Educação especial atende alunos em vários ambientes – até em hospitais

Texto, fotos e áudios: Carolina Varoni

 

Educação especial é uma modalidade que compreende uma rede de apoio e de ensino a pessoas com deficiência. Essa educação é oferecida preferencialmente no ensino regular, mas também pode ocupar escolas especializadas para deficiências específicas, como para surdos, cegos ou com deficiência intelectual.

No Brasil, a inclusão escolar de pessoas com deficiência é fato, no entanto, passou por vários formatos até chegar ao modelo que é utilizado atualmente. Até o ano de 2008, o país seguia o chamado modelo médico, que entendia que as deficiências eram condições exclusivas dos indivíduos, ou seja, mantinham-se inalterados os ambientes e as atitudes da sociedade e focava-se na “cura” do indivíduo através de preceitos clínicos.

Com a implantação da PNEEPEI (Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva), em 2008, o modelo seguido passou a ser o modelo social, em que a deficiência passa a ser compreendida como oriunda do contexto social, ou seja, da sociedade. É por meio da acessibilidade e da quebra de barreiras sociais preexistentes que se vai definir a inserção desse sujeito nos ambientes sociais. A partir dessa política nacional é que a modalidade que pressupõe a inclusão de alunos com NEE (Necessidades Educacionais Especiais) se tornou foco no meio educacional.

Em Londrina, o progresso da inclusão de alunos com deficiência nas escolas da rede municipal não foi diferente. Em 1988 foi criado o Centro Municipal de Atendimento Psicopedagógico, que posteriormente se transformou no Serviço Municipal de Atendimento Psicopedagógico, que avaliava e atendia crianças com necessidades especiais. No entanto, foi só em 2009, após a implantação da PNEEPEI, que se formaram as primeiras salas de recursos multifuncionais, onde as crianças recebiam o chamado AEE (Atendimento Educacional Especializado), e, em conjunto, foi implementado o Sareh (Serviço de Atendimento Hospitalar) para os alunos da educação infantil e ensino fundamental internados no Hospital Universitário de Londrina.

A partir de 2010, no município, a educação especial passou a ser de responsabilidade da Geae (Gerência Educacional de Apoio Especializado). Cristiane Sola Rogério é gerente da Geae e explica que o AEE é um atendimento complementar à escola. “Todos os alunos com deficiência na rede municipal de educação de Londrina frequentam o ensino regular comum e, no horário inverso ao escolar, frequentam as salas de recursos multifuncionais, que é o Atendimento Educacional Especializado.” Além disso, alguns alunos precisam também de um professor na sala de aula regular, chamado professor de apoio, “que vai garantir, muitas vezes, a acessibilidade desse aluno ao ambiente escolar, dependendo da condição de cada um deles, e também a acessibilidade ao currículo, aos conteúdos que estão sendo trabalhados em sala de aula”. Essa dependência pode ser para alimentação, higiene, locomoção, desenvolvimento de atividades e até auxílio nas questões comportamentais.

Nas salas de recursos multifuncionais, o professor trabalha com a estimulação de habilidades para que a criança possa continuar estudando regularmente, explica Cristiane.

 

 

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Cristiane Sola Rogério, gerente da Geae

 

Além das salas de recursos multifuncionais e do Sareh, a Geae é responsável pelas classes especiais TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento). Esses transtornos englobam espectro autista e psicoses infantis. Em Londrina, existem quatro classes TGD, no ensino fundamental um, e duas classes no EJA (Educação para Jovens e Adultos), com no máximo cinco alunos, e em cada uma dessas classes dois professores com formação em educação especial.

Atualmente, a responsável por essas classes é a psicóloga Cleide Vitor Mussini Batista, que tem como proposta a educação terapêutica, em que os professores também passam por formação teórica. “Para poder pensar numa educação terapêutica os professores precisavam ser acompanhados. Esses professores começaram a receber uma proposta para poder pensar na construção das intervenções através da teoria e, com o tempo, fomos incorporando outras estratégias: como portfólio, que é a forma de acompanhar todo o desenvolvimento da área instrumental dessas crianças; implantamos outra forma de avaliação, um currículo adaptado para cada criança e intervenções culturais, nas quais transitamos pelo social: ir à boate, ao cinema, à feira, ao shopping, teatro, feiras literárias.”

Cleide explica que nessas classes TGD não se trabalha com o tempo cronológico da escola regular, mas com o tempo de cada indivíduo. “Por exemplo, se uma criança gosta de animais, vamos trabalhar com animais e, a partir disso, alfabetizá-la. Cada um por sua via de produção, seja pela linguagem, pela escrita, pela música, arte.” Cada criança fica nessa classe tempo suficiente para que possa se organizar e parar de ter crises, depois disso é feita uma avaliação e ela volta à classe regular. “Crianças que antes não ficavam um segundo dentro de sala de aula, hoje ficam, crianças que chegaram não falando hoje falam, não comiam e hoje comem. Mas é porque os professores acreditaram, apostaram”, orgulha-se Cleide.

