Progressista, Amlo ganha eleição presidencial no México

Texto: Bárbara Borowski

 

ABERTURA

A eleição presidencial ocorreu no México no último 1º de junho (Foto: Bárbara Borowski)

 

Andrés Manuel López Obrador (ou Amlo) é o presidente que mais recebeu votos na história do México. Cerca de 30 milhões de pessoas depositaram sua confiança no político que prometia mudar o país, governando-o para o povo e combatendo a “máfia do poder”. Representando a coligação Juntos Haremos Historia (Juntos Faremos História, formada pelo Movimiento de Regeneración Nacional, o Morena; o Partido del Trabajo, o PT; e o Partido Encuentro Social), ele não só desbancou seus oponentes com 53,8% dos votos, mas também ex-presidentes: Enrique Peña Nieto foi eleito em 2012 com 19 milhões de votos; Felipe Calderón, em 2006, com 15 milhões.

Foram também as maiores eleições da história do país, com 18.299 cargos em disputa entre níveis federal e local. No federal, Juntos Haremos Historia também conquistou a maior parte dos cargos no Senado, 53 de 128, e 210 dos 300 deputados eleitos por voto direto – há mais 200 cargos por representação proporcional.

 

A cédula de voto e o aviso de que o mesmo é secreto e livre no México (Fotos: Bárbara Borowski)

 

“Dizem que é pra votar pelo Morena, né? Sei lá, pra dar uma melhorada. Foi o que me falaram. Todos os meus amigos e minha família vão votar por ele. Acho que vou votar pelo Peje também”, me contou o taqueiro Luis González, 38, enquanto víamos uma apresentação de música típica em Guadalajara, Jalisco, em junho. Peje é outro apelido dado a Amlo pelo estado de onde é originário, Tabasco, onde “pejelagarto” é um peixe típico. Até estas eleições, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) ocupava 40% e 43% da Câmara dos Deputados e do Senado respectivamente. A isso se refere González quando fala sobre mudança, desbancar o partido oficial.

O PRI era hegemônico desde 1929, e há 30 anos vem perdendo paulatinamente influência. Para se ter uma ideia, até 1989 todos os governadores das 32 entidades federativas pertenciam ao tricolor, como é conhecido por trazer as cores verde, vermelho e branco, as cores da bandeira do país. Foi em 2000 que perdeu pela primeira vez a candidatura à presidência, ganhada por Vicente Fox do conservador Partido Acción Nacional (PAN). O modelo mexicano institui que o chefe do Executivo governe o país por seis anos, sem direito à reeleição. Assim, o PAN se manteve no poder depois com a eleição de Calderón, que governou até 2012. Peña Nieto, do mesmo partido, foi o presidente no sexênio 2012-2018 e parece ter manchado a imagem do partido de maneira irreversível.

Ray Iglesias, 24 e universitária, declarava-se categoricamente a favor da continuidade em um bar na Cidade do México: “Pode falar o que quiser, eu sou priista”. Antonio Meade, candidato da coligação Todos por México (PRI, Partido Verde e Nueva Alianza), recebeu 16,4% dos votos. Votar por ele ou qualquer candidato pertencente ao partido, para todos com quem conversei, à exceção de Iglesias, parecia ser um crime contra a pátria. “Ela deve gostar do PRI porque deve ter parente lá”, protestou a vendedora Brenda García, 44.

García não ia votar nem pela situação, nem pela oposição. Seu candidato era Ricardo Anaya, da coligação Por México al Frente (Por um México à Frente, formada por PAN, Partido Revolución Democrática, PRD, e Movimiento Ciudadano). “López Obrador vai anistiar os bandidos, tem tendência autoritária. É contra a construção do novo aeroporto da Cidade do México, que vai trazer investimento. Também quer promover programas sociais, que acabam deixando as pessoas mais folgadas. Anaya me parece melhor preparado”, dizia enquanto esperávamos na rua depois de um alerta sísmico na capital. Entre todos os mexicanos com que conversei sobre política, era quase unanimidade que Anaya era um ótimo orador – apesar de, na maioria das vezes, o elogio ser seguido de insultos como “asqueroso”, menção ao seu meme da flauta ou dizer que PRI e PAN eram equivalentes, o Prian. Ele obteve 22,2% dos votos.

