“Run, Forrest, Run”

Unindo o hobby à solidariedade, o maratonista de 63 anos, Wilson Duarte, ajudou diversas instituições de Londrina vendendo seus quilômetros corridos

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Wilson Maratonista, 40 competições,  450 quilômetros vendidos e 20 instituições ajudadas. Fotografia: Arquivo pessoal.

Reportagem: Thais Ludescher, 4º ano noturno
Edição: Brenda de Oliveira, 4° ano noturno

Wilson Duarte, seu Wilson, também conhecido como Wilson Maratonista, é um senhor de 63 anos que deixa qualquer pessoa de 20 com inveja, já que a corridinha de final do dia supera 10 quilômetros. Entre fotos e certificados, ele conta, orgulhoso de si mesmo, das várias maratonas e ultramaratonas que correu. Ele começou há 20 anos. Lá em 1997. Entre a primeira corrida e a primeira maratona, foram seis meses de preparação. “Quando eu corri os meus primeiros 3 km, eu quase morri. Foram 3 voltas no Zerão”, lembra. Hoje, mostra o certificado das 45 voltas percorridas em torno da área de lazer, na região central de Londrina.

Os filhos de seu Wilson, Amanda e Diego, cresceram vendo o pai correr, transformaram o hábito dele em exemplo. Amanda, triatleta, trabalha no Corpo de Bombeiros e já correu maratonas com o pai. Diego, preparador físico, também. “Nós competíamos entre nós mesmos. Um queria correr mais quilômetros que o outro. Eu, sempre cutucando, falando que já tinha corrido mais do que eles. Até que um dia, meu filho me superou na distância e eu joguei a carta da idade, dizendo que ele tem que ver que eu tenho o dobro da idade dele”, conta Wilson.

Por insistência do filho, o maratonista já cogitou participar de alguma edição do Ironman – modalidade de triatlo de longas distâncias compreendendo 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida. Ele conta que não gosta de água, mas que pensando no Ironman e em outras provas de triatlo faz natação duas vezes por semana. “Isso não quer dizer que eu gosto. Acho que no final, não vou fazer essa prova, não. Odeio água.”

Depois de alguns anos competindo, em 2010, ele decidiu transformar o hobby em uma forma de ajudar as pessoas. No começo ninguém levou a sério. Chegou a ir a algumas instituições explicando a ideia e perguntando o que eles precisavam, afinal, ele queria ajudar, mas todos pensaram ser mentira.

Cinco anos depois, ele fez a sua primeira campanha de “venda de quilômetros” para ajudar o Centro de Apoio ao Paciente com Câncer (CAPC). Foram 84 km vendidos, totalizando R$ 7.140,00 doados. Depois, vieram contribuições de pacotes de papel sulfite e cimento para o Instituto do Câncer. Várias iniciativas de doação de sangue, de pessoas do Brasil inteiro, para hemocentros. Cestas básicas, itens de higiene e muitos outros.

“Eu visito as instituições e pergunto o que elas precisam e dou um jeito de conseguir. Uma vez fui na biblioteca solidária do Bela Vista e perguntei o que eles precisavam, a coordenadora disse que era tonner para a impressora, mas daquele recarregável. Eu não achei. Então comprei caixas de lápis de escrever, canetas, cadernos, tesouras, colas, comprei livros infantis. Quando eu cheguei lá, expliquei que não tinha encontrado o tonner. Pedi para que ela fosse até o carro comigo. Quando ela viu as coisas que havia levado, ficou radiante. Isso não tem preço”, relembra. “Você já viu caixão com gaveta? Então, quando eu morrer, eu não vou levar nada. Para quê guardar para mim se eu posso ajudar o próximo? Por isso, quando eu volto das competições, eu doo camiseta, brinde, sorteio medalha. Tem tanta gente que precisa de ajuda e tanta gente mesquinha, que pode ajudar e não faz. Enquanto eu puder, eu vou ajudar.”

As contribuições não são apenas materiais, até o doar-se vale como moeda de troca na compra dos quilômetros. “Eu propus às pessoas passarem uma hora com uma pessoa idosa. Parente ou não. Um vizinho. No asilo. Só para conversar. Porque se doar dá mais trabalho do que contribuir financeiramente.”

Nesses anos todos já foram mais de 40 competições, mais de 450 quilômetros vendidos e o número de instituições ajudadas passa de 20. Uma atitude simples, mas que gerou tanto resultado, que seu Wilson foi parar no Jornal Nacional. “Quando eu doei o dinheiro para o CAPC, a RPC me procurou para fazer uma matéria e eu aceitei. Foi uma versão para o Paraná TV, outra para o Bom dia Paraná. Mais tarde, o Kirsche [repórter da RPC] me ligou e disse que precisava gravar uma versão para o Jornal Nacional. Eu não acreditei, pensei que fosse uma piada, mas eu fui. Quando eu voltei para casa, minha esposa contou que tinha visto a chamada do jornal e que eu aparecia. Eu fiquei muito feliz. Fiquei pasmo como um gesto tão simples chamou tanta atenção.”

A corrida levou seu Wilson longe. Em abril deste ano, ele participou da maratona de Paris, uma das experiências que marcou sua vida. “Foi uma aventura. Nasci na metrópole Marialva e morei em Londrina minha vida toda. Então, Paris, para mim foi inesquecível. Ano que vem quero tentar correr em Berlim.”

O maratonista, aposentado, não para. Já trabalhou com tudo. Foi vendedor. Trabalhou com carrinho de lanche na praia. Hoje, mexe com restauração de assoalhos. “Eu penso em correr até os 75. Esse é meu objetivo. Às vezes o sofá me chama, mas eu não escuto. Eu me mantenho ocupado. Essa é a minha maneira de me manter jovem”.

Uma das formas de ocupação de seu Wilson é reformando o carro que ganhou do pai em 1970, quando completou 18 anos. Uma herança que passou de pai para filho e, atualmente, encontra-se em processo de restauração. Tudo feito por ele. “Eu sempre amei dirigir. Viajava muito com a minha esposa.” Seu Wilson foi casado durante 36 anos. Perdeu a esposa e parceira de vida ano passado. “A gente se conheceu no cursinho. Nós dois tentamos por anos passar no vestibular, nos formamos em cursinho. Não deu certo, então decidimos nos casar”, brinca.

Com os olhos marejados e a voz embargada, ele relembra da companhia da amada Vera Lucia. “Ela falava para mim, quando a gente viajava que se sentia segura comigo. Nós aproveitávamos o caminho, não só o destino final.”

Quando questionado sobre o que ganha correndo, seu Wilson reflete. “Eu devo minha vida à corrida. Tive três AVCs (Acidente Vascular Cerebral). O médico disse que eu só sobrevivi por causa do meu condicionamento físico. Então, ao mesmo tempo que eu doo, eu ganho.” Esse senhor cheio de habilidades, inclusive, está escrevendo um livro, de onde, pincei um trechinho.

“Correndo eu construo, viajo, vendo, compro, componho, sorrio, choro, me emociono, repenso minha caminhada pela vida. Sou um menino. Sou o tio que os sobrinhos gostam de ver fazendo travessuras. Para mim, a corrida faz parte do meu dia a dia e ponto final.”

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