Mulheres taxistas lutam contra discriminação

Em Londrina 14% dos taxistas são mulheres, número que ultrapassa a grande capital São Paulo

Reportagem: Beatriz de Brito e Jéssica Doarte, 4º ano noturno
Edição: Marcela Pistori, 4º ano noturno

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Fotografia: Gustavo Carneiro/Grupo Folha.

Em Londrina, de acordo com dados da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), existem 53 mulheres dirigindo táxis credenciados, de um total de 396 veículos. O número é maior que em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, chegando a quase 14% dos taxistas. Segundo Renata Pucci, taxista em Londrina há três anos, a luta por espaço e por reconhecimento profissional são desafios cotidianos.

Ela é taxista permissionária e utiliza o carro de um terceiro para trabalhar. “Eu sou formada em Letras, sou formada em enfermagem e, mesmo tendo especialização na área, o mercado é difícil. Na época, eu não podia ficar desempregada. Pedi para um colega que eu já conhecia me arrumar um bico. E ele falou: ‘mas você quer? ‘Eu quero, eu preciso’ . E, na verdade, o retorno financeiro que me proporciona é o que me fez continuar”, afirma.

Os episódios de discriminação de gênero enfrentados no dia a dia no trânsito não são poucos. “Quando a gente está dando uma seta, vamos supor, para poder fazer uma entrada, aí o cara de trás não quer oferecer essa vaga para você. Quando ele te passa, fala assim: ‘só podia ser mulher mesmo’. Então, a gente vê muito o preconceito dos homens quando vê que é uma taxista mulher no volante. Imagina se fosse homem, será que iria fazer a mesma coisa?”

Renata diz que também sofre com o assédio por parte dos clientes e relembra que, em algumas ocasiões, precisou pedir para que o cliente descesse do carro antes de terminar a corrida, temendo que algo mais sério. “Porque a pessoa acha que a gente no táxi, a mulher tá ali, é o sexo frágil e que vai ceder ao assédio dele. A gente tem que mostrar que ele tem que respeitar”, completa a taxista.

Rosimeire do Nascimento é uma das pioneiras na profissão em Londrina. Sua trajetória teve início em 1997, quando ainda trabalhava de moto – a primeira moto-taxista mulher na cidade. Ela participou de movimentos por melhores condições de trabalho para os moto-taxistas, até que um episódio trágico a fez sair do ramo por algum tempo.

Viúva de moto-taxista vítima do trânsito, ela teve de seguir outros rumos. “Sempre trabalhei no trânsito. Entrei como motorista auxiliar e trabalhei dois anos, depois surgiu uma oportunidade de uma licitação e eu, graças a Deus, consegui. O carro é meu. O ponto é meu”, esclarece Rosimeire, que trabalha por conta própria.

Sobre o machismo enfrentado na profissão, Rosimeire diz que vem de colegas de trabalho, clientes e motoristas. “Desde o moto-táxi eu sofria essa discriminação, essa diferença. Mas no táxi foi difícil. Até hoje eu sofro. Eles me enxergam como um intruso, uma mulher que quer fazer papel de homem. No meio dos taxistas, entre os próprios colegas”, ressalta.

Renata e Rosimeire apontaram adversidades que, infelizmente, se tornaram comuns da profissão. Ainda assim, as taxistas amam o que fazem e têm orgulho de seus ofícios, que nada têm de “coisa de homem”. “Na verdade, não tem rotina no táxi. Cada dia que você vem é um dia diferente. É um cliente diferente que você atende e, assim, você aprende também no táxi, com as pessoas. Você conhece tudo, o mundo, aqui dentro”, assegura Renata, ao falar do que vê de mais gratificante em sua profissão.

Rosimeire também declara o amor pela direção, pelo trânsito. “Primeiro é a independência. De levar quem eu quero, trabalhar o horário que eu quero. O desafio de estar aí, desbravando lugares, conhecendo pessoas. E meus filhos me admiram demais e me encaram como uma lutadora”, conclui.

Mulheres conduzindo mulheres

Quanto aos clientes, tanto Renata quanto Rosimeire afirmam que há um certo equilíbrio entre homens e mulheres. No entanto, há passageiras que afirmam se sentirem vulneráveis em uma corrida de táxi, pois na direção do carro está um desconhecido. Laís Sinnema, estudante de 21 anos, conta que costuma pegar táxi à noite e se sente muito mais confortável com uma mulher ao volante. “Com um cara você pensa ‘se eu ficar aqui, às vezes, ele não ai me levar para a minha casa. Eu estou sozinha aqui com ele’. E com mulher não, passa muito mais segurança.”

A jovem se lembra com carinho da taxista mulher que conheceu recentemente. “Ela era uma fofa. Ela conhece várias pessoas que eu conheço. Gosta de cuidar de todo mundo, gosta de ser requisitada, principalmente, com meninas”, ressalta Laís.

Uma pesquisa realizada pela empresa 99 Táxis, em São Paulo, aponta que quase 60% das mulheres preferem ser atendidas por motoristas do sexo feminino em uma corrida. Segundo dados do Departamento de Transportes da Prefeitura de São Paulo, a demanda de mulheres interessadas em atuar na profissão vem aumentando, mas o número de mulheres taxistas em relação a homens ainda é pequeno.

Grupos e aplicativos têm sido criados para atender exclusivamente o público feminino. Em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba, iniciativas desse tipo popularizam-se entre motoristas e clientes. Entre eles, o aplicativo Femitaxi e o serviço Taxi Rosa, que se assemelham a aplicativos como Uber, mas destinam-se apenas às mulheres.

O objetivo é atender à dupla demanda: das mulheres taxistas, que representam menos de 10% das frotas e das clientes, que representam 48% dos usuários e, principalmente, evitar casos de assédio, tão comuns no transporte coletivo. Em Londrina, no entanto, ainda não há ações desse sentido.

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