Nem todos de orientação progressista viam a Amlo como algo novo. A orientação do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), referência da esquerda mexicana, era boicotar o 1º de julho. Eles tentaram participar do processo com a indígena María de Jesús Patricio Martínez, Marichuy. A candidatura independente não foi possível sem a quantidade necessária de assinaturas, 866.593.

Conversei sobre López Obrador com dois chiapanecos, de Chiapas, estado de origem dos zapatistas. Mauricio Camacho, 30, engenheiro de áudio e ex-membro do EZLN, discordava da abstenção como protesto: “Até entendo a posição, mas se você não vota pelo Obrador, nem por ninguém, quem pode ganhar? O PRI, de novo, ou o PAN, que me parece pior que o partido [PRI]”. Já Romulo Notorio, 41, professor da rede e simpatizante do EZLN, comentou: “Acredito, sim, no Obrador. Mas acho também que é muito conveniente pro sistema que ele ganhe. Ou seja, é necessário um respiro, senão vai ter guerra. Ninguém acredita direito nos outros partidos que não sejam o Morena”. Era notável nas ruas de Chiapas o apoio massivo ao Peje, por cartazes, bandeiras e pichações, diferentemente de Guadalajara e Distrito Federal, onde parecia estar mais equilibrada a disputa entre ele e Anaya. Mas, por fim, o único dos 32 estados em que o tabasquenho perdeu foi Guanajuato. Confira, abaixo, uma peça publicitária não oficial da candidatura de Amlo.

 

 

Além dos três principais candidatos, que seriam muito bem explicados como representantes de PT, PSDB e PMDB na realidade brasileira, dois independentes tiveram a candidatura autorizada pelo instituto eleitoral. Foram Margarita Zavala, esposa do ex-presidente Calderón, e Jaime Rodríguez, El Bronco. Ela prometia seguir os passos do marido, que começou com a guerra às drogas, e defendia um Estado mais forte. Entretanto, desistiu em meio ao processo alegando que, por não haver segundo turno no país, constar na cédula de votação era impedir que seus eleitores fizessem a escolha entre os que realmente poderiam governar. Já Bronco seguiu até o final e obteve 5,2% dos votos, mas fez muito mais sucesso por suas declarações – como cortar a mão de ladrões como política de segurança – do que nas urnas.

 

página oficial bronco para jovens

Imagem da página oficial de El Bronco no Facebook (Crédito: Divulgação)

 

Ao contrário do que propunham os independentes e os outros dois oponentes, a reconciliação é uma das principais propostas de Amlo. Defende a retirada do exército das ruas e anistia a condenados que escolham a reintegração na sociedade, dizendo que o modelo de combate à violência atual já faliu. Outro ponto-chave de sua campanha é a urgência de atender primeiro aos pobres, “para o bem comum, os pobres primeiro”. No campo pessoal, ele promete renunciar da residência oficial, de metade do seu salário e do avião do presidente – “nem Trump tem um avião como o de Peña”. Para quem não o apoiava, afirmações como estas o caracterizavam como populista.

 Este ano foi a terceira vez que o candidato concorreu ao cargo. Nas outras duas, em 2006 e 2012, ele perdeu como representante do PRD. Em 2018, o partido foi da coligação de Anaya. As derrotas nas eleições passadas foram denunciadas como causadas por fraude eleitoral. Isso só alimentou sua imagem como fomentador de mudança real.

A mitificação de Obrador pode explicar a quebra da apatia. Votar não é obrigatório no México – dos 89,1 milhões de cidadãos aptos, 56,6 milhões participaram do 1º de julho. Era interessante perceber que, por aonde passava, todos falavam de política, realmente envolvidos no processo, mas também me diziam que era algo recente. O clássico “se você pudesse, por quem votaria?” sempre era feito a mim em algum momento das entrevistas, geralmente seguido de “e o Brasil, hein? Tá melhor que aqui?” e, às vezes, “e Lula?”. Em 1º de dezembro, Andrés Manuel López Obrador será oficialmente nomeado presidente, sob o slogan “La esperanza de México”. Assim lhes respondia: não tinha opiniões, só inveja da esperança em pleno 2018. Eles riam. Que sigam assim, sonhando.

 

Comemoração à vitória de Amlo no México (Crédito: Bárbara Borowski)

 

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