Preconceito dificulta tratamento da Aids

Em Londrina, grupo de apoio e centro de referência trabalham para desmistificar a doença, que já foi conhecida como “câncer gay”

Reportagem: Márcio Jangarélli, 4º ano noturno
Edição: Lucas Matheus, 4º ano noturno

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Prédio que abriga o Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho, em Londrina.

Parte 1: Na sala de espera

Passar por salas de espera em hospitais é algo de praxe na vida de qualquer um. Para os nascidos e criados no Sistema Único de Saúde (SUS), fila é sinônimo de rotina. Porém, nenhuma delas é tão amedrontadora quanto a do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), do Centro de Referência em Aids Dr. Bruno Piancastelli Filho. O lugar é invisível.

Quando se é gay, a paranoia sobre o vírus do HIV é constante. Nos anos 1970 e 1980, criou-se um tabu, quando o “câncer gay” – como a mídia se referia ao falar da Aids – chegou como uma “resposta divina para toda essa indecência”. O estereótipo pegou e o medo ficou. Já tive horas e horas de conversa de comadre com amigos sobre o assunto e sempre a pergunta surgia: “você já fez o teste? ”. Grande parte responde com um sonoro não. Quando vinha a negativa, já emendava no “mas você sabe onde é feito o teste?”. Outro grande “Não” surgia aí. Houve afirmativas, principalmente, quando as pessoas eram calejadas de relacionamentos frustrados.

Depois de uma desilusão amorosa sem proteção, perguntei para um formando em Medicina e pesquisar na internet sobre o assunto. Foi aí que surgiu a localização do CTA. Surpreendentemente, passamos tantas vezes em frente, quando estamos no centro de Londrina e, para quem não sabe, o prédio da esquina da alameda Manoel Ribas com avenida Souza Naves é apenas mais uma construção antiga da cidade.

Subir a escadaria do prédio é um sacrifício. O lugar é diferente do que se pode imaginar. Segundo andar que carece de reforma e de investimento. O lugar lembra mais um ambiente escolar ou cartório do que um consultório médico. Cadeiras com o acolchoado rasgado, fazendo frente para uma sala de atendimento, a sala de farmácia e esquina para dois corredores.

Meu amigo sentou e, sem olhar para os lados, fui à sala de atendimento. “Você veio aqui para fazer o exame?”, perguntou a senhora atrás da mesa, em uma sala pequena, apertada, com outras três mesas. Em uma delas, uma garota já passava pela consulta.

Um questionário se seguiu. Entre as perguntas feitas, uma chama atenção: “Como você ficou sabendo do CTA?”. Respondi que um amigo tinha me indicado e procurei na internet. Aquilo me deixou com um sentimento estranho. Eu perguntei o por que. “Nós não temos divulgação, então é bom saber por onde a informação vem.”

O mundo conhece a Aids. Seja pela campanha de “extermínio divino da promiscuidade”, dos cultos religiosos, pela demorada exposição da mídia sobre o assunto ou das produções estereotipadas de Hollywood. O mundo apenas acha que conhece a Aids.

Por que um lugar tão importante, que trata de uma doença tão devastadora, não é divulgado? Está no coração da cidade, em área histórica. O Edifício Fuganti, do outro lado da rua; a Concha Acústica, a alguns metros de distância. Um acesso fácil. Porém, invisível. “É bom saber por onde a informação vem”. Qual é o problema aqui?

Parte 2: O resultado

A primeira entrevistada foi a médica que me atendeu no dia do teste. Rosângela Chagas, psicóloga, trabalha no setor de DST, AIDS e Hepatites Virais do Centro de Testagens e Aconselhamento de Londrina há 15 anos. Entramos em uma sala abarrotada, onde nos conhecemos, e, logo depois, para outra, maior e mais calma.

O começo da conversa foi técnico, sobre a transformação dos medicamentos e dos pacientes. Ela não pareceu surpresa com a cara de espanto que surgiu, quando falou da nova população que buscava tratamento. “Vi a evolução do tratamento. No início, eu tinha pacientes que tomavam de 16 a 30 comprimidos por dia, em horários intercalados. Hoje, nós medicamos com três drogas em um único comprimido e horários de 12 em 12 horas. Antigamente, tínhamos cápsulas realmente grandes, pouco palatáveis. Hoje são medicamentos com menores efeitos colaterais. Uma capsula só”, explica.

