Confissões na pista de dança

Ir para a balada depois de ser esmagado pelo cotidiano pode ser uma experiência quase ritualística

Reportagem: Márcio Jangarélli, 4º ano noturno
Edição: Marcela Pistori, 4º ano noturno

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O título faz referência ao álbum “Confessions On A Dance Floor, de 2005, da cantora Madonna. A americana é um dos maiores exemplos de fusão entre religião e música no mundo Pop.

“Pague seus pecados em baixo do globo de espelhos.” Ir para a balada em um fim de semana qualquer, depois daquela semana que pesou quase cinco toneladas, depois daqueles dias dramáticos, depois daquele tiroteio de notícias ruins, depois daquela discussão… depois….

Ir para a balada depois de ser esmagado pelo cotidiano pode ser uma experiência quase ritualística. Digo isso lembrando da minha primeira vez que, literalmente, foi um experimento religioso. Cidade pequena, interior de São Paulo, ali pelos 9 ou 10 dos anos 2000, onde a palavra “baile” ainda era popular e os eventos, pouco frequentes, causavam quase uma comoção geral.

Alguém disse: “Uma balada com cunho religioso, realizada pela paróquia, para arrecadar fundos para os novos projetos e se comunicar melhor com o público jovem; Bora?”. Lembro que, na época, eu, 15-16 anos, ainda no caminho das ovelhas católicas, questionei a ideia para um dos organizadores e recebi como resposta. “Por que não? Vai ter música, dança e alegria, como em qualquer outra festa. Só não vão ter bebidas e menores de idade vão poder entrar.”

Não digo que foi uma experiência ruim, mas, recordando, foi – no mínimo – esquisita e esclarecedora. Realmente, o rapaz estava certo: Por que não? Afinal, os elementos santos se expandem no ar todo fim de semana, propositalmente, ou não.

Despistando a religiosidade formal, quando penso em uma boate, principalmente com temática LGBT+, idealizo um grande culto sem uma entidade de adoração específica. A não ser que você leve em conta a imensa lista de divas pop e seus seguidores. Os sinais estão ali: quando a música toca, a aura transcendental de uma grande oração invade o espaço, em meio às luzes surtadas e as bebidas caras.

Deuses, salvem o DJ, porque ele é quem prega a palavra e dita o tom do sermão da semana através da setlist. Ele quem dá voz ao coro explosivo, que procura ali uma válvula de escape. E que a palavra se faça música e batida, quando os ritmos, corais e citações religiosas, principalmente cristãs, com uma pequena apropriação de outras crenças, são tão presentes quanto letras sobre amor e festa. Ou melhor, o amor e a festa se fundem à fé nas letras, porque em meio a um aleluia, um tolo santo e metáforas safadinhas sobre ficar de joelhos, o que se vê é – na fé noturna – não existe muita distinção entre o sagrado e o profano.

Na verdade, quando se faz uma linha histórica da coisa, as primeiras aparições desse emaranhado de pessoas surtadas, dançando e bebendo, vêm de cultos aos deuses antigos, hoje chamados de mitológicos. Antes mesmo dos cultos a Dionísio, as divindades, já renegadas na Grécia antiga, eram clamadas através da liberação e troca de energia pelos sons, movimentos, bebidas, drogas e comida.

A cristandade, talvez, tenha sido uma das grandes responsáveis pela organização e transformação do festejo. Houve uma canalização da liberdade festiva dos cultos antigos para um culto institucional. Afinal, quantas são as religiões que, ainda hoje, denominam seus encontros como “celebrações”?

Claro, não se canaliza tudo na religião. Parte da liberdade animalística das festas antigas desvia-se desse funil e desemboca nos grandes bailes em honra ao rei ou aos nobres, escondidos dentro dos burgos, ou nos reles humanos e suas preces por uma boa colheita ou pelo fim do inverno. Daí para a festa entrar na grande roda da industrialização, em tempos em que se consome a coisa através de nichos específicos de público e, em alguns desses, retomando o LGBT+, faz parte de uma identidade coletiva, e sua cisão quase completa da religião. Bastaram mil e poucos anos e algumas revoluções.

Ainda que distantes uma da outra, criando toda a dualidade profano/sagrado que os mais radicais adoram, uma balada e uma celebração com plano de fundo místico têm suas similaridades, mesmo depois de tanto tempo, sejam na música, no ambiente, no público ou na motivação geral.

Corais e referências religiosas são de praxe em música de balada. Do “Like a Prayer” de Madonna até o “Judas” de Lady Gaga, de “Personal Jesus” do Depeche Mode até “Uptown Funk” de Bruno Mars, seja na letra, no ritmo, no sample ou na metáfora, até mesmo “Demons” do Fatboy Slim ou “Aphrodite” da Kylie Minogue estão tecendo o tom místico do ambiente.

Vemos também a disposição do DJ, em um púlpito simbólico e o público, a sua frente, com suas coreografias ensaiadas ou as danças dessincronizadas. Aleluia, tende piedade. Ninguém sabe qual é o Deus do outro, mas alguma entidade cósmica rege o local.

