Uma vida dedicada ao esporte

A carreira, o futuro e o rádio do lendário Jota Mateus

Reportagem: Guilherme F. R. de Oliveira, 4º ano noturno
Edição: Marcela Pistori, 4º ano noturno

 

MATGuilhermefoto1
Fotografia: Arquivo pessoal.

Algumas vocações começam cedo na vida de uma pessoa. É o caso de José Mateus de Lima, o Jota Mateus, lendário narrador de futebol. Sua paixão pelo rádio começou ainda na infância. Nascido em 21 de abril de 1947, em Arapongas, foi acometido por um quadro de paralisia infantil aos cinco meses de idade. Aos 7 anos, sua família conseguiu um tratamento para o menino no pavilhão Fernandinho, na Santa Casa de São Paulo. Prédio este criado especialmente para o tratamento da paralisia infantil, devido ao surto da doença que assolava o país naquela época.

Foi no hospital, durante suas internações, que ele adquiriu o gosto pelo rádio, mais especificamente as transmissões de jogos de futebol. Aliás, era um dos poucos entretenimentos disponíveis no local. “O nosso passatempo era ouvir o futebol pelo rádio, pois a televisão ainda estava engatinhando e as internações entre as cirurgias eram longas, eu tive uma de oito meses seguidos, para você ter uma ideia”, relembra Jota Mateus.

Em 1957, durante a última internação aos 10 anos de idade, Mateus teve contato com as transmissões de futebol na televisão e se sentiu ainda mais inspirado para buscar uma oportunidade na área. “Diante desse fanatismo que eu acabei conquistando no hospital, eu voltei para casa com a vocação aberta para o lado jornalístico e principalmente esportivo”, explica.

A primeira oportunidade surgiu em meados de 1964, em sua cidade natal, na Rádio Arapongas. Um vizinho, que na época trabalhava na rádio, ouviu algumas das imitações de Jota e se surpreendeu, recomendando que ele fizesse um teste para trabalhar no veículo. Ele foi aceito e passou a ser o plantonista esportivo da emissora, aos aos 16 anos de idade.

Em 1970, Jota recebeu uma proposta da Rádio Cultura, de Apucarana, para ser o narrador da emissora. Embora não fosse o narrador principal, ele ficou encarregado das transmissões de futebol. Jota conseguiu seu registro de jornalista profissional em 1972, ainda em Apucarana. Depois disso, ele se mudou para Maringá por um curto período, para trabalhar na Rádio Cultura.

Alguns anos depois, já em Londrina e trabalhando na Rádio Paiquerê, realizou o sonho de transmitir um jogo com uma de suas principais inspirações na profissão, o jornalista Haroldo Fernandes, estrela da equipe da Rádio Tupi de São Paulo. Isso foi em 1977. O Haroldo era completo, maravilhoso, uma pessoa boníssima também. Eu fiz dobradinha com o cara, sendo que era ele o meu maior ídolo. Aquilo foi uma felicidade e eu tenho a gravação até hoje.”

Em 1986, Jota Mateus retornou para Maringá, onde trabalhou como editor de esportes e locutor esportivo e comercial da TV Cultura (hoje RPC), e no Diário de Maringá, também como editor de esportes. “Na Cultura, eu me sentia muito mal utilizado, porque eu chegava à TV às 7h30 mais ou menos e saia cedo, quando acabava o Globo Esporte e meu compromisso de editor. Aí o Diário de Maringá me ofereceu a edição de Esportes do jornal e eu aceitei. Assim eu cumpri duas metas diferentes do meu jornalismo.”

Apesar dos bons momentos na televisão, Jota Mateus revela as limitações que encontrou trabalhando no meio, especialmente, ao comparar com seus trabalhos anteriores no Rádio, o que influenciou sua decisão de voltar para a área radiofônica. “Por que é que eu não fiquei na televisão? Porque ela é regional. Quando eu estava na TV em Maringá, na Globo, a minha área era a maior que tinha no Estado. Ela pegava a região de Umuarama, Cascavel, Foz do Iguaçu e Maringá. Eu gravava os tapes dos jogos nessas regiões e só. Fiz até alguns eventos em Curitiba, também porque – modéstia à parte – eu me destaquei e fui chamado, mas longe de ser aquilo que eu fazia no radio, né!”.

Foi em 1988 que a oportunidade de voltar à Rádio Paiquerê, aqui em Londrina, surgiu. “O JB Faria, dono da rádio, me chamou para voltar porque a rádio tinha iniciado as coberturas internacionais. A emissora já havia acompanhado a seleção em uma excursão pela Europa”, conta.

Nesta época, Jota Mateus foi colunista do Jornal de Londrina, produziu matérias especiais para a Folha de Londrina e trabalhou na TV Coroados. Tudo isso sem um compromisso formal, pois viajava bastante pela rádio Paiquerê.

Entre 1988 e 2010, Jota cobriu, pela Paiquerê, sete edições da Copa do Mundo, as Olimpíadas de 1996 em Atlanta, e 10 edições da Copa América. Seu trabalho o levou para 32 países, transmitindo jogos de futebol em 28 deles.

