Uma voz para quem não é ouvida

Com uma lata de spray na mão e muitas ideias na cabeça, essas londrinenses provam que pixo é coisa de menina, sim!

LuanaFoto1
Pixos feitos por Diresponsa espelhados pelos muros de Londrina. Fotografia: Arquivo Pessoal.

Reportagem: Luana Harumi, 4º ano matutino
Edição: Gabriela Campos, 4º ano matutino

Colecionadores lotaram a sala do Sotheby’s, tradicional empresa de leilão de arte em Nova York, no último 18 de maio. Arrematada por 110,5 milhões de dólares, uma pintura do nova-iorquino Jean-Michel Basquiat, uma caveira colorida sobre um fundo marcado pelo azul, tornou-se a mais cara feita por um artista americano – recorde antes pertencente a Andy Warhol.

“Untitled”, como foi chamada, foi produzida com técnicas do grafite, arte que Basquiat começou a praticar nos anos 1970 e que o levou à fama na década seguinte. O artista, que começou riscando vagões de trem sob o nome “SAMO”, chegou a vender trabalhos por 50 mil dólares ainda em vida e é visto como o responsável por introduzir esse tipo de arte à elite americana.

No Brasil, o cenário é um pouco diferente. Por aqui, grafite e pixação (com ‘x’ mesmo, uma marca do movimento) são vistos com certo receio, e o pior recai sobre o segundo. Em janeiro deste ano, João Doria (PSDB), prefeito de São Paulo, considerada a capital da pixação, mandou cobrir de cinza todos os muros “rabiscados” da metrópole. A medida não poupou nem as paredes da avenida 23 de Maio, feito em 2015 por 200 artistas e considerado o maior mural de grafite da América Latina.

“Meu, de verdade, essas medidas do Doria só serviram de combustível, vários pixadores que tinham parado voltaram. Só alimentou mais nossa raiva e deu mais vontade ainda de jogar tinta no muro”, conta Diresponsa [para proteção das entrevistadas, o nome foi trocado pela assinatura usada por elas], londrinense que pixa desde 2015. Hoje na capital paulista, as pinturas nos muros são para a jovem uma forma de resistência. “Também penso que representa um momento em nossa história. O pixo entra como uma afronta a um sistema que só prejudica”, diz.

Luanafoto2.jpgFotografia: Arquivo Pessoal/ Diresponsa.

Como em muitas outras áreas, as mulheres ainda são minoria na pixação, especialmente pela falta de segurança. Menos aceita que o grafite, a pixação é geralmente feita de madrugada, quando há pouco movimento, tornando-se ainda mais perigosa para elas. Imagine, que pixa desde o ensino médio, conta que “se você é uma mina e vai sair à noite pra pixar corre o risco de ser sequestrada, estuprada, e um cara já não tem essa preocupação. Eu sempre falo para os meus amigos, queria tanto ser homem pra poder sair no centro à noite sem me preocupar com nada. Queria fazer isso sozinha, pegar o meu skate, sair por aí, mas não dá”.

Luanafoto3A marca registrada de Imagine em diversos pontos da cidade. Fotografia: Arquivo Pessoal/Imagine.

Dentro do próprio movimento, porém, o respeito é a ordem da casa, pelo menos em Londrina. Imagine conta que sempre teve contato com pixadores homens. “É um espaço muito igualitário nessa questão, essa liberdade é muito boa. Você pode ocupar o espaço que quiser e vai ser respeitado, a maior diferença não é do que os caras fazem com as minas [como assédio ou preconceito], mas sim da dificuldade delas em ocupar os espaços”, diz.

Luanafoto4Fotografia: Arquivo Pessoal/Imagine.

Cannabis, que pixa desde 2012, confirma a fala de Imagine. “Não tem ninguém melhor que ninguém, todo mundo começa do zero.” Para ela, a pixação é uma forma de conquistar amigos fazendo o que gosta. “Não faço por ninguém, faço porque gosto. É uma forma de mostrar que estamos totalmente contra o sistema, estamos ali correndo todo tipo de risco.”

