Sobre guarda-chuvas

Ou: O dia em que você vê que sua hora chegou

Texto: Raimundo Nogueira, 4º ano matutino
Edição: Luana Harumi, 4º ano matutino

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Foto: Raimundo Nogueira.

Dia desses, voltava de um show de música em um teatro no centro da cidade. Chovia muito. Não tinha táxi ou Uber por perto. Saí na chuva, atrás de um casal formado por um homem de 55 anos e uma mulher mais velha, devia ter uns 70. Fui atrás deles porque ouvi a palavra “táxi”. Esperava encontrar um. Andamos umas três quadras. Os dois entraram no carro da senhora de 70 anos. Eu continuei andando na chuva, com o folder do show na cabeça para me proteger do aguaceiro.

Não calculei bem a distância do hotel onde me hospedara. Pensava em umas seis quadras, mas, à medida que andava e a chuva aumentava, tive a impressão de que nunca chegaria. Pensei nos crimes que acontecem bem naquela região, muitos deles já estiveram sobre a minha mesa. Fiquei com medo. Muito medo. Me consolava a ideia de que, com chuva, os criminosos também não saem para as ruas. É o que dizem.

Passei rente ao bosque Mal. Cândido Rondon, caminhei ao lado da Catedral de Londrina. Virei na alameda Miguel Blasi, segui até a rua Pio XII. Cruzei a rua Pernambuco e estava quase na esquina da Hugo Cabral. Estava mais tranquilo quando se aproximou um carro importado, branco, novinho. O motorista fez uma manobra para se aproximar de mim. Abriram o vidro do passageiro e este me apontou um objeto…

Pausa para me lembrar de outras histórias.

Agora tenho 52 anos, mas já tive 20. Quando tinha essa idade, morava em Belo Horizonte. Inseguro e recém-chegado do interior, carregava a frustração de nunca ter sido assediado por homens ou mulheres na rua. Como alguns amigos, que me contavam esses casos com ar de superioridade.

Pois, de tanto esperar, os assédios aconteceram. No dia seguinte, relatei tudo aos amigos, vitorioso. Mas, no instante em que ocorreram, altas horas da noite, confesso que a sensação foi de pânico.

Uma história foi divertida. Eu ficava em frente a uma igrejinha bem no centro de Belo Horizonte. Era muito pequena mesmo a igreja, tanto que nunca a tinha notado. Ficava ali porque podia correr e pegar várias lotações, que eram poucas depois de 1h da madrugada. Passou um rapaz, rebolando muito, e me perguntou:

__O que está fazendo aí? Esperando a igreja abrir?

Eu respondi que esperava ônibus. E ele, rebolando um pouco mais e dando risada:

__ Aff! Não sabia que ônibus parava na esquina!

A outra paquera me assustou mais. Era um carro lindo, de gente rica com certeza. Chegou pertinho de mim. O motorista era um homem de uns 50 anos, bêbado, e me convidou a entrar no carrão. Recusei. Ele insistiu, disse que me deixaria na porta da minha casa. Tive nojo. Ele seguiu falando. Não tive saída: entrei em um táxi e fui assustado para casa. Gastei um dinheiro que não podia. O orçamento do mês ficou comprometido, mas me livrei da situação.

Voltemos à rua Pio XII, onde essas histórias me passaram rapidamente pela cabeça. O carro se aproximara, vocês lembram, e o passageiro apontou-me um objeto. Tentei correr para a esquina anterior. As pernas estavam pesadas, o máximo que consegui foi chegar muito próximo das lojas fechadas. As portas de zinco daquelas lojas me pareciam o próprio paredão, era questão de segundos até eu ser executado. Quem queria me matar? Bandidos que acusei, algum sujeito enciumado porque eu tinha olhado para a namorada dele?

Enquanto punha o coração pela boca e pensava nas possibilidades, achei que tinha ouvido o passageiro do carro branco me dizer alguma coisa? Confuso e um tanto ridículo, gritei a todos pulmões:

__Quê que foi? O que vocês querem?

O passageiro parece que falou:

__Senhor, um daaidfadfj (não entendi o resto).

Não sei porque confiei, mas cheguei perto do carro e então ouvi:

__Senhor, desculpa aí, fica com este guarda-chuva. Desculpa aí.

Agradeci e fomos embora. Os rapazes, rindo bastante. Eu, armado com meu guarda-chuva, cheguei no hotel sem saber se ria ou chorava. Mas estava melhor. Voltava a acreditar que o ser humano talvez ainda tenha jeito.

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