fotografia: Maria Vitória Ticiani.

Reportagem: Maria Vitória Ticiani, 4º ano matutino
Edição: Gabriela Campos, 4º ano matutino

Uma tarde ensolarada em uma varanda arejada. Três cadeiras com capas floridas. Mesa e bancos de madeira. Um ambiente aconchegante. A recepção é calorosa, cumprimentos, conversas corriqueiras sobre o tempo. Seu Vincenzo sai de dentro da casa para se juntar à esposa e à filha na varanda. Ele vem devagar, um passo pequeno de cada vez, cauteloso. Ele senta-se e, rapidamente, o assunto se volta para a sua história de vida.

Vincenzo Pierotti, ou Vicente, o nome brasileiro, nasceu na Itália na Província de Lucca, mais especificamente em Piazza al Serchio. Vincenzo tinha 8 anos quando a Segunda Guerra Mundial começou. Em meio às lembranças, uma frase, dita diversas vezes, tornou evidente todo o sentimento que este senhor de 86 anos tem sobre aquela época. “Era muito difícil.” Segundo ele, faltavam muitas coisas, faltava comida, tudo era difícil. “Nós morávamos na roça, todo mundo achava que era um lugar seguro”.

O sítio foi bombardeado. Vincenzo se recorda que em uma noite, duas bombas caíram. Uma delas deixou um buraco enorme, para andar ao redor dele eram necessários mais de 70 passos. A cocheira também foi atingida. Era onde armazenava a maioria dos mantimentos como milho e trigo. Além de estocarem para os animais no inverno, pois não dava para pastorear na neve, estocavam também para consumo próprio. As tropas alemãs costumavam ir até as fazendas em busca de comida para o exército e levavam tudo o que encontravam. Era necessário esconder algumas coisas.

Depois do bombardeio noturno, todos do sítio se reuniram na cocheira, o estrago havia sido pouco, mas precisavam embalar a comida e levar para outro lugar. Foi quando um homem conhecido chegou despertando a curiosidade. Ele disse que uma bomba caiu no mesmo lugar que outra havia caído anteriormente.

Os buracos deixados pelas bombas eram geralmente usados como esconderijo seguro em um bombardeio, pois se acreditava que bombas nunca caíam no mesmo lugar. Todos duvidaram daquele homem. Curiosos, saíram de dentro da cocheira para seguir o sujeito e ver o tal buraco. “Quando saímos pra fora, explodiu a bomba. Eu só me lembro de ter visto a parede da cocheira voar.”

A família fugiu para os castanhais, um médico demorou três dias para chegar ao local e atender a mãe de Vincenzo, que havia quebrado o braço durante o ataque. Ao voltar para o sítio, a vida não foi mais a mesma. Em 1942 foi o ano em que ele e a família passaram mais dificuldades. “Foi o ano da fome, não tinha comida. Era muito difícil. Então a gente matava carneiro, qualquer coisa pra sobreviver.”

Vincenzo conta que conhecia muito bem o Monte Castello, lugar usado como fronteira para as tropas alemãs e americanas. Quando o exército alemão rendeu as tropas italianas, alguns soldados foram capturados e obrigados a lutar para a Alemanha. Vincenzo e o irmão levavam esses soldados pela fronteira e os ajudavam a fugir. Dessa forma, conseguiam sapatos e roupas.

Vincenzo tinha um amigo que morava no Brasil. Ele voltou para a Itália para buscar a mãe. No processo, convenceu Vincenzo a vir para o Brasil e levar a família junto. Esse moço ofereceu ajuda em tudo, quando chegasse ao Brasil, Vincenzo e a família trabalhariam e poderiam pagar depois. Apenas um irmão ficou na Itália, já era casado e a esposa não queria deixar os pais.

Vincenzo trabalhou em muitos lugares. Londrina, Mato Grosso, São Paulo. Logo que veio da Itália trabalhou em uma fábrica de aguardente e conheceu sua esposa, Sofia, filha de um comprador da região. Eles se casaram em 1955 e estão juntos até hoje. O casamento gerou quatro filhos: Lino (61), Ana Maria (59), Roseli (54) e Gilberto (52).