Capela Elétrica

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A novaiorquina Lady Gaga é outro grande exemplo da utilização da metáfora religiosa na música pop. A imagem é da “Born This Way Ball Tour”, turnê de 2012, que trazia a proposta de “um lugar seguro para meus fãs e sua diversidade”.

“Se você quer roubar meu coração, me encontre um lugar seguro, me encontre na capela elétrica”, entoa Lady Gaga, entremeio a vocais sexys, guitarras e batidas eurodance oitentistas, em “Electric Chapel”, 14ª música do album “Born This Way”, de 2011. Trabalhando a metáfora de um amor proibido, a letra brinca com religião, como a maioria das músicas do álbum, que segue uma linha de alusões bíblicas em contextos de preconceito e aceitação.

O interessante dessa faixa, em especial, é trazer a ideia do encontro e do lugar seguro. É exatamente nesse ponto que as primeiras casas LGBT+ surgiram, na década de 1960, na Europa e nos Estados Unidos. A ideia de um lugar seguro para perder sua cabeça é, digo isso depois de conversar bastante e rever alguns conceitos próprios, o principal ponto da vida noturna gay.

Em sua maioria, as casas noturnas se fixam em lugares distantes dos bairros residenciais, por conta de barulho e da movimentação, porém, observando mais de perto, as baladas com público alvo não-heterossexual ficam ainda mais à margem da boemia urbana. Enquanto as baladas heterossexuais procuram pontos mais seguros, no sentido mais monetário da coisa, como em avenidas e áreas mais comerciais, as baladas gays estão há vários quarteirões distantes dessas mesmas avenidas e áreas comerciais.

A proteção aqui é outra. É fácil notar, se ficar cinco minutos parado em um fumódromo aberto para a rua, o quanto aquele prédio, com a fachada decorada de LEDs coloridos, que evoca uma grande capela eletrificada, incomoda. Os carros passam devagar, os motoristas olham com curiosidade. Poucos segundos depois já se ouve um grito de desdém, um palavrão, uma ironia. Um “Ei, suas bichas” gritado, ainda que em tom de brincadeira, mostra o porquê do local à margem da margem.

Além dos aspectos econômicos e industriais, a balada gay já se situa em um espaço-tempo mais reservado. A noite é o contra turno do trabalho, como nos fins de semana, propícios para a atividade. Porém, levando em conta a raiz histórica, a noite sempre foi a principal escolha dos rituais e celebrações dos pagãos e cultos minoritários, pelo aspecto mais reservado e seguro que a escuridão traz, protegendo os atos dos ataques das grandes instituições religiosas. Essa coberta mística de proteção se evoca até na duração, enquanto as baladas heterossexuais duram, em média, até 5h da manhã, a ideia de aproveitar a noite até o fim domina o outro lado, levando a festa até as 6:30-7h. A noite tem que render até a última gota.

É legal notar como a ideia de proteção não se aplica só para comunidade LGBT+. Ouvi mais relatos do que posso contar de um público heterossexual frequentador do espaço. “As baladas normais são um ambiente de caça.” “Ninguém vai pra festa hétero só pra se divertir. Essa época passou.” “Já perdi a conta de quantas brigas eu arranjei porque ficaram em cima da minha namorada.” “Chega ser agressivo às vezes. Os caras não têm educação, eu me sinto como um pedaço de carne, quando eu só queria dançar e beber um pouco.” “A gente vem aqui porque quer só se divertir e o lugar tem uma energia bacana, uma música legal, os outros lugares são barra.” As falas beiram depoimento de conversão.

Ritual

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Nem só de cristianismo vive a metáfora musical. Outras religiões são referenciadas em ritmos, batidas, samples ou metáforas mais implícitas. Na imagem, Kylie Minogue em sua “Les Folies Tour”, de 2011, como a deusa grega Afrodite, divindade constante no mundo pop.

Bem antes de chegar à pista, a noite já começou. Alguns já esperavam desde a segunda-feira pelo momento de descarrego, enquanto outros decidiram em cima da hora que não aguentariam as paredes de suas casas na famigerada sexta à noite. O visual na fila é variado, mesmo que a constante do “melhor roupa para” esteja ali.

De saltos gladiadora nº15 em rapazes de 1,80m, até vestidos salpicados com tinta neon, coroas, óculos escuros, camisetas com a marca gritando, calças apertadas pra valorizar, calças largas pra ter mais liberdade, gola v, camiseta polo, com mangas, sem mangas, top, blusinha, bolsa e maquiagem.

A intenção já é liberar no vestuário, ainda que um ou outro esteja engessado em estilos forçados. Não é de ficar espantado, quando se chega nas motivações de estar ali, em despeito da diversão em si, e depois de ser chamado de chato várias vezes por sempre descer o “Por que?” mais e mais, a resposta é que a festa se torna a explosão da implosão diária de cargas negativas.

