Ele é brasileiro de Corumbá

Luiz taques, jornalista e escritor, conta os desafios de publicar seus livros de forma independente

Reportagem: Maisa Carvalho, 4º ano matutino
Edição: Alanis Brito, 4º ano matutino

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Capa do livro “Pedro” de Luiz Taques. Divulgação/ Editora KAN.

Simples e descontraído, Luiz Taques, com um papo leve e informal, começa a contar sua história com os livros e com o texto. O autor, que hoje vive em Londrina e já lançou três livros pela editora independente da cidade – a KAN, relembra de seus primeiros trabalhos, falando sempre sobre os desafios de publicar um livro como escritor periférico e independente.

Taques, hoje aos 59 anos, nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, e mantém uma relação muito profunda com suas origens, que transparece em sua produção literária. O primeiro livro do autor foi uma coprodução com outros jornalistas em 1985, sobre o movimento “Diretas Já” no interior do país. “Já comecei independente. Nunca dependi de editora nenhuma para publicar nada. E ia atrás de financiamento com amigos e colegas, gente interessada na minha escrita.”

Foi somente em 1997, 12 anos depois, que ele voltou a publicar. Sem nenhum tom de arrependimento ou algo parecido, ele afirma que deu um tempo da escrita. “Parei, rasguei um monte de coisa, joguei fora. Depois decidi voltar a escrever mais sério.” Só então, lançou seu primeiro livro fictício, um livro infantil, intitulado “A história de Zé Vida de Barraca”, publicação esgotada e praticamente impossível de achar. Ele conta que este livro foi financiado por amigos também, mas conseguiu fazer uma bela tiragem.

Mesmo tendo produzido várias reportagens como repórter especial da Folha de São Paulo,Taques admite que sua paixão é a literatura. Junto com o também jornalista e escritor, José Maschio (professor do curso de Jornalismo da UEL), lançou o livro “Crônica de uma grande farsa”, também pela KAN.

Os livros “Bebinho, mamadinho e o velório de Bafo de alho”, “O casamento vai acabar com o poeta”, “Madá”, “Pedro” e “Um rio, uma guerra”, são parte da identidade de Luiz Taques como homem e como escritor. Em toda a sua obra, ele se liga a sua terra natal, Corumbá. Com elementos que remetem à cultura, costumes e até a gastronomia de sua cidade, ele segue com fluidez suas narrativas mato-grossenses.

Segundo ele, todas as suas obras sempre vão ter relação com Corumbá e o Rio Paraguai, do qual ele se lembra muito bem, com nostalgia e um sorriso sincero. “Em Corumbá tem pobreza, o povo é simples, mas não tem miséria, sabe?”

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“Bebinho, mamadinho e o velório de Bafo de alho”, um dos livros publicado pelo escritor. Divulgação/ Editora Letrad’água.

Ao se lembrar da mãe e dos tempos de infância, afirma que sempre vai pertencer a Corumbá e nunca vai se esquecer do clima e do povo de sua terra. Seu último romance, “Um rio, uma guerra”, lançado em 2016, também pela KAN gira em torno do rio Paraguai. O romance foi dedicado aos guarani-kaiowá, vítimas do eterno conflito da região, na fronteira com a Bolívia.

Outro livro muito importante para Taques como escritor é “Vaso de colher chuvas”, compilação de conto-reportagens escritos sobre o grande poeta pós-modernista brasileiro, Manoel de Barros, de quem Taques foi amigo pessoal por mais de 30 anos. “Eu observava ele e escrevia. No fim juntei tudo e mostrei para ele.__O que você acha? Ele gostou muito, tanto que ele foi quem financiou o livro.”

Além do lendário Manoel de Barros, falecido em 2014, o escritor também é amigo pessoal de um dos maiores nomes da literatura contemporânea no Brasil, o também jornalista e escritor Marçal Aquino, cujas obras mais famosas são “Famílias terrivelmente felizes” e “Eu receberias as piores notícias dos seus lindos lábios”. “O Aquino escreve bem, né? Faz tempo que ele não lança nada novo, mas eu gosto muito de tudo que ele escreveu.”

Além de relembrar seus amigos, ele conta um pouco sobre os escritores responsáveis por sua sede literária e que influenciaram diretamente em sua escrita. “Eu sempre tive livros espalhados pela casa, em todo lugar que morei, mas escritores especiais: o João Antônio sempre foi muito influente para mim. O Graciliano Ramos, eu gosto muito, Guimarães Rosa. Lima Barreto, acredito que todo jornalista deve ler Lima Barreto. É obrigatório. Machado de Assis eu também gosto muito. Tem bastante gente, mas esses são os principais.”

Ele também conta que um dos livros que mais o fez pensar no poder da escrita, foi o livro “Planalto em chamas”, de Juan Rulfo. “Na minha casa sempre teve livro em todo canto, meus filhos sempre leram e eu também. Quando pensava em escrever alguma coisa, primeiro eu anotava. Fazia muita coisa à mão.”

A família não é o tema principal da conversa de Taques. Ele fala pouco de si mesmo, prefere focar nos trabalhos, na escrita e na literatura. Com timidez, comenta sobre a esposa, Regina, também formada em Jornalismo e que hoje atua na área de advocacia. Ela fez Direito. Os filhos são 4, mas a vida pessoal e a relação com a família ficam de lado durante suas falas. Aos estranhos o assunto é a literatura, Luiz Taques escritor.

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Taques confessa que escreve apenas por sentir muito prazer. Fotografia: Divulgação/Regina Utsumi.

Sem pretensão ou esnobismo, o autor confessa que nunca foi de se considerar intelectual ou especial por escrever, apenas o faz por sentir muito prazer. “Nunca foi muito de ir a leituras ou rodas literárias, muito menos eventos públicos. Eu gosto mais de sair com meus amigos jornalistas, mas nunca fui de ficar saindo com escritores.”

A vida o fez jornalista e escritor nato, mas para ele, isso não surge do nada. “Para escrever não existe inspiração. Você tem que sentar e começar, senão nada sai. Eu sempre escrevi porque eu gosto. Pensava em alguma coisa, tinha que escrever. Às vezes, escrevia em um guardanapo, qualquer pedaço de papel, só para não esquecer.”

Além de seus livros, que hoje são publicados com um adiantamento que o próprio autor faz com a ajuda do financiamento coletivo de amigos e pessoas interessadas por sua obra Brasil afora, Taques vive em Londrina com a esposa Regina uma vida simples. Ele já ganhou o Prêmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 199, com sua reportagem sobre a escravidão em carvoarias e continua escrevendo, sempre com sua calma, em seu ritmo, sempre sob¬¬¬re Corumbá. ¬

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