MariaVitoriafoto2Assim que teve os filhos, Vincenzo conta que continuou muito difícil porque o dinheiro era escasso. Foi em uma cidade no interior de São Paulo chamada Buri, que a vida melhorou. Vincenzo foi chamado para trabalhar como administrador de uma fazenda. Agradou aos patrões e conseguiu o cargo em mais duas fazendas de administração da família em Porto Feliz. Ele se considerava um bom motorista, dirigia entre as fazendas de madrugada e, quando era necessário, levava os patrões para outros destinos.

“Eu tava a 120 km/h e o cara gritou ‘mas esse carro não anda’, daí acelerei, né, fui pra 150, 160… Depois de uma lombada na frente eu vi duas carretas vindo uma do lado da outra. Joguei o carro no acostamento, pisei fundo e o carro só deu uma gingada de lá pra cá, mas não aconteceu nada. Daí todo mundo achou que eu era um piloto super especial. E sempre que tinha viagem pra longe me chamavam pra ir junto. Até que aconteceu o acidente.”

Há cerca de 30 anos, Vincenzo se acidentou de carro. “Eu sei que eu tava devagar. O contador todo fim de mês vinha na fazenda. E aquele dia eu tava sem pressa. Tinha terminado o serviço da semana antes do sábado, ele ia embora segunda-feira. Eu tinha que levar ele, ia passar em Porto Feliz e depois ia pra são Paulo. Mas antes disso a gente tinha que ir pra Itapeva. Andei uns 3 km, bati com o Volks de uma professora. Eu desacordei e até hoje não entendo o que aconteceu. Saí do hospital, daí fiquei sabendo onde tinha batido.”

Vincenzo foi jogado para fora do carro e fraturou a coluna. O contador saiu ileso. A professora, do outro carro, ficou um tempo usando cadeiras de rodas. Segundo Vincenzo, parentes da professora eram agentes do trânsito e colocaram a culpa inteira nele, mas houve uma testemunha, um garoto menor de idade, que viu o que aconteceu e testemunhou a favor de Vincenzo. O processo jurídico que decorreu acabou por falta de provas.
Um médico de confiança mandou Vincenzo não operar. Havia tratamentos para a fratura. Porém, sem poder mais trabalhar, a aposentadoria foi a única opção. Outros médicos tentaram convencer Vincenzo a operar, mas ele não aceitou. “Ele falou _você vai ficar paralisado, não vai conseguir nem pegar um revólver pra dar um tiro no próprio ouvido. _Não tem importância, mas não vou operar, eu disse. Eu tinha confiança naquele médico do interior. Aí me deram alta. Eu tinha força na mão, era acostumado a pegar boi, essas coisas. Fui me despedir deles, peguei na mão do médico e dei uma juntada na mão dele. O cara ajoelhou no chão. Falei _ué que médico é você? Eu vou ficar numa cama, não sou capaz nem de pegar um revólver e dar um tiro no ouvido e você não aguenta nem se despedir? ” conta Vincenzo rindo.

Depois disso, voltou para Londrina. “Vim pra cá e fiquei, vagabundo e aposentado”, brinca Vincenzo. “Agora sou cego de um olho também”. Ele não se arrepende de ter vindo para o Brasil. Se pudesse voltar no tempo, afirma que faria tudo novamente.

 

MariaVitoriafoto3Álbum de Família: em pé, da esquerda para a direita: Irene Pierotti (irmã), Sofia Pierotti (esposa), Vicenzo Pierotti, Vitório Pierotti (irmão), Adolfo Pierotti (irmão). Sentados, os pais de Vicenzo – Ernesta Funtana Pierotti e Antônio Pierotti. Ao lado, os irmãos Osvaldo e Séttimo. Reprodução arquivo pessoal.

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