Um bêbado solitário, encostado há quase meia hora na parede do fumódromo, contou uma história de desilusão amorosa, traição e medo de ficar sozinho, parecida com a da maioria ali. Isso lembra a ideia de relacionamentos mais simples que alguns amigos héteros têm dos casais gays e lésbicos e o quão errada essa imagem é.

Ele não estava sozinho, o sozinho na balada era eu e um outro rapaz, no canto da frente, que discutia internamente se a ideia de estar ali sem companhia era boa. Tinha ido com conhecidos, não amigos, mas os outros estavam incomodados com a nuvem carregada que o rapaz levava sobre a cabeça naquela noite. Depois de mais alguns goles, ele voltou pra dentro, e, quando o vi novamente, sensualizava, com Britney Spears pedindo “Gimme More” de fundo, como se nada estivesse acontecendo.

Encostada no suporte, olhando para a rua, a menina, que me disse ter cara de esnobe, contou sobre uma briga na família e o quanto ela precisa só estar longe da casa. “Não sou religiosa, não posso jogar meus problemas num padre. Também não gosto de psicólogos. Onde já se viu contar seus problemas pra estranhos? Prefiro jogar meus problemas na bebida e aqui.”

Não tão alterada quando conversamos, ela disse que os amigos já estavam bêbados demais e ela não queria cuidar de ninguém. Ao que parece, um término de namoro estava no meio do grupo, então aquela era noite de libertação. O novo solteiro só queria “pegar todos”, pra esquecer o coração partido. Os amigos queriam o mesmo, mas sem corações partidos.

Um dos DJs da noite, em um canto, depois que seu grupo saiu pra buscar cerveja, comentou, indignado. “Esse é o meu trabalho”, enquanto dava goles em seu copo de vodka com suco de uva. “Não posso ficar lá dentro agora, o som tá muito ruim. Esses novinhos que começam tocar como se fosse brincadeira. Ficam pedindo meus equipamentos emprestados e só sabem jogar uma playlist ruim no aleatório. Eu gosto de me conectar com o público, ver que eles estão reagindo, curtindo. Esses caras só sabem colocar uma diva pop lá e acham que estão arrasando. As pessoas notam a diferença. Elas gostam de qualidade. Basta falta de qualidade fora daqui.”

Dando uma volta pela pista, o cara de chapéu derrubou alguma coisa que, depois, vi que manchou minha camiseta. Você nunca sai sem um batismo de cerveja, principalmente, quando o lugar é apertado e já passou das 2 da manhã. Petrificados em seus cantos, os seguranças mantinham um olhar de julgamento disfarçado sob a loucura, quase prédios no meio de um tsunami de malucos, só deixando a posição para resgatar (ou repreender) alguém nos banheiros.

O barman parecia abatido, enquanto forçava alguns sorrisos e uma dancinha pra quem estava servindo, depois virava, sério, e ia para alguma conversa amarga no celular. Os responsáveis pela limpeza, naquela hora, já eram fantasmas ou ninjas, atravessando o lugar sem ninguém notar suas presenças.

No caminho para o banheiro, a moça, na cadeira de rodas encostada na parede, cercada de amigos, parecia estar em um nível de alegria que nunca devo ter chegado a conhecer. A princesa, com uma coroa brilhante, comemorava seu aniversário, enquanto outros invejavam o adereço e pediam emprestado. Um rapaz de bermudão carregava um leque vermelho – enorme – e nem ligava se seu bater de asas e cabelo incomodava alguém.

O casal ao meu lado já tinha esquecido as pessoas ao redor e se devoravam. Vi o grupo de senhores que estava em frente, na fila de entrada. Eles já faziam parte de outro planeta, no canto próximo do púlpito musical. Ao fundo, os versos sagrados de “Emergency”, da Icona Pop, gritavam “Confesse seus pecados e fique de joelhos”, seguido por Michelle Williams, transformando o clássico gospel “Say Yes” em dance, fazendo até um amigo ateu cantar “When Jesus say yes, nobody can say no”. Quando a setlist diz sim, ninguém pode dizer não.

O sentimento geral é de uma grande confissão através da dança. Nesse microcosmo transcendental criado pela música ensurdecedora, as luzes hipnotizantes e a bebida, os mais variados dramas, de novela mexicana até filme b cult, surgem e desaparecem, os pecados e as surras da semana são perdoados e, quando tudo for expurgado, é hora de ir embora. Em contrapartida às convenções sociais, que ditam não sair da festa até próximo das 5h, alguns já escapam à 1h, às 2h, às 3h, quando seus objetivos já se perderam ou foram conquistados ali.

Na fila pra pagar, observando os primeiros raios do sol, conversei com duas meninas, bagunçadas como se tivessem participado de um arrastão. “Quando eu não sinto mais minhas pernas e estou quase desmaiando, eu sei que já tirei tudo o que precisava dos ombros e posso ir embora.” O que fica da festa, além do espaço vazio interno, pronto para ser preenchido pelo peso cotidiano, é o martírio da ressaca, no dia seguinte. Nem o jornalista escapa. “Você está parecendo a menina d’O Exorcista”, comentou um amigo. Pois é, resquícios da iluminação atingida.

 

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