Luanafoto5Pixo feito por Cannabis. Fotografia: Arquivo Pessoal/Cannabis.

Já Diresponsa afirma que as coisas são um pouco diferentes lá em São Paulo: “Em Londrina, todo mundo se conhecia, como uma união. Aqui [em São Paulo], da parte dos caras, sempre tem um ou outro que pensa que só porque é mulher ela quer algo a mais.” Ela conta que já ouviu relatos de estupros entre os pixadores. “Fiquei com bastante medo, não dá pra confiar em ninguém.”

É quase impossível andar por Londrina sem se deparar com pelo menos uma pixação. Com seus traços retos e monocromáticos, costuma ser pior vista que o grafite, composto de formas e cores vibrantes, embora a essência de ambos seja a mesma: passar uma mensagem.

“Infelizmente [o grafite é melhor visto], mas não deveria, porque o grafite começou como o pixo. Não era autorizado nem com patrocínio como é hoje, era invadir as linhas de trem e pintar… Hoje é tudo muito comercial, o grafite é para agradar a sociedade. Se um dia a pixação ficar bem vista, ou melhor aceita pela sociedade, eles vão transformar o movimento em algo diferente, sem a essência, só para agradar aos olhos de quem vê”, afirma Diresponsa.

Imagine acrescenta é muito difícil entender o que não se conhece. “Quando a gente olha por fora, o pixo é algo muito abstrato, fica com receio, mas conforme você vai vendo a realidade de quem vive aquilo mesmo, acaba entendendo o discurso por trás. É porque eu vou falar e ninguém vai me ouvir, então eu vou colocar onde as pessoas vão ver mesmo, na fachada de um prédio, por exemplo. Se tiver que ser errado, que assim seja, não é para ser certo, se for certo perdeu o sentido.”

Pequeno glossário da arte urbana

Conheça algumas das expressões utilizadas entre grafiteiros e pixadores no Brasil

Atravessar/Atropelar – também chamado de ‘cross’; é o ato de pixar ou grafitar por cima de outra assinatura, podendo causar brigas entre pixadores.

Bomb – é a assinatura (tag) mais trabalhada, com contorno, muitas cores e letras mais gordinhas.

Crew – é um grupo ou coletivo de grafiteiros. Cada crew tem um nome e assinatura próprios, que devem ser usados pelos integrantes mesmo quando saem para pintar sozinhos. Alianças de grupos de pixadores recebem o nome de grife e também têm assinatura (ou marca) própria.

Escalada – também conhecida como ‘janela’. De alto risco; é o ato de escalar prédios pelas janelas das fachadas, buscando chegar o mais alto possível para pixar. O resultado da escalada é o ‘roof-top’, pixação em lugares elevados.

Freestyle – como o próprio nome diz, é livre, podendo misturar diversos elementos do grafite e do pixo.

Grafite – nasceu entre as décadas de 1960 e 1970 em Nova York, dentro do movimento hip hop. Caracteriza-se por desenhos e inscrições feitas em superfícies (geralmente muros) que não eram originalmente destinadas a essas pinturas, utilizando muitas cores e formas. Quando elementos do grafite se unem aos do pixo, é chamado de grapixo.

Mural – longa sequência de grafites elaborados, muitas vezes por vários artistas. Um exemplo em Londrina são os muros em torno do cemitério São Pedro, na região central da cidade.

Lambe-lambe – artes feitas em papel e coladas nos muros com cola branca, goma ou cola de farinha, com uso de utensílios como rolos de tinta, pinceis ou até mesmo esponjas de limpeza.

Old-school – a velha guarda do grafite.

Pixação – característica do Brasil, e grafada com ‘x’ dentro do movimento, são geralmente assinaturas retas e monocromáticas feitas sem autorização. Podem acompanhar data e sigla representando de que região da cidade o pixador vem. O ato de pixar também pode ser chamado de ‘mandar’.

Sticker – adesivos autorais colados em placas de trânsito, lixeiras e outros suportes.

Tag – a assinatura do pixador ou grafiteiro.

Xarpi – é a pixação carioca. O nome vem da inversão de sílabas da palavra “pixar”, marca de linguagem da região.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s