Saúde ainda registra violência obstétrica

Saúde suplementar e saúde pública naturalizam procedimentos de rotina que ferem a autonomia da mulher

Reportagem: Beatriz Brito e Jessica Doarte, 4° ano noturno
Edição: Brenda de Oliveira, 4° ano noturno

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No segundo parto, Renata decidiu ter a filha Lara em casa. Foto: Lucas Meyer.

O corpo feminino tem como função biológica principal a geração de uma vida. Entre os processos da maternidade, a gestação e o nascimento são de extrema importância, no que diz respeito ao desenvolvimento daquelas vidas de ali por diante. Tratando-se de relações sentimentais e físicas, esses momentos acabam sendo inesquecíveis. No parto, a mulher está rumo ao desconhecido, sentindo-se totalmente vulnerável; passa por contrações e dores intensas até o nascimento do bebê. Por vezes, nessas situações, mulheres são submetidas a agressões verbais, recusa de atendimento, privação de acompanhante, lavagem intestinal, raspagem dos pelos, jejum, episiotomia (corte cirúrgico feito no períneo) e separação de mãe e bebê saudável após o nascimento. Esses são alguns dos procedimentos que caracterizam violência obstétrica.

Apesar de terem sido por anos praticados procedimentos que se tornaram rotineiros e banalizados por profissionais da medicina — práticas essas traumatizantes com relação ao pré-natal, parto ou pós-parto — ainda são mantidas no atendimento a muitas mulheres. Por falta de informação e diálogo com médico, a maioria das mulheres não sabe que está sendo submetida a um procedimento que não precisa, ou, até mesmo, não sabe que passou por violência obstétrica pela naturalização desses procedimentos.

Em novembro de 2013, uma cartilha voltada à conscientização sobre a violência obstétrica foi publicada pela Escola de Defensoria Pública de São Paulo, em parceria com o Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher e a Associação Artemis. Na cartilha “Violência obstétrica: você sabe o que é?”, são identificadas formas de violência mais comuns contra a mulher no parto.

Entre as formas de violência registrada estão a peregrinação em busca de leitos em hospitais; o impedimento da presença do acompanhante escolhido pela mulher; procedimentos que incidam sobre o corpo da mulher causando dor ou danos físicos (como indução do parto mediante administração do hormônio ocitocina por conveniência médica, sucessivos exames de toque por pessoas diferentes, corte vaginal – episiotomia–, imobilização de braços e pernas).

A cartilha ainda enumera outras formas de violência: ações verbais que causam humilhação e provocam sentimentos de inferioridade e medo; cesariana sem indicação clínica e sem autorização da mulher; impedimento ou retardo do contato da mãe com o bebê logo após o nascimento e impedimento do aleitamento materno, ambos por conveniência institucional.

Pesquisa divulgada em 2010, pela Fundação Perseu Abramo, mostra que uma em cada quatro mulheres sofrem algum tipo de violência durante o parto. Segundo esse estudo (“Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”), as violências mais comuns são procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e até negligência.

Renata Santana, 32 anos, teve a primeira gravidez planejada em 2010. Ela diz que se preparou e pesquisou sobre o parto com antecedência. “Eu não tinha noção do que era nascer no Brasil até eu ficar grávida do meu filho. Nunca tinha me questionado sobre. E quando eu engravidei do Kauê, comecei a ver que era difícil parir neste país. Que a maioria das assistências ao parto terminavam em cesárea”, conta.

Renata diz que, durante as consultas, seu médico obstetra falava que ela teria que ir ao hospital pedir autorização para que seu companheiro pudesse entrar na sala de operação com ela, para que não houvesse problemas caso o parto ocorresse durante a madrugada, como aconteceu. “Na hora que fui fazer o parto, eu sabia que poderia ter um acompanhante, sabia da legislação, mas na hora você não consegue enfrentar alguém exigindo isso. O médico negou que meu companheiro entrasse, justificando ser um parto de risco. E eu fui sozinha”, relembra.

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Áurea, vítima de violência obstétrica no parto dos quatro filhos. Foto: Lucas Meyer.

No segundo parto, Renata decidiu parir em casa, pois o ambiente hospitalar era traumático devido à primeira experiência. A filha, Lara, nasceu no quarto do casal, com acompanhamento de uma doula e uma esquipe de enfermagem. Só assim o tão desejado parto natural, humanizado e sem intervenções desnecessárias, foi possível.

Na maioria dos casos em que acontece algum tipo de violência obstétrica, a gestante é tratada como coadjuvante por profissionais de saúde. A mulher não consegue ter direito de escolha, e lhe são impostos procedimentos que impactam no processo natural do parto. Áurea Pinto, 59 anos, teve o segundo filho em 1979 e foi submetida a diversos exames de toque desnecessários e invasivos.

“O médico me examinava sem qualquer cuidado. E me tratou muito mal, dizia para eu parar de reclamar de dor, gritava comigo e fez eu me arrumar sozinha para o parto. Fez uma epiosiotomia sem me questionar e, no momento de costurar, eu sentia quando ele enfiava a agulha e puxava. Eles acham que porque você é pobre, não precisa de explicação. O médico não tinha sensibilidade nenhuma para lidar com uma mulher grávida”, recorda Áurea.

O papel da doula

Jéssica Specioni, 26, é doula em Londrina. Doulas são profissionais que prestam cuidados específicos à mulher durante a gestação, trabalho de parto e pós-parto. Ela afirma que a raiz do problema está no sistema patriarcal de sociedade. “O parto é um reflexo de como a mulher é vista e tratada na sociedade. É óbvio”, diz. Jéssica ressalta a importância do protagonismo da mulher durante o parto, que tem seu saber ignorado em detrimento das conveniências da equipe de saúde.

Sobre os relatos que já ouviu de mães, conta que o tipo mais comum de violência é a agressão verba. O maior e mais grave, segundo ela, é a cesariana desnecessária. “A Organização Mundial da Saúde prevê um número de 15% de cesáreas. Quando elas realmente são necessárias. Que bom que elas existem para salvar vidas, mas nos hospitais particulares esse número chega a 90%. Algumas mulheres escolhem isso, mas elas escolhem baseadas em quê?”, questiona. A doula atenta, ainda, para a pressão psicológica que os obstetras exercem sobre as mulheres e o medo que é implantado em relação ao parto natural.

A pesquisadora de assistência ao parto, Ana Carolina Franzon, especifica a violência obstétrica de acordo com a descrição de uma lei venezuelana, que tipifica criminalmente essas práticas. Ela questiona o tipo de assistência ao parto que o Brasil distribui nas unidades de saúde. “A gente tem um modelo de atenção ao parto que pode ver em uma descrição clássica e teórica da violência obstétrica. É quando os profissionais de saúde se apropriam do corpo das mulheres, dos processos reprodutivos e tomam a decisão por elas, cerceiam a liberdade de escolha das mulheres”, explica.

Ela ressalta ainda a importância do acompanhante durante o parto, direito garantido por lei mas que, em grande parte dos casos, é desrespeitado pelos hospitais. “Quem tem acompanhante fica mais protegida de intervenções, como o uso de ocitocina. As mulheres que estão com acompanhante precisam menos de analgesia, ou seja, aumenta o limiar delas para a dor, diminui o número de episiotomia, as horas de internação. E, em última estância, o acompanhante é uma testemunha do cuidado que está sendo prestado para uma mulher em trabalho de parto”, complet

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