Princesas cumprem novos papéis

Dos irmãos Grimm à Moana, a transformação da personagem feminina nos contos de fada, principalmente, adaptados para o cinema

Reportagem: Maria Vitória Ticiani, 4º ano matutino
Edição: Alanis Brito, 4º ano matutino

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Princesa Moana do filme Moana: Um Mar de Aventuras, lançado em 2016
Créditos: Divulgação/ BussinessInsider

Até os anos 1990, ao falar de contos de fadas, a maioria das pessoas pensava exclusivamente em príncipes e princesas da Disney que povoavam, especialmente, a imaginação das crianças. Entretanto, as fábulas tão conhecidas no universo infantil têm uma trajetória muito mais ampla e antiga do que se conhece pelo senso comum, antes mesmo de autores como os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Em primeiro lugar, não há contos originais. Existem versões mais antigas que outras. Entretanto, a “originalidade” dos contos de fada é um aspecto um tanto quanto equivocado.

Os primeiros registros escritos só foram feitos no século XVI. No entanto, os contos surgiram em culturas distintas há pelo menos 6 mil anos. Tais histórias eram contadas oralmente e passadas de geração em geração, muitas delas para adultos. Contar, recontar e criar histórias era uma das poucas formas de entretenimento. Os contos de fadas foram facilmente adaptados ao universo infantil por trazer lições morais e de comportamento.

Involuntariamente, nem todas as fábulas traziam lições consideradas propícias pelos adultos. Por isso, os contos populares sofreram diversas alterações ao longo dos séculos. Em artigo publicado para o The Huffington Post, Maddie Crum revela que as histórias passadas oralmente para as crianças eram, em sua maioria, ditas e criadas por mulheres. Seu trabalho? “Unhappily Ever After: How Women Became Seen But Not Heard In Our Favorite Fairy Talles” (Infelizes para sempre: como as mulheres foram vistas mas não ouvidas em nossos contos de fadas preferidos).

O objetivo de tais histórias serem contadas para crianças se baseia na necessidade de prepara-las para a vida adulta. Entretanto, o final “felizes para sempre” geralmente envolve mulheres indefesas sendo salvas por homens corajosos e valentes, apresentando o casamento como a felicidade.

Por que mulheres distorceriam a verdade para as crianças quando o propósito era justamente prepará-las para a vida adulta? Crum diz ter duas teorias a respeito do assunto. A primeira delas, a necessidade de cativar o ouvinte, sem assustá-lo ou dar ideias “inapropriadas” para a época. A segunda, as alterações nos registros escritos do conto não fazem jus ao que se era contado oralmente.

Crum acredita que as mulheres ensinavam muito mais as suas filhas através das histórias. Elas contavam sobre um mundo violento, perigoso, sobre o casamento, sexo e também gravidez. Os irmãos Grimm, ao fazerem a própria versão das histórias, refletiram as ideias patriarcais da sociedade e transformaram as experiências reais das mulheres em histórias nas quais o gênero feminino é totalmente silenciado e a violência contra a mulher é constante.

Mulheres morrem durante o parto, mas é aceitável, pois cumpriram o dever social de procriação (como as mães da Cinderela, Branca de Neve e Rapunzel). Mulheres são banidas para florestas, torres, desempenham tarefas domésticas até serem “salvas” por um príncipe.

Além disso, mulheres que falam demais ou tem opinião própria, são condenadas. As irmãs das Cinderela falam de mais, são más. Maria, de “João e Maria,” chora e é repreendida pelo irmão. Um dos contos dos Grimm intitulado “The Lazy Spinner”, fala sobre uma mulher que é “preguiçosa” e não faz o que o marido lhe pede.

Crum ressalta que há outros autores, como Charles Perrault, que deram muito mais destaque às mulheres. Entretanto, os irmãos Grimm são os que mais influenciaram a ideia de contos de fada representados nos desenhos da Disney. E é a partir dessas versões, sobre a ideia de feminilidade distorcida, que hoje estamos confrontando diretamente.

São inúmeras as adaptações literárias e fílmicas dos contos de fadas. Os filmes mais famosos do gênero, claro, são da Disney. “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937) foi o primeiro longa-metragem animado. Em seguida, foi lançado “Cinderela” (1950) e, posteriormente, “A Bela Adormecida” (1959). O primeiro trio de princesas da Disney. Em pesquisa para o The Washington Post, Jeff Guo comenta que todos são obcecados pela aparência da Branca de Neve, a Cinderela não tem nenhum talento ou hobbies, e a Bela Adormecida não faz nada além de ser amaldiçoada e dormir.

Levou 30 anos para a Disney produzir outro filme de princesa. Em 1989 estreou “A Pequena Sereia”. Guo diz que foi o primeiro filme que os personagens masculinos falam mais que os femininos. A sequência segue com: “A Bela e a Fera” (1991), “Aladdin” (1992), “Pocahontas” (1995) e “Mulan” (1998). Apesar da tentativa de trazer mais visibilidade feminina, a maioria dos personagens nesses filmes ainda são homens. Mesmo com uma mulher protagonista, os homens lideram os diálogos e quantidade de personagens.

Depois de Mulan, demorou dez anos para a Disney lançar outro filme de princesa. Segue-se com “A Princesa e o Sapo” (2009), “Enrolados” (2010), “Valente” (2012), “Frozen” (2013) e o mais recente “Moana” (2016). Apesar de algumas características relacionadas a personagens e quantidades de falas, há algo muito positivo nos filmes mais recentes. Os elogios e qualidades das protagonistas não giram em torno da sua aparência.

Em Mulan, ela se veste de homem e luta em uma guerra. Em “A Princesa e o Sapo”, além da protagonista ser determinada a ser independente e ter seu próprio negócio, o casal se apaixona quando estão transformados em sapos. Em “Valente”, Mérida é uma personagem considerada meio atrapalhada e extremamente talentosa no arco e flecha, melhor que os competidores masculinos. Sem contar que, no mesmo filme, a protagonista não tem um interesse romântico, tática que se repete para a personagem da Elsa, em “Frozen”, e “Moana”. Ainda em “Frozen”, a ideia de “amor verdadeiro”, à primeira vista, é debochada. Moana se rebela contra a vontade do pai e, para salvar seu povo, sai para enfrentar a aventura que a espera nos mares.

O que mantem os contos de fada vivos, mesmo depois de 6 mil anos, não é o caráter moralizador. São os sentimentos universais do ser humano por trás das personagens. Aventura, medos, receios, paixões. Para isso, as personagens mulheres não devem ser oprimidas ou submissas. Moana prova ser tão valente quanto qualquer príncipe, Mérida salva sua mãe com bravura e não com um “beijo de amor verdadeiro”. O romance perfeito, a ideia de feminilidade, de “como ser princesa” estão, enfim, se transformando.

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