Atraso de vida

Minha estranha relação com a pontualidade, mas confesso que – mesmo atrasando – não gosto de esperar pelos outros

Texto: Luana Harumi, 4º ano matutino
Edição: Alanis Brito, 4º ano matutino

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Desenho: Luana Harumi.

Precisava pegar ônibus para ir ao estágio. Olhei o relógio: 13h35, o ônibus passa 13h40. “P*ta m*rda”, pensei, e corri aquela subida desgracenta de três quadras só para ver o dito cujo passar a menos de 15 metros de mim. Vi que ele parou no semáforo, tentei alcançá-lo, já ofegante por causa daquela subida e de nada serviu (na verdade, serviu só para minha mochila abrir e derrubar minha maçã, que uma menina da rua gentilmente me devolveu).

Tive de chamar um Uber para não me atrasar e o trajeto que era para ter sido de graça acabou custando o dobro do que custariam os R$ 3,80 da passagem. Xinguei a subida, xinguei o prefeito, xinguei a TCGL* – afinal, aquele ônibus não podia passar dois minutinhos mais tarde? E a verdade é que não, não podia. A culpa era inteiramente minha: eu é que deveria ter saído de casa dois minutos mais cedo. Me xinguei.

Ser pontual sempre foi um problema para mim. Quando eu era menor, minha mãe me apelidava de “Luana-Já-Vou-Indo”, em referência a uma lesma de uma fábula infantil que nunca conseguia chegar na hora. Para o vestibular, saí de casa uma hora antes, com medo de chegar atrasada e acabar em algum portal de notícias de qualidade duvidosa. Hoje, chego à universidade uma hora depois de a aula ter começado (professor, eu juro que não é por mal!).

Felizmente (ou não), não estou sozinha – o Brasil é um dos líderes em atrasos no mundo, atrás apenas do México e da Indonésia, segundo pesquisa do psicólogo americano Robert Levine, publicada no livro A Geografia do Tempo, de 1997. Vinte anos depois, posso contar nos dedos quantos do meu círculo de amigos e da família são pontuais. Meu pai ganha de todos, o que obviamente já rendeu algumas várias discussões em casa por conta de meus frequentes atrasos. Spoiler: adiantou nada.

Não tenho ideia de qual foi a última vez que consegui assistir aos trailers que passam antes do filme no cinema e muito menos há quanto tempo não vejo a homilia do padre na missa de domingo. Já cheguei em casamento depois da noiva e, por pouco, não perdi minha própria formatura do ensino médio. Admito, mesmo que eu não seja pontual, não gosto muito quando os outros atrasam.

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Desenho: Luana Harumi.

O karma dos atrasos sempre se volta para mim. Já tive de esperar quase dois (isso mesmo, DOIS) dias para voltar para casa por causa de um voo atrasado. A companhia aérea pagou um hotel e quase me atrasei para voltar ao aeroporto. No trânsito, o Universo conspira para que eu me atrase ainda mais: uma feira, um recapeamento de asfalto, um semáforo quebrado, uma blitz. Estatísticas comprovam que a chance de aparecer um carro a 25 km/h na minha frente é diretamente proporcional ao meu atraso.

Certa vez, de férias na praia, fui a um show da Babado Novo (pesquisei e eles ainda existem) e tive de esperar duas angustiantes horas debaixo de chuva por conta de um atraso da banda. Até hoje tenho birra da então vocalista Cláudia Leitte (isso foi há mais de dez anos). Quando ela finalmente subiu ao palco, virei para o meu pai: “Quero ir embora.” Ela provavelmente tinha uma desculpa plausível – talvez eles tenham perdido o ônibus.

*TCGL – Sigla para Transportes Coletivos Grande Londrina que, como o próprio nome diz, é responsável pelas linhas de transportes coletivos dentro da região conhecida como ‘Grande Londrina’.

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