A profissional afirma que a terceira idade, antes pouco frequente no CTA, está aparecendo mais para a realização dos testes. “Hoje, a Aids atingiu essa categoria também, em virtude do Viagra, de permitir que essas pessoas se relacionassem mais e também corressem mais riscos”, diz.

Dar os resultados é uma tarefa árdua, explica a psicóloga. “Olha, eu sempre falo para as pessoas o seguinte: eu considero mais difícil dar um resultado negativo do que um resultado positivo. Aquela pessoa que está com o resultado não reagente volta várias vezes para cá. Então você está vendo que ela está correndo risco e não está tendo consciência da necessidade da prevenção e que, um dia, ela pode vir a ter um resultado reagente”, afirma.

Rosângela Chagas ressalta a questão do preconceito como algo ainda forte na sociedade. “A AIDS começou de uma forma muito sensacionalista. As pessoas não sabiam muito bem como lidar e alguns preconceitos, algumas informações erradas, vão passando de boca em boca e isso não é uma coisa fácil de extinguir. Receber um diagnóstico de HIV+ ainda é complicado para a pessoa. São vários tipos de reação. Pode ser apatia no início e, ao longo da semana, vai voltando e tomando consciência do diagnóstico. Mas, normalmente, as reações são de um desespero quando a pessoa não está esperando esse diagnóstico, mesmo sabendo que correu o risco”, diz

No fim, ela abriu um sorriso e reafirmou sua confiança no trabalho. “A experiência nos dá a possibilidade de falar para a pessoa que vai dar certo. Você passa essa tranquilidade, que a vida dela vai continuar, que ela vai seguir adiante, que ela vai conseguir realizar seus planos, que tudo vai funcionar, porque você vê que o medicamento realmente dá essa possibilidade”.

Parte 3: A doença na vida de uma jovem grávida

“Fica nessa mesma rua, uma portinha ao lado de uma pamonharia”, explica a Rosângela Chagas, sobre a localização do grupo de apoio aos portadores de HIV/Aids do Núcleo de Redução de Danos de Londrina. A portinha ao lado da pamonharia, tão comum e banal quanto o CTA, leva para dois lances de escada e uma porta no fim do corredor. O lugar tem uma recepção apertada, mas que desemboca em uma grande sala de reuniões, bem iluminada.

Cris, ela prefere não revelar o nome verdadeiro, é uma das participantes do grupo e estava bem nervosa. Enquanto falava, olhava para as mãos e para a mesa. Os dedos não paravam de mexer. Às vezes sozinhos, apoiados na superfície lisa, às vezes correndo pelo colar dourado que usava. Mulher, heterossexual, jovem e grávida. Ela quebra todo o estigma de “câncer gay” em torno do HIV. Descobriu o vírus em um exame de diabetes, pouco menos de umano antes, por conta de feridas no corpo.

Noiva na época, Cris foi abandonada pelo companheiro, o responsável pela infecção. “Eu cheguei em casa e perguntei para o meu noivo: ‘Você o fez exame? Você sabe como você está? ’ Ele disse que não, nunca fez exame. ‘Não tenho essas coisas’. Expliquei que o médico falou que era recente e a única pessoa com quem eu estava era ele. Primeiro, ele disse que eu não tinha. Depois, disse que não tinha passado nada para mim, que eu era quem tinha passado para ele”, explica.

Cris foi excluída do convívio familiar, quando descobriram a doença. Hoje, os familiares dela estão melhores informados sobre a transmissão do vírus. “Alguns ficam com nojo de ficar perto de você, principalmente, a família. Na hora, não pensei em contar para ninguém da minha casa. Só que minha mãe chegou na hora e viu que eu estava chorando, ficou nervosa e acabei contando”, afirma ela.

“Neste momento, senti um pouco de diferença em casa. Eles começaram a separar as coisas. Se eu fosse comer ou tomar água, já me faziam lavar, com medo de alguém usar. Eu tinha que usar um banheiro separado. Ficou assim até que trouxe minha mãe aqui [no grupo de apoio aos portadores de HIV/Aids] e o médico explicou. Eles tinham entrado na internet e visto muita coisa falando do HIV. Mas tudo sem sentido, sabe? Nada certo. Que só da lágrima da pessoa você já pegava. Até minhas roupas eram separadas para lavar. Foi difícil, viu”, desabafa.

