“Torcedor-técnico” chama a atenção no estádio do Café

O “Vanderley Luxemburgo de Londrina” – como é conhecido Wilson Barbosa Silva – é o técnico das arquibancadas do Estádio do Café

Reportagem: Bruna Tukamoto e Danilo Brandão, 4º ano noturno
Edição: Marcela Pistori, 4º ano noturno

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Fotografia: Cesar e Flavia Fotografia.

Final de campeonato. Os times já se preparavam para iniciar a partida quando, de repente, algo desvia a atenção do torcedor na arquibancada do Estádio do Café. A entrada de um homem em traje social chama a atenção de todos. Trata-se de um homem alto, magro, trajando um terno preto surrado.

A entrada desse personagem causa furor nos torcedores, tal como seria a entrada do craque do time no meio da multidão. Todos o reconhecem. O torcedor em questão chama-se Wilson Barbosa Silva, de 55 anos, ou, como é conhecido, Vanderlei Luxemburgo de Londrina.

Sua proposta é treinar o time pela arquibancada. Não para nem por um minuto durante a partida. Ele corre de um lado para o outro, grita, acena para os jogadores e mostra-se ansioso quando uma jogada não sai como o esperado. Irritado com a arbitragem, sobe na grade, pula, pede apoio da torcida. Tudo isso com seu insubstituível terno preto surrado.

Silva é, talvez, o mais ilustre torcedor do Londrina Esporte Clube. Ele acompanha o time de sua cidade desde criança, porém, foi há quatro anos que decidiu colocar um terno e uma gravata, tal como o famoso técnico Luxemburgo o inspirou, e apoiar o clube de forma inusitada nas arquibancadas. Com fala pausada e serena, ele explica qual foi o motivo para tomar essa iniciativa.

“Fui comprar uma camisa do Londrina para a minha neta e me disseram que o Tubarão havia acabado, não existia mais. Naquele dia voltei pra casa muito triste. Quando eu sentei na minha cama, abri o guarda roupa e vi o terno que tinha usado no casamento da minha filha. Eu me inspirei no Luxemburgo e comecei a trabalhar aqui. Comecei a vir pro estádio assim.”

Ao menos por enquanto sua iniciativa tem dado sorte ao clube, desde lá, já foram quatro títulos (Campeonato Paranaense 2014 e Campeonato do Interior 2015, 2016 e 2017) e dois acessos seguidos no Campeonato Brasileiro. Wilson Silva revela orgulho ao citar os sucessos que seu clube do coração obteve nos últimos anos. “Desde que eu comecei, consegui subir o Londrina. Fomos campeões paranaense. Eu estava lá em Maringá com a torcida e agora conseguimos ir para a série B. É um grande avanço e vamos conseguir mais.”

Luxa, como é chamado pelo torcedor alviceleste, é uma celebridade no Estádio do Café. Durante o jogo, os espectadores dividem a atenção entre a partida e sua atuação. É impossível não perceber sua presença no estádio.

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Fotografia: Gustavo Oliveira/Assessoria de Imprensa Londrina.

Valdir dos Santos é outra pessoa conhecida pelo torcedor que vai ao Estádio do Café, mas, por outro motivo. Ele é vendedor de amendoim no local há 29 anos. Valdir é um homem franzino. Com seu fone no ouvido e vestindo a camisa do clube, anda com dificuldade entre as cadeiras do estádio. Sua voz ao gritar “Olha o amendoim!” é quase imperceptível. Sobre Wilson, o vendedor conta que o conhece há anos e possui grande amizade. “Ele é meu vizinho, meu amigo de infância. Crescemos juntos lá no bairro. Mas, não sei bem porque ele faz isso. Nunca perguntei. Eu gosto dele. Ele é gente boa.”

Ao chegar perto do fim da partida, o ilustre torcedor com seu terno, mostra-se cada vez mais inquieto. Movimenta-se com energia. Ansioso, gesticula com os braços em movimentos que cortam o ar. Wilson Silva é, naquele momento, reflexo direto do que estavam sentindo os demais torcedores presentes no estádio. O time precisava de um gol para se classificar. O juiz deu o último assopro no apito. Não deu. A decisão seria decidida nos pênaltis. Neste momento, o torcedor-técnico sobe as escadas que vão em direção à saída do estádio. Dessa vez, ao passar pela torcida, não acena, não olha para os lados, não dá atenção, parece determinado a abandonar o local.

Edio Matias é torcedor antigo do Londrina, sempre que pode acompanha o time dentro e fora da cidade. Ao ser questionado sobre o personagem mais conhecido das arquibancadas, seu semblante demonstra compaixão. “Para o cara fazer isso, tem que ter um parafuso a menos.” No entanto, não deixa de mostrar admiração pela figura de Wilson. “É legal, ele é bem animado. As crianças gostam muito dele. Vivem seguindo ele enquanto dá o seu show. Sem ele, o jogo fica sem graça pra gente.”

Para a alegria de Edio Matias, Valdir dos Santos e os mais de 17 mil torcedores alvicelestes que estavam apreensivos naquela noite de sábado, Silvio, zagueiro do time da casa, converteu o último pênalti da decisão e colocou o Londrina na final do campeonato. No exato momento em que a bola entrou, o estádio explodiu. Gritos, pulos, abraços e beijos. Tudo ali se transformou em festa.

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Fotografia: Assessoria de Imprensa Londrina/ Divulgação.

Na saída do jogo, como não poderia ser diferente, ouvia-se apenas gritos e conversas animadas dos vencedores da noite. Nada se falava mais, nem de Wilson, nem de sua atuação nas arquibancadas. Ele estava só, cabisbaixo, caminhando na chuva com seu terno, sua gravata e seus sapatos. Talvez por estar nos últimos instantes na pele de seu personagem e ser obrigado a retirar o terno molhado. Talvez pela emoção de ver o seu time disputar uma final nacional. Desta vez, ele se despedia do estádio sem acenar para a multidão.

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