E se?

Somos atores eternamente condenados a encenar papéis escritos para nós ou prisioneiros de nossas próprias ações?

Texto: Guilherme Oliveira, 4º ano noturno
Edição: Jéssica Doarte, 4º ano noturno

MAT-guilherme

Desde tempos imemoráveis, a humanidade é acompanhada por uma dúvida. Todos gostariam de saber, de fato, até que ponto nossas escolhas individuais influenciam nosso próprio futuro. E mais, se somos realmente responsáveis por nossas decisões ou apenas temos a ilusão de controla-las.

À primeira vista, responder a essas perguntas é relativamente fácil. As religiões e as correntes filosóficas oferecem suas respostas prontas, mas aquela pontada de dúvida sempre permanece. Apesar de ser uma questão de fé, confesso que parece impossível ter certeza sobre a veracidade de qualquer uma dessas explicações.

Espera-se que, ao menos aqueles que terminam a jornada final, pela qual passarão todas as coisas vivas – se é que esta termina algo ao invés de ser apenas outro começo – conheçam toda a verdade a respeito da questão. Nem mesmo sobre isso temos garantia sólida. Pois, para repetir o clichê, ninguém nunca retornou para contar; ou se o fez, não foi com eloquência suficiente para convencer, se é que isso é possível.

Foi refletindo sobre destino e livre arbítrio que alguém, como muitos já fizeram e muitos ainda farão, descobriu a fonte de todas as angústias que afligem o espírito humano. Existe nos corações de todas as pessoas um reino etéreo e sedutor. Nele, residem todos os futuros (outrora) possíveis. Os caminhos ignorados, as palavras não ditas, as ações não realizadas. Vidas inteiras que não se concretizaram.

A ficção moderna oferece um exemplo na série Harry Potter. Quando o protagonista encontra o espelho de Ojesed, que mostra a cada um a realidade que deseja, seja ela possível ou impossível. Harry desenvolve uma obsessão ao passar momentos cada vez maiores em contemplação ao objeto mágico, que o projetava ao lado de seus pais, mortos pelo vilão.

Neste caso, foi preciso que o mentor do herói o alertasse do destino cruel de muitos outros que, assim como ele, se deixaram encantar pelo que poderia ter sido e, aprisionados, não conseguiram seguir em frente com suas vidas. Assim, ele precisava libertar-se em tempo de retomar o controle de seu próprio presente.

Como este e inúmeros outros aventureiros ficcionais, na vida real todos enfrentam momentos em que, quando nos damos conta, estamos explorando a vastidão do mundo das oportunidades perdidas, das possibilidades passadas. Como deixa bem claro a mensagem da obra de J.K Rowling, o mergulho nas águas é hipnótico e potencialmente fatal, na medida em que nos impede de viver plenamente o agora.

Esse lugar comum a todos oferece uma válvula de escape para a realidade, por vezes muito dura e amarga. Mas, enquanto a vida construída de fato pode ser uma prisão, estar neste mundo do “e se?”, ainda que não pareça, é a maior de todas elas. É por isso que o passado é um motivo de obsessão para o homem. Em especial, é comum o desejo de construir dispositivos que permitam viajar no tempo, voltar para o passado e alterá-lo.

Mesmo os principais teóricos da viagem no tempo, como Albert Einstein e Stephen Hawking, acreditam que não seja possível retornar ao passado e muito menos modificar algum fato. É o que determina o conceito de paradoxo. Se alguém viajasse ao passado e mudasse algum evento não haveria motivo para ter viajado ao passado em primeiro lugar, certo? Há uma única ressalva que estabelece que, caso existam universos alternativos, seria possível partir de um universo para o passado de outro.

Então, mesmo que o multiverso, conceito apresentado há tempos pelos quadrinhos de super-heróis, e mais recentemente por diversas teorias da física, seja real, não seria possível alterar o futuro. Somente o de suas possíveis contrapartes nesses mundos. O que leva a outro questionamento: seria ético interferir? Trata-se da vida de outras pessoas ou de ocupar um lugar que, ao mesmo tempo, é seu e não é?

Em última instância, até que se prove o contrário, ainda não é possível escapar das consequências de nossos atos, no mundo que construímos diariamente. A verdade, segundo eu a vejo, é que, sim. Tudo sempre poderia ter sido diferente e existiam infinitas possibilidades, mas agora, aquilo que poderia ter sido existe somente em sua imaginação. E a paz está em saber que não há mais o que se fazer por tudo aquilo que já passou. Ainda que muitos digam que o tempo é um rio que corre para muitos lados, por enquanto, só sabemos nadar para frente.

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