Como encarar a presença do celular em sala de aula?

Texto, foto e áudios: Bruna Corchelli

 

O celular tornou-se uma ferramenta tecnológica presente em diversos contextos sociais, em razão da variedade de funções que o aparelho oferece, principalmente dos aplicativos de mensagens instantâneas e das redes sociais. Segundo a última atualização de dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), o Brasil encerrou o mês de maio deste ano com 235,5 milhões de celulares, equivalente a uma média de 112,68 celulares a cada cem habitantes. Ou seja, mais de um celular por pessoa.

O aparelho invadiu diversos cenários, transformando a dinâmica desses espaços em decorrência da tecnologia. Um exemplo é a educação, na qual a presença constante do celular em sala de aula tem alterado o método tradicional de ensino.

 

IMAGEM CEL 1 CRÉDITO REPORTAGEM

Nas salas de aulas, os celulares estão cada vez mais à vista.

 

No estado de São Paulo, o celular era proibido em sala de aula, segundo legislação estadual de 2007, porém, em outubro do último ano, o governador Geraldo Alckmin sancionou uma lei permitindo o uso do aparelho em sala para fins pedagógicos. Fato que ilustra como a tendência digital está, aos poucos, influenciando atualizações no sistema pedagógico do país.

A professora Diene De Melo, do Departamento de Educação da UEL (Universidade Estadual de Londrina), aponta uma tendência de que a educação absorva o celular como ferramenta de ensino, porém esse processo deve demorar muitos anos. Ela cita que o principal problema frente à questão é a forma como o ensino tradicional é fechado para diversas novidades, principalmente para a tecnologia do celular.

 

 

Diene cita que os professores tendem a pensar que o celular só atrapalha o processo de ensino, por isso o mais comum é o cerceamento do uso em sala a partir da proibição do aparelho no regimento interno da instituição.

A professora explica que ainda falta uma compreensão de como o celular pode contribuir para o ensino, e aponta que essa tecnologia deveria ser vista como ferramenta que contribui para a educação. Para isso são necessárias a criação de estratégias didáticas e as tentativas de inserção do celular como artefato de aprendizagem nas escolas, a fim de desmistificar o aparelho como sinônimo apenas de lazer e redes sociais.

A pedagoga ainda ressalta que não indica a proibição do celular, e apoia o uso em sala mediado por professores conscientes do papel dessa tecnologia na vida das pessoas. “Devemos ter experiências com o uso de celulares em sala de aula, por isso estamos trazendo essas questões no curso de formação de professores”, explica.

A professora relata uma experiência com uso de celular durante atividade didática em uma escola de Londrina.

 

 

Ela também acrescenta que essa tendência tecnofóbica dos professores não aparece apenas no Brasil, pois pesquisas internacionais demonstram essa dificuldade geral em pensar de forma pedagógica o uso de qualquer tecnologia em sala.

A pedagoga ressalta que o celular ainda deve ser naturalizado na educação, rompendo com a ideia de que tira atenção, atrapalha e desorganiza a aula. Mas acredita que esse processo deva demorar mais de cem anos, visto que os professores não são abertos a novas práticas, e ainda são poucas as experiências pedagógicas com o aparelho em sala.

A visão dos professores

Camila Artilha Rodrigues, professora de filosofia da rede estadual em Rolândia, conta que suas experiências com celular em sala não foram positivas. Diz acreditar que o aparelho pode ser um aliado na educação, mas aponta que em suas aulas para ensino médio o celular torna-se mais atrativo para o aluno do que a aula.

A professora explica que, por suas aulas serem teóricas, o celular dificulta que o aluno preste atenção na matéria, e por isso restringe o uso em sala.

 

 

Camila ainda aponta que o celular poderia ser usado em sala para mostrar vídeos e slides, já que nas escolas públicas os aparelhos multimídia costumam ser defasados. Porém, cita algumas barreiras, que em sua opinião impedem a inclusão do celular nas escolas, como a necessidade de que todos os alunos tivessem um smartphone com acesso à internet, pois o wi-fi das escolas não comportaria a demanda de todos os alunos. Além de que os jovens precisariam ter disciplina para usá-lo de forma pedagógica durante a aula.

Já Daniela Reis, professora de história em escolas particulares, afirma não ser contra o uso do celular em sala, e considera que é papel do educador trabalhar meios e metodologias para ensinar os alunos a enxergarem o celular como uma rica ferramenta de pesquisa e desenvolvimento do conhecimento.

A professora de ensino fundamental ressalta que sua conduta frente aos celulares depende do plano pedagógico da escola, mas afirma que busca trabalhar com o aparelho como ferramenta de pesquisa. Por isso, quando os alunos dispersam do objetivo, busca orientá-los para a proposta da aula.

Daniela ainda considera que a presença do celular mudou a forma pedagógica de ensino, e aponta que o educador deve adaptar-se à tecnologia, por meio de orientação e mediação da ferramenta em sala.

 

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