 

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Alunos da classe TGD em atividade lúdica

 

Não é só nas classes TGD que se encontram os resultados dos trabalhos da Geae. Ao longo dos anos, Cristiane conta, houve várias conquistas dentro do setor que merecem destaque. Uma delas é a organização que foi feita na equipe, por região, dentro do município. “Hoje cada região tem uma psicopedagoga e uma psicóloga (às vezes até duas psicopedagogas dependendo do tamanho da região) atendendo às escolas. São seis regiões: sul, norte, leste, oeste, centro e rural. E cada região tem uma equipe que acompanha as escolas, que faz avaliação psicoeducacional, que orienta o profissional da sala de recursos e que dá formação continuada para os professores”, explica.

Além disso, a gerente também destaca a interação conseguida entre as redes de serviço em cada território, ou seja, uma união entre as escolas municipais, estaduais, creches, igrejas, UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e Centros de Referência de Assistência Social, de cada território para atender às necessidades das crianças e de suas famílias.

Outro ponto positivo foi a interação entre a própria equipe da Geae e desta equipe com a Secretaria Municipal de Saúde. “Dentro da nossa equipe fomos melhorando alguns fluxos de atendimento, por exemplo, [para] o aluno que tem sinal de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, fizemos uma interação junto com a Secretaria Municipal de Saúde para que esse aluno pudesse ter uma avaliação psicoeducacional na educação, medidas de intervenção por dois meses aplicadas pelo professor em sala de aula para só então, se não descartada essa hipótese, ele ir pro serviço de saúde.” Essa medida foi extremamente importante, porque há muitos problemas, não só relacionados aos transtornos, mas também à saúde mental, que podem ser solucionadas com a intervenção, tanto da família, como do professor, fazendo com que a criança não precise passar por tratamentos com remédios.

Para Cristiane, é importante destacar que o Paraná, no quesito educação especial, tem um diferencial comparado aos outros estados:

 

 

Educação além das salas

O Geae não oferece só assistência às crianças que possuem algum tipo de necessidade educacional especial. O grupo contempla também aquelas que em virtude de situação de internamento ou tratamento hospitalar ficam impossibilitadas de irem às escolas. Esse serviço é chamado de Sareh e é realizado no Hospital Universitário de Londrina.

O Sareh é uma parceria entre as secretarias de Educação municipal e estadual, que recebe ainda apoio técnico da divisão de serviço social do Hospital Universitário de Londrina, e atende às crianças matriculadas nos fundamental um e dois, ensino médio e educação especial. A equipe do serviço conta com uma pedagoga e cinco professores, sendo quatro da rede estadual e uma da rede municipal, que atendem durante todo o período de internação do aluno.

Gláucia Pereira Lima é professora da rede municipal de educação e atua no Sareh. Ela explica que primeiramente é feita uma avaliação diagnóstica na criança, por meio de uma atividade, para saber em que nível de aprendizado está. Caso ela fique no hospital por mais de um dia, o Sareh entra em contato com a escola em que essa criança estuda e pede para que sejam enviadas as atividades que serão realizadas no período de hospitalização. “Se a escola não manda, eu mesma monto as atividades baseadas naquilo que a criança está aprendendo na escola, ou algum jogo que a estimule. Esses jogos são sempre feitos de EVA [Etil Vinil Acetato], porque meus alunos geralmente têm algum tipo de bactéria, então eu faço os materiais para deixar para as crianças. Eu procuro trabalhar bastante com jogos, porque o ambiente aqui já é um ambiente pesado.”

 

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Glaucia Pereira Lima atende aos alunos da rede municipal hospitalizados no HU de Londrina

 

Quando as crianças recebem alta do hospital, elas entregam as atividades feitas aos professores e a professora do Sareh envia um relatório avaliativo à Secretaria Municipal de Educação. Lima explica que geralmente aqueles alunos atendidos pelo Sareh aprendem bastante enquanto estão hospitalizados, isso porque o atendimento é feito de maneira particular.

 

 

Lima, por ser professora da rede municipal, também é a responsável por atender os alunos com necessidades educacionais especiais hospitalizados. A média é de três alunos com NEE internados por mês, sendo que a média de alunos atendidos pelo Sareh no ano de 2016 foi de 234 por mês. Esses alunos, explica, geralmente chegam ao hospital em um estado mais crítico, então a professora foca em leitura de histórias, mas àqueles que chegam já alfabetizados são dadas atividades simples.

Lima conta que, apesar das dificuldades, o trabalho feito pelo Sareh é extremamente importante para as crianças internadas e, para ela, extremamente gratificante. “Eu adoro aqui, é totalmente diferente, não tem nada a ver com sala de aula, é cansativo, tanto fisicamente, porque aqui no hospital tudo é longe e estamos muito mais suscetíveis a doenças, quanto psicologicamente, porque temos que lidar com esse ambiente hospitalar e é muito triste ver uma criança internada, às vezes em estado grave, mas vale muito a pena.”

 

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