Abuso de mulheres continua real

Filmado no início dos anos 1970, ‘No Lies’ ainda é uma representação brutal de como é perigoso ser mulher

Reportagem: Luana Harumi, 4º ano matutino
Edição: Maria Vitória Ticiani, 4º ano matutino

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De 1973 a 2017, o que realmente mudou? Fotografia: Luana Harumi.

Primeira ligação do primeiro telefone móvel. Fim da Guerra do Vietnã. Nixon presidente de novo. Em meio a tantos acontecimentos marcantes no ano de 1973, o então estudante de cinema da Universidade de Nova York, Mitchell Block (que hoje coleciona participações em 25 produções vencedoras do Oscar), filmava o que se tornaria um de seus trabalhos mais marcantes.

O curta dramático ‘No Lies’ mostra, ao longo de seus 16 minutos, uma conversa entre um jovem aspirante a cineasta e sua amiga, enquanto esta se arruma para sair à noite. O que inicialmente parece um diálogo superficial, para testar sua nova câmera, com frases como “conte-me mais sobre sua vida amorosa” e “o que você fez ontem?”, logo toma um rumo sombrio.

“Fui estuprada ontem”, responde a moça.

O rapaz, incrédulo, começa a fazer perguntas sobre o acontecido. Filmado em primeira pessoa e sem cortes, o curta é uma representação breve, porém real de como sobreviventes são tratadas após sofrerem um abuso e transforma o espectador em cúmplice e participante.

“Por que você não gritou por ajuda?”, “Que roupa você estava usando?” e “Você por acaso foi até a Polícia?” são alguns dos absurdos proferidos pelo homem – usados até hoje para culpabilizar a mulher. Com a amiga em lágrimas, o jovem percebe que foi longe demais e decide parar a filmagem. Aquela história, encenada por atores, chega ao fim, mas o sofrimento segue.

“Ficamos perturbados não só com o interrogatório agressivo do cineasta na tela, mas também com a representação deliberadamente deturpada que o cineasta (Block) faz fora da tela a respeito do status do filme como ficção com vínculos contratuais com atores. Em um sentido, o filme torna-se um segundo estupro, uma nova forma de violência e, mais importante, torna-se um comentário sobre essa forma de agressão e sobre o risco de fazer das pessoas vítimas, para que possamos conhecer seu sofrimento e seu infortúnio.” A reflexão é de Bill Nichols, no livro “Introdução ao documentário”, de 2001.

Segundo Nichols, o curta é uma metalinguagem sobre o “fazer cinema”, mas não deixa de ser também uma espécie de documentário. Apesar de ser uma encenação roteirizada, trata-se de um retrato de inúmeras histórias semelhantes que, infelizmente, continuam acontecendo 44 anos depois.

Pelo menos cinco pessoas são estupradas por hora no Brasil, de acordo com o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado no final de 2016. Só em 2015, foram registrados 45.460 casos no país.

“Nunca pensei que isso fosse acontecer comigo”, diz a protagonista em certo momento do curta. O estupro, obviamente, nunca é esperado – mas desde crianças, as mulheres são ensinadas a “não se exporem a situações de risco”. Em pesquisa feita ano passado pelo Datafolha a pedido do FBSP, 90% das entrevistadas afirmaram ter medo de ser vítima de agressão sexual.

Em Londrina, mesmo em áreas consideradas relativamente mais seguras, a tranquilidade em andar na rua não é plena. Após inúmeros relatos nas redes sociais de mulheres que se depararam com um homem se masturbando na região central da cidade, uma vítima acionou a Guarda Municipal, que o prendeu em flagrante. Não foi confirmado, porém, se tratava do mesmo que era descrito nas denúncias online. O medo continua.

‘No Lies’, selecionado em 2008 para integrar o Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, por sua relevância cultural, histórica e estética, causa uma série de sensações sem precisar recorrer a cenas gráficas e explícitas. Um curta pesado de estrutura simples e que, ainda hoje, levanta muita discussão e reflexões.

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Foto: Divulgação

 

 

 

 

NO LIES
Direção: Mitchell Block
Lançamento: 1973
Duração: 16 minutos
País de origem: Estados Unidos

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