Freira dedicou a vida aos mais necessitados

Madre Leônia Milito, homenageada em uma das principais avenidas de Londrina, é desconhecida no cenário cultural e religioso da cidade

Reportagem: Rodrigo Nolasco, 4º ano noturno
Edição: Lucas Matheus, 4º ano noturno

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Madre Leônia Milito, na Itália. Fotografia: Arquivo da Congregação Claretiana.

“Corajosa e missionária, sem medo de arriscar. A definição é da Irmã Aparecida ao descrever uma das mulheres consagradas como santa pelos católicos. Conhecida mundialmente, Madre Leônia Milito adotou Londrina como sua casa e é parte viva na memória dos que com ela conviveram. Porém, muitos londrinenses não conhecem a história dessa mulher que dá nome a uma das principais avenidas da cidade.

A freira faleceu há 37 anos e deixou um legado às missionárias e aos fiéis da Igreja Católica. Até a sua morte, a vida de Madre Leônia foi dedicada à bondade, aos mais necessitados e ao trabalho constante na construção de uma Londrina e um mundo melhor. Atualmente, a irmã é um modelo de santidade para os católicos e mistério entre médicos que tiveram seus pacientes curados de problemas considerados irreversíveis.

Infância e juventude

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Leônia Milito na infância. Fotografia: Arquivo da Congregação Claretiana.

Madre Leônia Milito nasceu na cidade de Sapri, cidade 400 km ao sul de Roma, capital da Itália, em 23 de junho de 1913. “Recebi o nome de Maria no meu batismo. Estava tranquila e feliz entre os meus irmãos, que me devotavam muito afeto”, escreveu a freira em seu diário espiritual. Irmã de quatro homens, Madre Leônia cresceu em uma família cristã. Os pais e irmãos – mesmo religiosos – não aceitavam a ideia dela de se tornar freira.

Com 16 anos, ela ingressou no movimento religioso “Ação Católica”, e, acreditando na sua vocação que, aos 22, a jovem Maria fugiu de casa. “De repente, pareceu-me sentir alguma coisa de estranho no meu no meu íntimo. Senti que devia dedicar a minha vida a serviço de todos os irmãos e não de uma só família”, escreveu. O início da vida religiosa da freira foi em 18 de junho de 1935, quando entrou para o Instituto das Irmãs Pobres de Santo Antônio, ainda na Itália.

Vinda ao Brasil

Na função de formadora de noviças, Madre Leônia viaja para Roma com um grupo de formandas, que se encontrou com o Papa Pio XII em 1950, o que foi motivo de empolgação para o espírito missionário que a freira carregava. Voltando do encontro com o líder religioso, a Madre e um grupo de irmãs se colocaram à disposição para partir em missão.

Com a necessidade de missionárias no Brasil e a disposição das irmãs, quatro freiras vieram para o país, seguidas pela própria Madre Leônia e outras dezenas de jovens. A função inicial da Madre era apenas de estruturar o grupo, no interior paulista e, em seguida, retornar para a Itália.

Porém, mudanças no governo italiano e na congregação que a Madre pertencia fizeram com que fosse ordenado o retorno imediato das irmãs para a Itália. Tanto o governo, quanto a congregação achavam o Brasil um país perigoso e violento para a convivência das freiras.

Com a chegada da notícia, houve comoção dos envolvidos com as freiras no Brasil, que necessitavam das missionárias. Um pedido de ajuda na solução do problema e impedimento do retorno das irmãs foi feito a Dom Geraldo Fernandes, então arcebispo na cidade de Londrina.

Considerada “rebelde” pelos bispos italianos por insistir na permanência no Brasil, Madre Leônia foi expulsa da Congregação e acolhida por Dom Geraldo Fernandes. A partir de então, cresceu a amizade entre eles, o que resultou na criação de uma nova família religiosa, tendo os dois como fundadores e a contribuição das demais irmãs que seguiram Leônia e se mantiveram fiéis aos seus ideais missionários.

Casa em Londrina

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Casa em que vivem as irmãs Claretianas. Fotografia: Rodrigo Nolasco.

Em 19 de março de 1958, foi criada a nova família religiosa, tendo como fundadores Dom Geraldo Fernandes e Madre Leônia Milito. A congregação, denominada Missionárias de Santo Antônio Maria Claret, tinha como finalidade primordial o anúncio do evangelho e o serviço de caridade. Serviços cada vez mais presentes na comunidade londrinense e, aos poucos, espalhados por outros países.

