Pressão na vida acadêmica pode prejudicar saúde mental de estudantes

Texto e vídeo: Ana Luiza Morette

Noites de sono mal dormidas, refeições rápidas e artificiais, falta de tempo para o lazer com família e amigos, sentimento de culpa por gastar tempo com outras coisas que não os estudos – parece uma realidade comum entre os jovens universitários, afinal, quem nunca abriu mão de atividades pessoais para responder às cobranças da faculdade?

O fato é que esta é uma realidade comum e por isso tanta gente crê que é aceitável. No entanto, entregar-se à pressão da vida acadêmica é perigoso e, por mais comum que pareça, não é normal. Essa rotina que restringe a vida dos alunos tem outros reflexos além da vida corrida: a saúde mental dos estudantes está sendo comprometida: segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), 30% dos alunos de graduação de universidades federais procuraram atendimento psicológico em 2014 e mais de 10% recorreram a medicamentos psiquiátricos.

O impacto crescente da vida acadêmica na saúde mental dos estudantes não pode ser considerado um fenômeno recente, apesar das pesquisas indicarem números da última década. Quem explica é a psicóloga Carla Pagnossim, que atua no Serviço de Estar à Comunidade (Sebec) da UEL (Universidade Estadual de Londrina): “Eu acho difícil falarmos em crescimento, porque precisaríamos de um estudo que nos permitisse comparar a realidade de agora com a de dez, 20 anos atrás e dizer se eles estão crescendo ou estão aparecendo. Mas de qualquer forma, o que está havendo é um crescimento de demanda – pode ser que há dez anos as pessoas também tinham sofrimentos causados pela faculdade, mas não era tão falado”.

Além disso, a psicóloga explica que sofrimentos mentais externos à faculdade podem se agravar com a graduação, não sendo necessariamente causados por ela. Carla explica que é o caso de alunos que se encaixam nas políticas de inclusão: os discentes cotistas, por exemplo, tendem a sentir os reflexos do racismo e do preconceito também dentro de sala de aula; ou ainda os alunos de classes sociais mais baixas, que tendem a desenvolver novos sofrimentos em períodos de crise econômica. A falta de estrutura das universidades para tratar a exclusão dos alunos torna o problema mais amplo: “Se estudantes tivessem condições de acesso e permanência, sem precisar trabalhar para estudar, bolsas para se alimentar, tirar xerox, bibliotecas equipadas; professores preparados, recebendo salários, plano de carreira, reajustes; espaços equipados e adequados, daí poderíamos tratar os vários casos de suicídios e tentativas dos estudantes e dos professores, os diversos casos de Burnout [ou síndrome do esgotamento profissional], como uma questão individual ou de categorias”, considera Manoel Dourado Barros, docente dos cursos de comunicação social da UEL.

No entanto, não é preciso estar inserido num contexto de exclusão para sentir os efeitos da faculdade. “O momento de fazer uma graduação representa vários acontecimentos na vida: é o momento que eu escolho uma profissão, que estou me desligando da adolescência, do ‘script’ do ensino médio, é a hora que o tipo de educação representa um salto, uma mudança”, acrescenta Carla. “É preciso entender que os desafios na universidade são maiores: exige mais esforço, mais criatividade, mais autonomia, as matérias ficam mais complexas por conta do aprofundamento da área que você escolheu. Ou seja, a complexidade é maior e se adaptar a isso já causa uma tensão, não necessariamente um sofrimento mental.”

A influência do comportamento dos professores

Carla considera que o próprio acolhimento da faculdade, seja de colegas de curso ou de professores, pode gerar reflexos no psicológico do aluno – estar em um lugar em que dizem que você não é capaz, por exemplo, torna a missão de ocupar este lugar muito mais difícil. Foi o caso da estudante Giovanna Capovilla, aluna do curso de enfermagem da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Botucatu (SP). Ela afirma que mudar de cidade já era uma missão difícil, que tornava-se ainda mais complicada já que ela foi aprovada depois do início das aulas. O que mais pesava, no entanto, era a falta de colaboração de colegas e professores: “Tínhamos provas práticas, nas quais alguns professores até mesmo humilhavam alguns alunos e questionavam ‘o por quê do aluno estar cursando enfermagem, já que não possuía dom algum’”, relembra. A estudante conta ainda que muitos professores exigiam que os alunos participassem de atividades extraclasse em um curso que já era integral: “Eles faziam com que eu tivesse que ficar na faculdade das 8h às 22h”.

Este comportamento por parte dos professores é reflexo também de uma cultura antiga no universo acadêmico. “Para muitos docentes, uma universidade bem feita é aquela em que se tem uma grande exigência de trabalhos e provas”, afirma Carla Pagnossim. É dessa posição dos docentes que muitos conflitos e problemas surgem: durante a produção desta reportagem, uma estudante do curso de medicina da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) cometeu suicídio e, dentre as dificuldades apontadas por colegas de curso, estava a alta exigência dos professores. “Nesse caso, as reclamações são direcionadas aos professores que, insensíveis diante das dificuldades dos estudantes, adotam a exigência absoluta como método – e se vangloriam de reprovar estudantes”, se posiciona Barros.

