Perto e longe, ao mesmo tempo

No mundo dos dispositivos digitais e da conexão virtual, a tecnologia aproxima quem está longe e afasta quem está perto

Reportagem: Marcela Pistori, 4º ano norturno
Edição: Lucas Matheus, 4º ano norturno

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Imagem: Pawel Kuczynski.

São milhares de reclamações por dia. As mensagens não chegam ao mesmo minuto em que são enviadas. As ligações só dão fora de área. A internet não dura o quanto deveria durar. As operadoras comem os créditos de clientes e muitas outras. Quase ninguém se opõe e o mundo não consegue mais viver desconectado.

Com a oferta dos planos e operadoras, qualquer um pode ligar para qualquer lugar da cidade, do país e do mundo. São horas de conversas por alguns poucos reais. Uma grande vantagem para nós, animais sociais, que não precisamos acordar de madrugada para aproveitar preços mais baixos por alguns minutos de ligação.

Também não é preciso andar algumas quadras atrás de um telefone público, feio e sujo. Mesmo sem crédito, sempre teremos o bom e velho amigo a cobrar
Pode ser por WhatsApp ou as já esquecidas mensagens de texto, pessoas se falam durante todo o dia e toda a noite, de qualquer lugar para qualquer lugar, em minutos e até segundos.

Saudade das folhas decoradas, às vezes até perfumadas, que traziam de longe o amor, a tristeza, a saudade ou a felicidade de quem os olhos não alcançavam. A ansiedade da espera, dia após dias, para o carteiro chegar finalmente ao seu destino, a sua caixa de correio.

Ainda que você não esteja comigo, eu posso vê-lo. Posso observar os seus movimentos, seus dentes sorrindo ou sua cara triste. Posso ver suas lágrimas escorrerem, enquanto você lamenta por não poder vir no próximo feriado. Eu posso ver tudo. Louvado seja o olho que tudo vê, a santa webcam. O espelho mágico dos tempos modernos.

São tantas solicitações, tantas mensagens não lidas, várias curtidas. Então, por que você está chorando, por que se sente tão sozinha? Ela curte todas as minhas fotos, mas não me cumprimenta quando cruza comigo pela rua. E de que adianta os milhares de amigos no Facebook, se nenhum deles pode leva-lo ao cinema de sábado à noite? Ou convidá-lo para o almoço de domingo?

Acho engraçadas essas pessoas que, mesmo quando não estão usando o celular, estão segurando o aparelho nas mãos. Chega a ser assustadora a quantidade de pessoas nas ruas de mãos dadas com os seus celulares. Nos ônibus, nas escolas, a cena se repete. Às vezes, fica difícil conhecer gente nova, quando todos estão ocupados com os amigos virtuais, com o número de curtidas nas fotos, com a pontuação no jogo ou com a quantidade de seguidores.

As três meninas estavam sentadas em roda, de pernas de índio. Uma magra, de pernas compridas; a outra, gordinha de cabelos loiros brilhantes; já a terceira, morena, com seu cabelo bem penteado, todo preto e liso, preso em um rabo. Cada uma com o seu celular em mãos. Os olhos fixos, o rosto sério, sem sorriso e sem barulho. Nada se ouvia. Nem risada. Nem choro.

O celular, que não é só celular, mas computador, rádio, câmera fotográfica, videogame, livro e qualquer outra função que quiser é, na verdade, um ente querido. Muito querido. Mais querido que os primos que você só vê no Natal, mas não sente falta durante o resto do ano. Mais legal que tias do “é pavê ou para comê” ou da “e os namoradinhos?”

O celular é mais importante que os colegas de sala que, provavelmente, você não sente falta nos finais de semana. Duvida? Deu aquele calafrio que percorre toda a sua coluna, quando você olhou e, por um segundo, o seu celular não estava mais lá? Este sentimento é a prova.

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Reprodução: rabiscando.com

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