Tanto a primeira casa em que Madre Leônia Milito viveu, quanto a que ela construiu, ainda existem no Santuário Eucarístico Mariano, localizado na avenida em homenagem à freira, na região sul de Londrina. O local é carregado de memórias e espiritualidade para os religiosos de todo mundo que rezam pela intercessão da freira.

Convivência

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Irmã Aparecida de Lourdes Arado. Fotografia: Rodrigo Nolasco.

A irmã Aparecida de Lourdes Arado, vigária geral das Missionárias Claretianas em Londrina, conviveu com Madre Leônia desde o início da congregação até a sua morte. Ela se emociona ao falar da “mãe”, amiga e formadora. “Morei com a Madre Leônia durante muitos anos, trabalhei muito com ela e tive essa oportunidade e esse privilégio de conviver com ela, compartilhar a vida e a missão com essa mulher.”

Outras freiras que conviveram com a Madre têm a mesma experiência. Elas falam dos ensinamentos, o encorajamento e de uma mulher preocupada com os mais necessitados, não apenas da comunidade local, mas do mundo inteiro.

A morte

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Jornal Folha de Londrina, publicado após a morte da Madre. Reprodução: Arquivo CDPH UEL.

Os jornais de Londrina noticiaram, em 22 de julho de 1980, a morte de Madre Leônia. A notícia da colisão do carro que a freira estava com irmãs, em Cambé, se espalhou rapidamente. O automóvel colidiu com uma carreta em alta velocidade em uma via com pouca visibilidade. As irmãs estavam indo para Maringá em missão. Quem conta o acidente é a Irmã Aparecida de Lourdes Arado

“Tínhamos terminado de almoçar quando o telefone tocou e me avisaram, mas ninguém falou o que realmente havia acontecido. Apenas que o acidente tinha sido grave. Quando chegamos ao hospital, entrei e vi uma das irmãs que estavam no carro. Caminhei até ela, a vi de hábito rasgado e toda ensanguentada. Ela me disse, transtornada: ‘Filha, vamos ser fortes. A Madre se foi. ’ Fui ao local em que ela estava, e ali, vi seu corpo. Aquilo foi…”. silêncio.

Bispos, religiosos, políticos e moradores de Londrina e de outras cidades do Brasil compareceram para o velório e enterro de Madre Leônia Milito, que morreu aos 67 anos.

O legado

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Busto da Madre Leônia Milito. Fotografia: Rodrigo Nolasco.

Madre Leônia foi uma figura importante no cenário londrinense, não apenas pela sua trajetória de vida, mas, principalmente, pelo seu legado. A ajuda aos mais necessitados, a busca e acolhida das novas vocações religiosas e o partir em missão são marcas deixadas por ela em Londrina. Atualmente, as irmãs da cidade realizam, constantemente, serviços comunitários e auxiliam diversos setores como saúde e educação.

O Asilo São Vicente de Paulo de Londrina, que contou com a ajuda de Madre Leônia para sua fundação em 1960, presta serviços em tempo integral para idosos em situações de abandono e vulnerabilidade social de Londrina e região. São as irmãs Claretianas que mantêm a instituição e são as responsáveis pela administração interna da obra.

A congregação também é responsável pela Casa de Apoio Madre Leônia, que acolhe pessoas com câncer vindas de outras cidades para tratamento no Hospital do Câncer de Londrina. Na casa, são atendidos que não têm condições financeiras para se hospedar na cidade durante o período de exames e tratamento da doença. Os acolhidos recebem, diariamente, café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche da noite, além de espaço para higiene e conforto para as famílias do paciente.

A obra é mantida com recursos de quatro prefeituras da região, incluindo a de Londrina, e da Paróquia Nossa Senhora das Graças. Para ajudar nas despesas, a casa conta com um bazar de usados e doações de toda a comunidade londrinense.

Santa ou não, Madre Leônia deixa como legado o exemplo de vida a ser seguido não apenas por católicos, mas por pessoas que lutam por um mundo melhor onde o preconceito tenha fim e a igualdade social e racial seja preocupação mundial; um mundo em que a religião, mesmo tendo a sua importância na vida do ser humano, não seja motivo de guerra e opressão, exclusão e distinção. Um mundo com menos ódio, em que as pessoas se amem e respeitem mais.

Galeria

Veja imagens da casa onde viveu Madre Leônia, objetos pessoais e seu túmulo. Fotografia: Rodrigo Nolasco.

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