Taynah de Lara, também aluna da Unioeste, fez uma declaração sobre o falecimento da colega de faculdade no Facebook e falou sobre o comportamento dos professores: “Eu vi professores se vangloriando na sala de aula porque reprovaram uma turma inteira, e é claro que o problema não era o professor ou a metodologia, era a turma”. Os reflexos causados na saúde mental dos estudantes são nítidos. Em sua publicação, Taynah relata que deixou de comer e de dormir até perceber a necessidade de um tratamento psiquiátrico para as suas crises de pânico e ansiedade: “Cheguei num ponto onde eu simplesmente atingí [sic.] o limite de estresse que meu corpo é capaz de aguentar. Não dormia, não comia, não conseguia parar de tremer e estar calma era algo fora da minha realidade. Hoje me sinto melhor, tendo clonazepam, fluoxetina e alprazolam [medicamentos para tratamento de ansiedade e depressão] do lado da cama, pra quem quiser ver, mas a única coisa que meus professores são capazes de enxergar é se meu histórico acadêmico está impecável”.

Ontem foi a Julia, amanhã será o João, depois a Maria, mas são VOCÊS quem puxam suas cordas.

Taynah de Lara, estudante universitária

 

Os estudantes pelos estudantes

A preocupação com a saúde mental começou a crescer quando os colegas de turma passaram a compartilhar suas experiências e a perceber que não eram os únicos passando por sofrimentos. “No ano passado, em 2017, alguns estudantes do CCS [Centro de Ciências da Saúde], de medicina e farmácia, começaram a trocar ideias sobre como estavam desgastados com a universidade e como estavam havendo repercussões sobre a nossa saúde mental”, conta Everton Rocha, aluno do curso de medicina da UEL e integrante da Frente de Saúde Mental. Foi a partir dessas conversas que surgiu a necessidade de criar um grupo para abordar questões referentes à saúde mental dos alunos. “Esse encontro recebeu o título de Saúde Mental do Estudante da Saúde, mas no fim houve alunos de outros cursos que tinham ansiedades bem semelhantes, se não as mesmas em diversos pontos”, conta.

A partir desse encontro, surgiu a Frente de Saúde Mental da UEL. O grupo organiza encontros que debatem a saúde mental dos estudantes, além de oferecerem momentos para práticas terapêuticas, como oficinas de ioga e meditação. O grupo também promove campanhas de acolhimento para que os alunos se identifiquem com os colegas e entendam que não estão sozinhos no seu sofrimento.

 

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Na UEL, alunos praticam meditação na busca pela saúde mental (Crédito: Divulgação)

 

Foi dessa inspiração que surgiu a campanha #IstoNãoÉNormal, realizada pelos alunos de artes cênicas da UEL. O painel montado pelos alunos relembra práticas e pensamentos comuns dos estudantes que não devem ser consideradas normais, mas sim motivo de alerta.

 

 

Painel tenta conscientizar alunos sobre saúde mental na UEL (Crédito: Ana Luiza Morette)

 

Não é normal ficar sem comer, sem dormir, sem sair de casa ou sem se divertir porque precisa estudar. Estes comportamentos podem, inclusive, começar a refletir na saúde física dos estudantes: gastrite, enxaqueca, insônia, perda ou ganho de peso são comuns em quem está vivendo esse estresse acadêmico. “A ansiedade não vem sozinha, ela te traz aumento ou perda de peso, e isso te leva há um desconforto e descontentamento com seu corpo, com sua autoestima, são dores de cabeça, insônia frequente e gastrite”, declara uma estudante do curso de arquitetura e urbanismo da UEL que prefere não se identificar. “Uma coisa leva a outra. Você não dorme ou dorme mal, aí você não rende no dia seguinte, acumula tarefas, se sente inútil, come mal, desencadeia um ciclo sem fim.”

Por enquanto, a resposta das universidades como instituição é quase nula. Carla Pagnossim, psicóloga do Sebec, explica que ainda não existem políticas institucionais que tenham a saúde mental como pauta: “O que existe é o atendimento aos alunos, pelo Sebec e pela Clínica Psicológica da UEL e também as práticas terapêuticas, como as tardes de ioga e de meditação”. A limitação não é falta de vontade das equipes das universidades: na UEL, somente duas psicólogas atendem pelo Sebec e os processos de contratação de novos profissionais foram congelados pelo então governador do estado do Paraná, Beto Richa (PSDB). O diálogo com os professores também segue limitado, tanto por parte da universidade quanto dos alunos: desapegar-se dos antigos hábitos ainda é uma proposta distante para muitos docentes.

No mais, sem a empatia do corpo docente e dos administradores das universidades, vai seguir com os alunos a responsabilidade de cuidarem de si e de sua saúde mental, tentando não sucumbir às pressões que a graduação representa. A seguir, o depoimento e conselhos da estudante Giovana Abelha, também aluna do curso de arquitetura e urbanismo da UEL, que luta pela discussão sobre a saúde mental dentro do contexto universitário.

 

 

SERVIÇO

Sebec (UEL): (43) 3371-4452

Clínica Psicológica (UEL): (43) 3371-4237

Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (a ligação é gratuita)

 

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