Ela é a força de quem a leu

Aos 47, ela é renomada e reconhecida, mas está quase em fase terminal

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Texto: Jéssica Doarte, 4° ano noturno
Edição: Brenda de Oliveira, 4° ano noturno

Ela nasceu nos anos 1970. Aquela década depois dos Beatles. O mundo polarizado. O Brasil emudecido. Eram tempos de AI-5. Muito sombrios, por sinal. E ela já nasceu unindo. Eram cinco, formou-se uma. Única e plena. De medicina à filosofia, ela podia ensinar. Quanto conhecimento! Tão distinta que é. Até hoje. Hoje ainda mais. Mas não foi desde sempre, assim, acessível. Só chegar e ir entrando. Não. Isso demorou. Foi só lá pelos idos de 1980, embora ainda um tanto pedante. Hoje, como é acolhedora, generosa. Abriga o filho da empregada, a descendente de quilombola e o rapaz latino-americano, que veio da Colômbia, só para estudar, tudo sob o mesmo teto.

Criou-se em uma cidade tão juvenil. Cidade que, ainda que o tempo passe, insiste em continuar juvenil. Mas juvenil enquanto sinônimo de imatura mesmo. Tão imatura, que parece não ser capaz de suportar a grandiosidade de sua notável habitante. Parece não se dar conta. Mas ainda há tempo. Sua nativa é uma quase cinquentona enxuta. A cada verão se enche de um novo ar, que reaviva toda a sua aura e que se refaz em ciclos revigorantes.

Mas, ultimamente, anda meio esmorecida, a pobrezinha. De uns tempos para cá, vem perdendo – aos pouquinhos – o virtuosismo tão característico. Às vezes, aparenta ter fome. Sede. Frio. Até sono. Essas coisas fundamentais para a sobrevivência. Cada dia mais magra. Menos expressiva. Porém, é sutil. Talvez a maioria nem consiga ler os sinais. Mas quem a vê todos os dias e conhece todos os seus feitos, toda a sua glória, sabe que há alguma coisa errada. O triste é que nem todo mundo consegue ler nas entrelinhas. A vontade que se tem é de cuidar dela até que passe. Alimentá-la. Dar-lhe de beber. Embrulhá-la no mais quentinho dos cobertores e cantarolar canções de ninar até que ela pegue no sono.

Ainda insalubre, ela tem resistido. É de uma tenacidade que só. Gosta de ser a melhor no que faz. Tem conseguido. No Paraná, ninguém alcança a danada. No Brasil, está entre as quinze. Centésima quinquagésima oitava no mundo. O trava-língua da numeração ordinal é para combinar com a importância do feito. É motivo de um orgulho que não cabe no peito.

Há também os que ignoram seu estado franzino, mas aparentam fazê-lo de propósito, a fim de vê-la vulnerável. Quiçá, de vê-la partir de uma vez. Ela não lhes acrescenta. E, afrontosa que é, por vezes se rebela contra eles. Questiona sua indelicadeza e grita a plenos pulmões que não quer ser tratada com essa indiferença toda e que quer ser livre. Então, para eles, tanto faz. A deixam à míngua e lhe tiram até o pouco que tem, se for preciso. Que ela morra de fome, sede, frio e sono. Mal sabem eles… quantos amigos ela fez! Não cabem nos dedos das mãos, nem nos dos pés juntos. Uns 25 mil, pode pôr aí.

Alguns são daqueles que mantêm contato, mas de longe. Do tipo que telefona com uma certa frequência, só para saber como vão as coisas. Outros, tão próximos e preocupados. E eles estão espalhados, os amigos. Quantitativamente falando – já que ela entende de números também – em nove lugares e 68 famílias, por assim dizer. Todos sabem, de alguma maneira, que ela não anda lá muito bem. Essas situações difíceis sempre aproximam os amigos. Nos últimos anos, ela tem esperado avidamente por essa aproximação. Por algo capaz de atar as diferenças de cada um, porque, afinal, quem consegue ter 25 mil amigos e ainda os reunir de vez em quando?

Na semana que passou, ela tem pensado em algo como uma grande confraternização de final de ano, com direito a amigo secreto e churrasco. Só para comemorar a existência. Mas antes, que se reúnam para lutar pela sua sobrevivência. É urgente. Ela sabe que se não for agora, talvez não tenha mais tempo. Ela precisa de todo esse pessoal e precisa agora. Ela quem? A imprescindível pergunta. Ela – que, como já se sabe, tem quase cinquenta, esse mundaréu de amigos e ostenta heroísmos que nem couberam aqui – tem um apelido de três letras: UEL. Soa doce e suave quando se pronuncia e, ao contrário, fica “leu”, do verbo ler, tão sugestivo. E a ti, querida, toda força que houver nesse mundo. Resista!

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