Cotas raciais: a divisão do privilégio universitário

Texto, áudio e vídeo: Daiane Araújo

 

O sistema de cotas raciais hoje é um dos assuntos mais polêmicos quando se discute o ingresso na universidade e, como a maioria dos assuntos polêmicos, muitas vezes falta entendimento e sobra opinião. No Brasil, a primeira vez em que o sistema de cotas foi utilizado foi em 2002 pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro),  destinado primeiramente para estudantes oriundos de escolas públicas. A primeira vez que se falou em cotas raciais foi em 2004 com a UnB (Universidade de Brasília) e, desde lá, é alvo de críticas positivas e negativas, pautadas em diversos discursos.

O primeiro passo para começar uma conversa a respeito dessa ação afirmativa é esclarecer que há dois tipos de cotas: as sociais, destinadas a estudantes vindos de escolas públicas, e as raciais, também destinadas a estudantes de escolas públicas, porém dentro das etnias de pretos, pardos e indígenas. O que podemos observar, no entanto, é que,  dentre as cotas, as que causam mais questionamentos, e muitas vezes até revoltas, são as destinadas a alunos afrodescendentes.

As cotas sociais por si só já justificam sua existência, pois há um grande abismo entre a qualidade de ensino de uma instituição pública e de uma privada; isto automaticamente reflete nas condições que os dois alunos terão em competir por uma vaga na universidade pública. Já as cotas raciais têm por objetivo corrigir uma injustiça histórica que é herança do período escravagista, o que acarreta em um ingresso consideravelmente menor na universidade por alunos afrodescendentes, resultando em menos oportunidades. Umas dessas heranças é que fatidicamente o racismo estrutura todas as relações sociais.

Na UEL (Universidade Estadual de Londrina), o início do sistema de cotas raciais foi aprovado em 2004, com as primeiras turmas ingressantes em 2005, quando foram destinadas 40% das vagas para cotistas, sendo 20% para alunos oriundos de escola pública e outros  20% para os que se autodeclaram pretos ou pardos. E como já era de se esperar, essa política foi alvo de muita resistência e protestos.

Uma das grandes responsáveis pela implantação do sistema de cotas na UEL foi a ativista Yá Mukumby, a dona Vilma, morta em agosto de 2013 por intolerância religiosa. Jamile Batista, que hoje é professora-assistente no Departamento de Ciências Sociais da UEL, formada em religiosidades de matrizes africanas e integrante do Neab  (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros), conta como conheceu dona Vilma: “Na minha primeira aula como graduanda do curso de sociais na UEL, a professora Maria Nilza levou dona Vilma, que fez uma apresentação da cultura negra e um balanço sobre o sistema de cotas, o qual ela era percussora e, como gostava de dizer, foi na cozinha dela que nasceu a luta pelo sistema de cotas em Londrina. Logo comecei a participar de projetos com a professora Maria Nilza, que escreveu a biografia de três personalidades negras, e uma delas foi dona Vilma, na qual eu ajudei a coletar as entrevistas”.

Jamile fala que com esse processo de coleta de entrevistas nasceu uma amizade muito forte entre ela e Yá Mukumby, que se estendeu durante toda sua graduação. Dona Vilma teve o papel de amiga e mentora de Jamile,  que ficou profundamente afetada pela sua morte. “No dia 3 de agosto de 2013, dona Vilma foi brutalmente assassinada em um ato de intolerância religiosa, junto com a mãe e a neta de nove anos, e foi no dia da minha formatura, era um dia que ela queria comemorar minha formatura, então é uma data que me marca e machuca muito. Mas aí, eu resolvi transformar isso em uma coisa positiva, e transformar isso de uma maneira positiva é ver cada aluno negro, cada aluna negra entrando na Universidade Estadual de Londrina. Eu vejo um pouquinho da dona Vilma ali e vejo que a luta dela não morreu.”

Em 2017, o sistema de cotas passou por uma revisão, quando o Conselho Universitário decidiu aumentar em 5% a quantidade de vagas reservadas. Essa porcentagem visa atender aquele aluno negro que estudou em escola particular, pois um dos pontos considerados é que ele não fica isento ao racismo institucional. “Nós percebemos que mesmo que o aluno esteja em uma escola particular, ele não vai deixar de sofrer o preconceito por ser negro, e todos os problemas que ele enfrenta por conta da cor vão ser levados em sua trajetória escolar”, avalia Jamile. Ela também fala que o conselho analisou várias outras exceções que foram deixadas de lado no primeiro momento: “Esses 5% também são pra atender aquele aluno negro que o pai consegue bolsa em colégio particular, que a gente sabe que além do preconceito racial ele ainda vai sofrer uma discriminação socioeconômica, as pessoas vão saber que ele é bolsista”. Confira abaixo o que Jamile fala sobre as reuniões de reavaliação das cotas na UEL.