Por incrível que pareça, apesar de tudo isso, o momento mais significativo para Jota Mateus foi a campanha de 77/78 do Londrina Esporte Clube, quando foi o quarto colocado no Campeonato Brasileiro. “O que mais mexeu comigo nessa aventura toda foi o próprio Londrina. Aquela vitória com o estádio superlotado é até hoje um recorde de público do estádio do Vasco da Gama. Todo mundo contra violência, ameaças… O futebol local sempre é o mais gostoso”, recorda.

Esse e outros momentos de seu trabalho estão guardados no imenso arquivo pessoal de Jota Mateus. Uma quantidade imensa de material que engloba desde os seus primeiros trabalhos no rádio e na televisão, às viagens internacionais proporcionadas pela carreira. “Eu sou do tipo que guarda tudo. Eu tenho mais material do que a própria Paiquerê. O arquivo dela ainda não existia quando eu comecei o meu”, revela orgulhoso.

O arquivo de Jota Mateus e o Londrina Esporte Clube estão interligados por um grande projeto. Ele é o autor do “Londrina Esporte Clube 40 anos”, o primeiro livro sobre a história do time. Foram vendidos 11 mil exemplares da obra. “Na verdade ninguém conhecia a história do Londrina. O clube não tinha um documento. Depois outros livros vieram, mas o meu foi o primeiro. Então as conquistas do Londrina estão registradas no livro. Pode até ter alguma falha porque era o primeiro em uma época dura em que o computador estava começando.”

O livro só foi possível graças ao extenso arquivo de Jota, que anotava os dados dos campeonatos do norte paranaense, desde 1957. O clube até tinha em sua sede social um livro com todos os jogos, mas era falho. Por sorte, um amigo havia feito registros desde o primeiro jogo da equipe, ainda sob o nome Londrina Futebol Clube. Isso, antes da fusão com o Paraná Esporte Clube, quando o então Londrina Futebol e Regatas se tornou o Londrina Esporte Clube.

Jota Mateus uniu os dois arquivos, acrescentando informações do arquivo da Folha de Londrina. A intenção era lançar um livro em 1986, quando o Londrina completaria 30 anos. Porém, quando ele se transferiu para Maringá, suspendeu a ideia e manteve o material guardado. Quando voltou para Londrina, esperou o clube completar 40. Jota Mateus lançou mais um livro, em 2002, chamado “11 contra 11”. O livro fala sobre o futebol em geral, contando diversos “causos” engraçados e curiosidades.

O jornalista sempre deixa bem claro que seu carinho pelo time nunca interferiu no seu profissionalismo. “Escrevi a história do Londrina que ninguém conhecia e se hoje conhecem é porque o meu trabalho foi o precursor. Além disso, sou cidadão honorário de Londrina, uma honraria que me deixou muito feliz. Eu torço pelo clube, mas em primeiro lugar eu sempre fui um profissional da imprensa, do jornalismo esportivo.”

Ele também se mostra decepcionado com a violência que assola o futebol atualmente. “Hoje o futebol desvirtuou muito. Depois que surgiu a tal da torcida organizada, o futebol perdeu muito. Infelizmente, no meio delas, há muitos atos de violência, provocados pelos pseudotorcedores que vão ao estádio de futebol para extravasar violência. São coisas que decepcionam porque o futebol poderia ser um entretenimento muito mais puro. Hoje, você não pode levar a família no estádio de futebol.”

Apesar das alegrias proporcionadas pela profissão, Jota Mateus afirma que a época de ouro do rádio já passou e que se sente grato por ter feito parte dela. “Aqui na rádio Paiquerê, tive a oportunidade de me realizar profissionalmente. Hoje, a rádio não sai mais de casa e no estádio só faz os jogos do Londrina, o resto é tudo pela televisão. Tive a felicidade de fazer o rádio em uma época áurea. De 1988 a 2010, eu cobri os maiores eventos do futebol. Quem está começando a carreira de uns anos para cá, não vai fazer 5% do que eu fiz, porque não vai viajar. Tenho hoje um currículo que poucos tem no Brasil porque peguei a fase quente. E hoje isso não acontece mais.”

Atualmente, Jota Mateus segue trabalhando na Paiquerê. De manhã, ele tem um espaço de 5 minutos no Jornal da Manhã. Ao meio-dia, integra a equipe do programa Bate Bola, como comentaristas. Além disso, tem um programa na rádio às 16h, no qual conta piadas, faz imitações e apresenta notícias variadas que vão desde assuntos mais descontraídos a coisas sérias.

Aos 70 anos de idade, 51 deles na profissão, Jota Mateus diz que não pretende parar de trabalhar. “Eu sou um cara velho na profissão, mas não sou desmotivado. Muito pelo contrário, sempre tenho disposição para fazer o melhor. Quando eu parar, ficarei em casa sossegado, mexendo com o meu mundo aqui, das minhas músicas, dos meus livros e dos meus arquivos”, afirma.

“Enquanto eu puder, vou continuar trabalhando e acredito que seja essa a grande vantagem do jornalismo. Seja no rádio, televisão ou impresso. Enquanto você tiver dedos bons para escrever e garganta para falar, você estará tranquilo porque a profissão não é parada pela idade. Desde que você tenha saúde e disposição, você está em condições.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s