Atualmente, Cris está noiva pela segunda vez e grávida. “A pessoa com quem eu estou hoje sabe. A mãe dele sabe. Só que eles falam que eu não tenho nada, que isso é coisa da minha cabeça, que é um exame que fizeram errado”, relata sobre o preconceito da família do noivo.

A parte mais complicada para um portador do vírus do HIV é tentar manter uma vida normal. O processo, para Cris, foi lento, mas progressivo. “Você fica se sufocando. Você tem que sair para dar uma volta, esquecer um pouquinho, sair de dentro de casa. Ou então você entra em depressão e começa a ficar ruim.”

“Sair de dentro de casa, porque parecia que eu estava presa. Aí comecei a vir para cá [no grupo de apoio aos portadores de HIV/Aids]. Tinha as reuniões de quarta, que eu comecei a frequentar e fui me soltando. Eles foram me dando força e me aconselhando. Falaram que eu não ia morrer por isso. Que era para continuar minha vida”, afirma.

A divisão de HIV/Aids do Núcleo Londrinense de Redução de Danos é coordenada pela psicóloga Maria do Carmo Maschimia. Ela acompanhou a história de Cris desde que chegou ao grupo de apoio. “Quando a Cris chegou, ela estava realmente sem chão. Ela veio para cá e toda quarta-feira nós temos um grupo de apoio para as pessoas convivendo com HIV/Aids. […] foi aí que ela começou a se fortalecer. Ela melhorou, conheceu essa nova pessoa, já estão morando juntos. Hoje é marido dela e está vindo um bebezinho aí”, afirma.

Toda essa realidade melancólica está coberta pelos panos da banalidade do centro da cidade. Apoiada em antigos tabus e no medo, a vida do soropositivo é cruel e invisível, quase 40 anos depois do grande surto. “Casos como o da Cris há vários. A tristeza, a decepção e a exclusão, quando se pega o resultado, são muito fortes. O apoio que precisaria da família não é encontrado.

“Não só ela. Todos que chegam aqui também foram discriminados, passaram por isso de separar copo, xícara, talher, tudo. A gente tem que ver que a pessoa convivendo com HIV/Aids é uma pessoa normal, com direito à dignidade, saúde, a tudo. É uma doença como qualquer outra”, explica Maria do Carmo.

Parte 4: A doença na vida de Parrudo35

Antes mesmo tentar a entrevista no CTA, estava preocupado quanto a outras fontes. Não adianta ouvir apenas a voz profissional no assunto. Precisava ouvir uma voz de vivência. Em um momento de ócio, fuçando pelos aplicativos do celular, lembrei que tinha visto o Parrudo35 no Scruff, aplicativo de encontro gay. No seu perfil, ele afirmava ser soropositivo. Puxei conversa. Depois dos cumprimentos de sempre, fui sincero com o rapaz e ele topou conversar comigo, sem nomes.

Parrudo35 é de São Paulo, tem 35 anos e estava em Londrina a trabalho. Na tentativa de entrevista, a franqueza daquele homem desconhecido surpreendeu. Ele afirmou que foi diagnosticado há dois anos, mas não tinha certeza se o vírus estava no seu corpo há mais tempo, pois nunca gostou de usar camisinha. Disse que não ficou tão abalado com a coisa toda até os primeiros efeitos colaterais da medicação.

Perguntei se o HIV+ em seu perfil não espantava os pretendentes. Ele disse que, na verdade, aumentou o número de mensagens e o interesse. Sobre preservativos, afirmou que continua não usando, porque não acredita na história da reinfecção. E os parceiros? “Se eles não estão ligando para isso, não sou eu quem vai ligar”, afirma. O rapaz disse que alguns o procuram exatamente para serem infectados. Ele provou a informação com capturas de tela das conversas, que tinha guardado. Várias.

Serviço

O Centro de Testagem e Aconselhamento do Centro de Referência Dr. Bruno Piancastelli Filho fica na alameda Manoel Ribas, nº 01. O órgão realiza o teste rápido e de forma gratuita, de segunda a quinta-feira, às 10h.

O Núcleo Londrinense de Redução de Danos fica na rua Senador Souza Naves, nº 189, nas salas 12 e 13. Lá também é ofertado o teste rápido.

As reuniões do grupo de apoio para os portadores de HIV-Aids são às quartas feiras, as 20h. Mais informações nos telefones (43) 3378-0146 / (43) 3378-0147.

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