Após discriminações, descendentes de japoneses buscam por identidade

Texto, foto, áudio e vídeos: Bruno Nomura

 

Apesar de o nome não revelar, a fisionomia de Richard Gonçalves André denuncia as origens asiáticas. Da mãe, o lado nipônico, não herdou o sobrenome. Isso não impediu que o professor do Departamento de História da UEL (Universidade Estadual de Londrina) também vivesse situações recorrentes entre os “nikkeis”, descendentes de japoneses. “Ficava irritado quando as pessoas diziam ‘ô, japonês!’. Eu respondia ‘eu não sou japonês, não. Nasci no Brasil. Sou tão brasileiro quanto você’”, recorda Richard, aos risos.

Um episódio que marcou o professor aconteceu em uma das etapas do concurso que prestava na UEM (Universidade Estadual de Maringá). “Quando fui chamado para dar a aula, a pessoa falou ‘Richard, é você? Eu esperava um alemão de dois metros, esperava qualquer coisa e aparece um japonês aqui’”, relembra.

Mesmo que sempre tenha convivido com os estereótipos, Richard relata que não ligava muito para a cultura japonesa. Isso mudou quando ele começou a estudar a língua.

 

 

“Não tem como não se sentir descendente por conta dos olhos, né”, reflete Richard, citando Jeffrey Lesser, pesquisador das áreas de identidade e imigração. Segundo os estudos do historiador, não há como disfarçar a descendência nipônica. É como se, por conta da aparência, a sociedade reforçasse-a o tempo todo, mesmo que o indivíduo não carregue uma herança cultural.

Lesser criou ainda o conceito de “identidade inacabada” ou “hifenizada”. “Sempre essa questão do hífen entre o nipo e o brasileiro, ora estou aqui, ora estou ali, mas no fundo eu nunca sei onde estou”, explica Richard. Esse sentimento é potencializado entre os chamados “mestiços”, que têm descendência japonesa de um lado e não-japonesa do outro.

Se inicialmente os imigrantes não viam casamentos inter-raciais com bons olhos, hoje a miscigenação é um processo acelerado e irreversível. Comemorados em junho, os 110 anos da imigração japonesa no Brasil também refletem descendentes cada vez mais distantes das raízes nipônicas. Muitos nascidos nos últimos anos são a quinta geração desde a chegada dos primeiros imigrantes ao país. Aos poucos, a língua e os costumes da terra do sol nascente se diluem no cotidiano, criando descendentes com traços asiáticos na aparência, porém sem muitas referências culturais.

Reconexão com a própria história

Aos 58 anos, a premiada atriz Nena Inoue está completando quatro décadas de atuação nos palcos de Curitiba. Os olhos puxados são herança de um casamento proibido entre a mãe, “gaijin” (estrangeira), e o pai, “nikkei”. A união dos dois era tão mal vista pelos avós imigrantes que o pai foi enviado à Argentina para estudar medicina. Não adiantou: a mãe dela foi junto e Nena nasceu em território argentino.

Como o pai acabou deserdado, Nena cresceu sem contato com o lado asiático da família. É por isso que ela diz que não se sente muito descendente. “Como eu não tinha essa relação familiar, acho que não tive muito comparativo. Eu não olhava meu pai e via que era um pai japonês. Era meu pai e só. Eu entendia que era japonesa quando alguém me falava”, lembra.

Mesmo assim, nos últimos anos, Nena tem buscado conhecer as origens nipônicas. Ela contratou um profissional que está investigando a árvore genealógica da família.

 

 

O “brasileiro” no meio dos “japoneses”

O preconceito marcou duas vezes a história de Tercio Tokano. A princípio, os avós do advogado de 45 anos também foram contra o casamento do pai dele com uma “gaijin”. Depois, na infância, sua aparência com poucos traços asiáticos tornou-o alvo de bullying entre os próprios “nikkeis”.

 

 

Tercio reconhece que teve crises de identidade ao longo da vida, mas afirma que já se resolveu. Ele se identifica como branco nos formulários por acreditar que tem mais traços do lado materno.

Na década de 1990, quando foi trabalhar como decasségui no Japão, Tercio conviveu com vários “nikkeis” e observou um novo conflito de identidade. “Nossa comunidade brasileira trabalhava junto. Muitos, com todos os traços exteriores japoneses, não se sentiam japoneses. Eles revelavam exatamente esse conflito: aqui no Brasil eram os japoneses – vários, inclusive, tinham esse apelido. E lá no Japão eles não eram japoneses de forma alguma”, pontua.

 

A cor está nos olhos de quem vê

4.1 RHYE

Rhye Ishikawa, estudante de farmácia na UEL

 

“Aqui no Brasil você é ‘japa’, lá você é brasileiro”: esse sentimento de não pertencer nem aqui, nem lá, também foi vivido pela estudante Rhye Ishikawa, 21. Aos dois anos, ela se mudou com a família para o Japão. Quinze anos depois, Rhye retornou ao Brasil e concluiu o ensino médio.

A intenção da família sempre foi de voltar ao país. Por isso, Rhye estudou em escolas brasileiras no Japão e aprendeu a falar a língua portuguesa, o que facilitou a volta. Porém, depois de tantos anos em outro país, levou algum tempo até se acostumar à nova realidade. “Você fica dividida: uma hora você entende muito do Japão e não entende do seu próprio país”, relata.

Escolher entre as opções “branca” e “amarela” nos formulários também é motivo de dúvidas para a estudante.

 

 

A luta contra os estereótipos é a maior convergência entre os entrevistados pelo Pretexto nesta reportagem. O fato de ter um lado não-japonês não isenta os mestiços de sofrerem com os mesmos comentários ouvidos por quem tem pai e mãe “nikkeis”.

“Beleza exótica”

Segundo o dicionário Michaelis, “exótico” denomina o que não é natural do país onde vive ou o que é excêntrico. A agricultora Mariane Hara, 28, precisou aprender a lidar com o termo. Mesmo sabendo que a maioria das pessoas utilizava como um elogio, o adjetivo sempre gerou incômodo. O cabelo enrolado potencializava esse sentimento de não pertencer.

 

 

Mariane conta que as pessoas ao redor sempre cobraram a presença de uma cultura japonesa mais aflorada, mas que isso não aconteceu por falta de incentivo da família. Mais recentemente, ela começou a se identificar com as origens indígenas.

A agricultora se assusta ao perceber que o filho, de apenas dois anos, já anda ouvindo o adjetivo. “Ele é diariamente questionado: ‘Um japonês loiro do cabelo enrolado, que exótico!’ A pessoa vem e te fala ‘nossa, você é muito exótica, o que tem no seu sangue? Tipo… mano, o que é isso?”, critica.

Pois no sangue do filho de Mariane há traços italianos, japoneses, indígenas e tantos outros que formam essa mistura, não “exótica”, mas rica e única. Esse é o caminho inevitável da comunidade nipo-brasileira. O futuro é mestiço.

 

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