 

 

Embora o sistema de cotas tenha sido uma grande vitória da população negra, os desafios e as lutas são diários. Os alunos cotistas têm que lidar constantemente com preconceitos de estudantes e até de docentes que não veem essa ação afirmativa como um avanço para a universidade. Ruthe Oliveira, ex-aluna do curso de jornalismo na UEL, relata um pouco da sua experiência como aluna cotista: “Eu optei pelas cotas mesmo sem ter a consciência do peso e importância delas, a consciência em relação à importância veio com o tempo”. Ruthe também fala do inesperado preconceito de alguns alunos e até mesmo de professores, que em diversos momentos faziam questão de esboçar suas opiniões contrárias às cotas, deixando-a constrangida perante à sala. “Essa sensação de desajuste me acompanhou por quase todo o curso, me convenci mesmo da importância de estar ali, na universidade e neste curso que sempre considerei elitista, nos dois últimos anos de UEL.”

Infelizmente, Ruthe não é um caso isolado. A rejeição ao sistema de cotas ainda é muito grande, e assim como o racismo ela se manifesta de forma velada, alimentada pelo velho discurso da meritocracia. Outro argumento bem utilizado é que as cotas raciais também são uma forma de discriminação e que os estudantes cotistas não iriam conseguir “acompanhar” os demais estudantes durante a vida acadêmica. E uma das falhas apontadas no sistema é a dificuldade de se evitar fraudes, pois na maioria das universidades o que realmente conta é como o estudante se autodeclara.

Como tentativa de evitar essa fraude, na UEL o estudante que passa no vestibular pelo sistema de cotas precisa fazer posteriormente uma entrevista com um conselho da universidade, na qual um dos critérios analisados é o tom da pele desse estudante. O argumento de que os estudantes cotistas não “acompanham” intelectualmente os não cotistas se desfaz por meio das estatísticas da própria universidade, que apontam que eles  têm  desempenho igual ou melhor que os demais.

Rodolfo Londero, professor do departamento de comunicação da UEL, foi membro do Conselho Universitário e acompanhou as discussões a respeito desse processo de revisão das cotas raciais. Ele também vê o sistema com uma avaliação positiva.

 

 

Mesmo que o sistema de cotas tenha sido um grande avanço, a questão da representatividade negra na universidade ainda é um assunto muito delicado, em decorrência de um problema social das múltiplas falhas no percurso escolar desse aluno negro e das muitas das vagas destinadas a cotistas que não são preenchidas, principalmente em cursos considerados elitistas.

Beatriz Cardoso, aluna do segundo ano do curso de arquitetura, fala um pouco como é ser a única aluna negra da sua turma:  “No meu curso o total de vagas destinadas a alunos cotistas é 16, mas no meu ano apenas eu entrei, e foi na universidade que eu senti pela primeira vez o que é ser negra, e me percebo diferente até pela maneira que sou tratada por alguns colegas de sala, seja por piadinhas racistas ou por pré-julgamento de alguns, que pensam talvez que eu não tenha a mesma bagagem cultural”. Beatriz também reconhece que o sistema de cotas foi um ganho não só para o aluno negro, mas também pra toda a comunidade negra estando ela ou não na universidade: “A mudança que eu vejo é como isso interfere nas famílias negras, nas quais tinha-se uma mentalidade que a universidade não era para pessoas de nossa cor, quando na verdade ela precisa ser para pessoas de qualquer cultura ou etnia, e isso muda muito porque você começa a ver o quanto isso é seu por direito”.

 

foto Beatriz (2)

Beatriz Cardoso, estudante de arquitetura na UEL (Crédito: Giovanni Porfírio)

 

A mudança vem sendo gradativa, mesmo que em muitos casos seja em um processo a conta-gotas. Na Unesp (Universidade Estadual Paulista), o sistema de cotas foi utilizado tardiamente em 2013. A USP (Universidade de São Paulo), uma das universidades mais renomadas do país, teve o sistema de cotas implementado apenas em 2017, destinando 37% do total de vagas para alunos que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas.

A avaliação das alunas entrevistadas é a mesma, de que é preciso acabar com o mito da democracia racial, e trabalhar por uma mudança de mentalidade. Enquanto isso não acontece, as cotas raciais se fazem necessárias. Beatriz relata que o sistema de cotas para ser efetivo precisa atingir mesmo que indiretamente a vida de toda comunidade acadêmica: “Isso de estar na universidade talvez seja visto como algo natural pra alguns grupos de pessoas, mas para a família negra vem sendo um processo de construção, o compartilhamento desse espaço com pessoas que têm histórias de vida e cultura diferentes tende a ser muito enriquecedor para ambas as partes, e as pessoas precisam entender que elas também são impactadas pela vida de outras. Enquanto isso não acontece, nós estudantes negros precisamos nos empoderar e sermos a nossa própria representação”. Para entender melhor tudo isso, que tal escutar a música de Bia Ferreira?

 

 

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