O pássaro da morte

Foi então que, terminada a tempestade, podia-se ouvir o canto de um pássaro. Diferente de qualquer outro, este expressava certo mistério no cantar.

Texto: Rodrigo Nolasco, 4º ano noturno
Edição: Marcela Pistori, 4º ano noturno

MATRodrigofoto1
Fotografia: Rodrigo Nolasco.

Se preferir ouvir esta crônica, clique no play abaixo.

Nas terras onde me criei, os dias chuvosos, principalmente aqueles seguidos de tempestades com trovões e ventanias, eram sinal de que em instantes ficaríamos sem energia. Ou, como costumavam dizer os antigos: “a luz iria cair”. Velas acesas e, enquanto a parafina derretia, ouvidos atentos para as histórias que Vó Dú começaria a contar.

Vó Dú, Dú do Pedro Cachaça ou Dona Dú costureira, eram algumas das formas que a mineira Eduvirges era carinhosamente chamada. Mulher vivida. Senhora calejada. Nas costas – já corcundas – carregava o peso de décadas de trabalho sofrido na incansável luta de alimentar seus 10 filhos.

Mesmo com a correria e as inovações tecnológicas que, atrasadas, já tomavam conta do interior mineiro, a ociosidade das tardes sem energia davam lugar a viagens de volta no tempo.

Numa dessas tardes, interrompendo-a enquanto rezava a oração da “Salve Rainha” que, segundo ela, acalmava as tempestades, contos começaram a surgir de sua boca. Histórias, lendas, crenças e costumes dos antigos.

Foi então que, terminada a tempestade, podia-se ouvir o canto de um pássaro. Diferente de qualquer outro, este expressava certo mistério no cantar.

MATRodrigofoto2
Fotografia: Rodrigo Nolasco.

Segundos depois, num esforço de recordação, lembrava e contava ela que o pássaro do canto, conhecido na região do espinhaço, norte mineiro, como pássaro agourento, de nome científico “acauã”, anunciava a morte de um conhecido. Para eles, sua vocalização – emissão de sons cantados – é transcrita como “Deus quer um”.

Desde a infância da minha avó, ouvir aquele canto era sinal de que o morador de alguma daquelas casas próximas da árvore em que o pássaro se assentava, em alguns dias viria a falecer. E era certeiro, lembrava ela. Das recordações mais marcantes, a de quando o pássaro anunciou a morte do seu pai. Depois da sua mãe. De alguns conhecidos e até do seu esposo.

Na vizinhança da antiga casa em que morávamos, no interior mineiro, recordo de diversas mortes prenunciadas pelo pássaro. Cantava por três, quatro dias seguidos. Logo, os alto-falantes da matriz anunciavam a notícia. Até o dia em que, num fim de dezembro, o ouvi cantar pela última vez. Anunciava ele, a morte da minha Vó Dú.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s