Dona de sua história

Item presente em várias listas de recomendação de livros feministas, “A cor púrpura” apresenta uma história cativante e uma leitura prazerosa

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A cor é púrpura. Fotografia: Heloisa Moutinho.

Reportagem: Heloisa Moutinho, 4º ano matutino
Edição: Alanis Brito, 4º ano matutino

“A cor púrpura” escrito em 1982 por Alice Walker rendeu dois prêmios, o Pulitzer e o American Book Award. O livro deu origem ao filme homônimo dirigido por Steven Spielberg, de 1986.

A história se passa entre 1900 e 1940, no Sul dos Estados Unidos. Explorando a temática da desigualdade entre homens e mulheres e negros e brancos, o livro traz a sororidade como origem de uma força que todas as mulheres têm. Percebemos em alguns diálogos e discussões sobre a religião cristã, as origens do povo negro e a cultura da tribo africana do povo Olinka.

O foco da história, no entanto, está em Celie, a protagonista, que conta sua história por meio de cartas que escreve para Deus e, posteriormente, para sua irmã Nettie. Um dos traços mais interessantes do livro é a oralidade presente nessas cartas. Ela diz muito sobre Celie, uma escrita simples, com erros gramaticais, sem travessão e aspas para indicar a fala de outros personagens, mas sempre muito clara.

Negra, quase analfabeta, Celie deixou a escola depois de acontecimentos que a impediram de seguir os estudos. Foi estuprada pelo padrasto e “dada” para se casar com Albert ou como ela o chama em boa parte da história de “Sinhô ____”, talvez uma forma de mostrar que ela não sabia o sobrenome do marido. Em seu casamento só recebeu maus tratos. Albert a agredia muito e só a via como empregada e babá dos filhos do seu primeiro casamento.

As cartas escritas para Deus se misturam com as cartas escritas para Nettie e também com as recebidas de Nettie. Sem datas, nunca sabemos se uma responde a outra efetivamente, nem conseguimos definir se Nettie recebeu as cartas da irmã. Ainda assim, a história não fica confusa, já que cada uma conta seu dia-a-dia focando nos sentimentos e nas pessoas com quem convivem, retirando a importância cronológica dos acontecimentos.

Celie nunca havia questionado o marido, apanhou, limpou, cuidou das crianças, sempre em silêncio, falando apenas com Deus. Até que um dia ela mudou e, consequentemente, sua vida também. É indiscutível a humanidade da protagonista, que sofre, perdoa e ama.

Mesmo que o livro seja repleto de dramas, há algumas histórias cômicas e quando as coisas passam a ser diferentes na vida de Celie, a felicidade é transmitida para o leitor.

Com mais de 300 páginas “A cor púrpura” é uma leitura muito fluida e prazerosa. As descrições e os personagens são poucos, mas muito ricos. É fácil imaginar cada cômodo, cada rosto, cada corpo.

A cor púrpura
Autora: Alice Walker
Número de páginas: 335
Ano: 2016
Editora: José Olympio

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Fonte: HuffingtonPost

“A cor púrpura. ”

“É melhor você nunca contar pra ninguém, só pra Deus. Isso mataria sua mamãe.
Querido Deus,
Eu tenho catorze ano. Eu sou. Eu sempre fui uma boa minina. Quem sabe o senhor pode dar um sinal preu saber o que tá contecendo comigo.” – primeira fala da obra.
“Nossa mulheres são respeitadas aqui, o pai falou. Nós nunca deixaríamos elas errarem pelo mundo como as mulheres americanas. Sempre há alguém para cuidar das mulheres Olinka. Um pai. Um tio. Um irmão ou um sobrinho. Não fique ofendida, Irmã Nittie, mas nosso povo tem pena das mulheres como você que foram tiradas de não sabemos onde e jogadas num mundo desconhecido onde você deve lutar sozinha, por você mesma.”
“O homem corrompe tudo, Shug fala. Ele tá na sua cumida, na sua cabeça, e o tempo todo no rádio. Ele tenta fazer você pensar que ele tá em todo lugar. E quando você pensa que ele tá em todo lugar, você começa a pensar que ele é Deus. Mas ele num é.”

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