União entre futebol e política

Uma história de união entre futebol e política na busca pela democracia em tempos conturbados no Brasil

Reportagem: Robson Fridman, 4º ano noturno
Edição: Lucas Matheus, 4º ano noturno

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Fotografia: Reprodução Blog Citadini.

Falar do Corinthians não é só falar de futebol, títulos, gols, dribles e ídolos como Casagrande, Marcelinho Carioca, Neto, Rivelino e Sócrates. O time paulista também é sinônimo de luta, conquistas e derrotas que extrapolam as quatro linhas, por uma democracia que rompe regimes ditatoriais e autoritários.

Na década de 1980, o Brasil vivia seus últimos anos de ditadura militar. Desde a assinatura da Lei da Anistia, em 1979, o Brasil vivia um período de efervescência política e levante das classes sociais em combate ao regime. Em 1984, ocorreu uma das maiores movimentações populares da história do Brasil: as Diretas Já.

O povo foi às ruas em todo o Brasil para apoiar a Emenda Dante de Oliveira, que pedia eleições diretas para presidente em 1985. O projeto não conseguiu votos suficientes, mas a pressão exercida pelo povo garantiu que o fim da ditadura se tornasse real e também a conquista do voto direto. Neste contexto, surge a Democracia Corinthiana.

Em 1981, o Corinthians protagonizou uma experiência inédita de gestão compartilhada e democrática, intitulada de Democracia Corinthiana pelo jornalista Juca Kfouri, num debate sobre os rumos do clube, afirmando que, no Timão havia uma democracia vigente. O então publicitário do Corinthians, Washington Olivetto, aproveitou a ocasião e começou a utilizar o termo para identificar o momento pelo qual passava o clube, tornando a expressão uma marca.

A democracia de Parque São Jorge buscou maior participação de atletas e funcionários do Corinthians nas decisões do clube. O resultado foi a abolição da concentração para alguns jogos, a definição dos horários de viagem, a contratação de novos jogadores e as mudanças na comissão técnica. Do faxineiro ao presidente, o valor do voto era igualitário.

O movimento durou do final do ano de 1981 até o início de 1985. Os principais jogadores que encabeçaram o movimento foram Wladimir, Casagrande e Sócrates, sendo este último a principal figura representativa do movimento, não só entre os jogadores e dentro do clube, mas, especialmente, interligando o movimento à luta pela redemocratização no país.

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Fotografia: Reprodução Bumirakyat.

Dentro das quatro linhas, o Corinthians recuperou o prestígio do clube, que fizera péssimas campanhas nos campeonatos Paulista e Brasileiro de 1981. O Timão sagrou-se bicampeão Paulista em 1982 e 1983, além de ter chegado às semifinais do Brasileirão de 1982. Porém, o maior impacto da Democracia Corinthiana até hoje foi o auxílio na redemocratização do país. A demonstração de que é possível modificar um sistema mesmo sendo o elo mais fraco que o compõe.

O Brasil se indignou a partir da luta de alguns atletas como Sócrates, juntamente com jornalistas, como Juca Kfouri e de artistas, em especial pelo surgimento de bandas de rock, como Ultraje a Rigor, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana e Blitz. A música começou a ousar, denunciando a ditadura e a opressão de forma explícita. Junto, uma grande onda tomou as ruas, criando força, tomando corpo e ganhado voz, ao reconstruir as pontes da democracia.

Certamente esse feito histórico para o povo brasileiro, somente pôde ser alcançado pela participação ativa desses artistas, jornalistas e atletas que emprestaram sua imagem e prestígio como espelho refletor da vontade popular. Que audaciosos! marcharam e juntaram um contingente capaz de superar as primeiras barreiras impostas pela grande mídia que num primeiro momento tentaram abafar a voz do povo reverberada por eles.

A mídia hegemônica não resistiu à força vinda povo a seus representantes e teve que recuar, noticiar, render-se à energia emanada pela voz das ruas, que gritava por Diretas Já! Como não olhar para esse contexto histórico e não o relacionar ao atual momento vivido pelo Brasil?

Dias de incertezas políticas, sociais e econômicas. Tempos de cólera inconstitucional. Tempos de um impedimento político questionável. De governos e desgovernos cada vez mais corruptos. De Lava-Jato que quanto mais esfrega a sujeira política, mais lama encontra. Mais lama da cultura de corrupção da política brasileira. Lama espessa e perigosamente movediça.

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Fotografia: Reprodução: Mídia Ninja.

Em tempos de ditadura, havia Sócrates, Kfouri, Ultraje a Rigor, entre outros porta-vozes do povo. Porta-vozes que não se calaram diante do poder ditatorial imposto. Hoje não se vê nenhum jogador que, de punhos cerrados e erguidos, independentemente de estar certo ou errado, expunha sua opinião, e não se esconde atrás de seu posto, de seu alto salário, de sua condição econômica elevada pelo futebol, nem atrás dos títulos pelo Corinthians.

São tempos de censura que começam dentro de cada indivíduo, que luta apenas por suas próprias causas e interesses. Indivíduos que censuram a oportunidade fulgurante dada pelas redes sociais, das novas mídias que possibilitam o exercício da liberdade de expressão e da criação de novos contingentes que marchem contra o retrocesso vivido.

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