Episiotomia ainda é comum no Brasil

Técnica consiste em um corte no períneo, durante o parto, que acaba em mutilação genital; prática existe há mais de dois séculos

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De acordo com a OMS, a episiotomia não deve ser feita em mais que 10% dos partos, número que no Brasil chega a 53%.

Reportagem: Alanis Brito, 4º ano matutino
Edição: Gabriela Campos, 4º ano matutino

A episiotomia é um corte cirúrgico feito no períneo, região localizada entre a vagina e o ânus. Sua atividade foi introduzida historicamente no século XVIII pelo obstetra inglês Sir Fielding Ould, com o objetivo de facilitar a passagem do bebê durante o nascimento.

Foi somente no século XX que passou a ser utilizada em maior escala, em muitos países, inclusive o Brasil. Foi nessa época também que a percepção do nascimento como um processo normal que requer o mínimo de intervenção foi substituído pelo conceito do parto como um processo patológico, que solicita a intervenção médica para prevenir lesões maternas e fetais.

Para combater os “altos índices” de intervenções consideradas desnecessárias, como cesarianas e episiotomias, o governo federal lançou neste ano uma série de diretrizes para humanizar o parto normal. Apesar de já ter o parto humanizado estabelecido como regra nas redes públicas, divulgado no Diário Oficial há dois anos atrás, brasileiras vivem um “sorteio” de tomadas de decisões do plantonista no momento do parto sobre o próprio corpo.

Essas informações estão escritas no artigo científico “O papel da episiotomia na Obstetrícia Moderna”, publicado na revista FEMINA, em 2008, por Melania Amorim em parceria com a médica-obstetra e parteira Leila Katz. Melania Amorim é uma das principais pesquisadoras brasileiras e referência em parto humanizado. Ela também mantem o blog “Estuda, Melania, Estuda“, conhecido por grupos de mães e interessados no tema parto

Segundo a publicação, a episiotomia de rotina era anteriormente considerada pelos obstetras uma estratégia para proteger o períneo, o assoalho pélvico e o feto das lesões do parto. Entretanto ao longo dos anos, a técnica mostrou-se uma postura desnecessária e prejudicial.

Entre as consequências, a técnica aumenta a chance de dor, principalmente, no primeiro ano pós-parto e dispareunia; podendo cursar complicações como edema, deiscência e hematoma. A mulher também pode sentir dor durante a relação sexual e, há médicos que, na hora de suturar o corte, apertam demais a camada muscular para dar o chamado “ponto do marido”, deixando a extremidade inferior da vagina apertado demais, a ponto de a mulher ter dificuldades e sentir dor durante a penetração.

Embora não existam recomendações formais e estudos científicos que comprovem sua eficiência, a episiotomia é geralmente indicada para mulheres com rigidez no períneo, parto pélvico (quando o bebê está sentado), sofrimento fetal e macrossomia (excesso de peso do bebê) ou ainda, no caso de prematuros.

De fato, a técnica diminui a probabilidade de lacerações perineais graves, mas, segundo Melania Amorim, falha em alcançar a maioria dos objetivos usados em sua justificativa. Isso sem falar nos casos de mulheres que têm a vida sexual afetada, como o caso da apresentadora Bela Gil. Em seu canal do Youtube, ela revelou que teve problemas na sua relação por um ano devido ao corte.

A prática também acarreta mais custos hospitalares. No Brasil, se evitassem as episiotomias desnecessárias, a estimativa de economia seria em torno de 15 a 30 milhões de dólares por ano. Por falta de informação, esse tipo de violência durante o parto é pouco denunciada.

Atualmente, a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) não é de proibi-la, mas de restringir o uso. Além do corte, para facilitar a condução do trabalho do parto, é usada também a ocitocina artificial que apressa a expulsão do bebê, instrumentos que facilitam médicos e obstetras na hora da conduta.

Existem várias maneiras para redução da episiotomia de rotina. Como é um procedimento cirúrgico, só deveria ser realizada com o consentimento pós-informação da paciente ou seu planejamento deve constar anteriormente no plano de parto.

Mat-alanis2A prática já é realizada há mais de dois séculos. Imagem: Reprodução/Clínica Nascer)

Prática da episiotomia pode ser reduzida

De acordo com a OMS, a episiotomia não deve ser feita em mais que 10% dos partos, número que no Brasil chega a 53%. Já a American College of Obstetricians and Gynecology (ACOG), instituição norte-americana, estabeleceu em seu boletim acadêmico que o uso deve ser restrito e que médicos e obstetras devem usar seu raciocínio clínico para decidir se de fato o ato é necessário.

Muitos profissionais ainda continuam realizando o procedimento de rotina pelos anos de prática, além do ensino em universidades de medicina, presos a conceitos que a utilizam para prevenir lacerações perineais graves. Seu uso pode provocar uma lesão de segundo grau e por atingir músculos mais profundos leva a uma recuperação mais demorada.

Melania Amorim afirma, também em seu estudo, que a divulgação de resultados dos ensaios clínicos controlados tem acarretado um declínio em sua taxa, apesar de continuar sendo realizado rotineiramente por diversos profissionais em várias partes do mundo. A episiotomia pode ser reduzida por meio de programas de educação médica e compartilhamento de informações às mulheres antes do parto.

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Símbolo do períneo íntegro na luta contra a abolição
das episiotomias de rotina. Fonte: Blog Estuda Melania.

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